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Ataque nazista ou agressão gratuita? Disputa de narrativas marca caso de espancamento na UFRJ

Estudante diz que sofreu ofensa racista, enquanto vítima de agressão fala em campanha para legitimar ataques.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
Disputa de narrativas estudante espancado UFRJ
Fonte da imagem: Reprodução

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Recentemente viralizou nas redes sociais um vídeo de um estudante de história sendo espancado por um grupo de colegas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Os alunos interromperam a aula para questionar Diego Costa da Silva Araújo sobre sua camiseta, que apresentava um suposto símbolo ligado à Alemanha nazista.

A roupa era da banda britânica Death in June e ostentava a Totenkopf, caveira utilizada nos uniformes da SS, organização paramilitar da elite do partido nazista.  

No entanto, a banda Death in June se opõe à ideologia neonazista. Seu vocalista, Douglas Pearce, é assumidamente gay e a banda chegou a se apresentar em Israel.

Os vídeos começam com Diego Costa da Silva Araújo sendo agredido na escadaria da faculdade, em outro momento ele segue apanhando fora da instituição, no centro da capital Carioca.

Os alunos interromperam a aula para questionar Diego Costa da Silva Araújo sobre sua camiseta, que apresentava um suposto símbolo ligado à Alemanha nazista.

As narrativas sobre o episódio começam a variar nesse momento, já que agressores e o jovem agredido apresentam versões opostas.

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Um caso e duas versões

Segundo Deivid Lima contou em entrevista para o jornal O Globo, Diego o agrediu e fez insultos racistas logo após ser abordado:

Ele me deu uma cotovelada muito rapidamente, pegou meu cabelo e disse: ‘macaco, vou te matar’. Ao chegar ao final da escada, bati a cabeça na parede, ele se inclinou e puxou o meu cabelo. Foi assustador, porque ele rosnava e tentava me morder”.

O estudante de direito que aparece participando das agressões nos vídeos chegou a abrir um Boletim de Ocorrência pelo crime de injúria racial e passou pelo exame de corpo de delito.

Além disso, Deivid afirma que o jovem espancado começou a fazer provocações contra as pessoas que passavam para tentar motivar as agressões:

Quem era negro, ele chamava de macaco. Quem era mulher, ele dizia que era puta. Ele começou a proferir essas ofensas provavelmente para que as pessoas quisessem bater nele. Tanto é que, quando ele sai da faculdade, dá um tchauzinho, e isso deixa o pessoal mais estressado. Aí que foram atrás dele.”

Diego conta uma história completamente diferente. Ele afirma que foi retirado da sala de aula acreditando que seria levado para uma delegacia, como contou na entrevista para Pedro Dória:

Esse estudante de direito não quis me ouvir… falou que estava me dando voz de prisão, que eu seria conduzido até uma delegacia para me explicar de porque que estava usando estes símbolos.”

Para ele, isso foi apenas uma armadilha, uma forma de tirá-lo da sala de aula para dar início a uma sessão de espancamento.

O jovem destaca que estava usando uma jaqueta com um broche que tinha uma suástica riscada, um símbolo de sua oposição ao regime de Adolf Hitler.

Além disso, Diego afirma que diversos alunos estão tentando espalhar uma narrativa de que ele estaria tentando criar uma célula redpill dentro do campus.

Ele afirma que isso era uma mentira criada para destruir sua reputação e tentar legitimar a violência que ele sofreu.

Durante a entrevista, Diego chega a mostrar alguns comentários feitos no diretório acadêmico, incluindo um que falava “só não circula a p**** do vídeo mais e vamos controlar a narrativa”.

Jovem conta que já era alvo do movimento estudantil

Apesar de se assumir como um simpatizante dos ideais marxistas e até mesmo ter trabalhado para traduzir um texto de Lênin, Diego já tinha uma relação de tensão com o movimento estudantil.

Essas pessoas não estão preparadas para o diálogo, essas pessoas são extremistas, essas pessoas são violentas. Eu sempre sofri uma certa represália por ter opiniões contrárias ao pensamento hegemônico da faculdade, é uma richa que já tem um tempo.”

O que o jovem narra nessa fala é um cenário comum nas universidades brasileiras, o que pode ser conhecido pelo nome “espiral do silêncio”.

De acordo com a pesquisadora especializada em opinião pública, Noelle-Neumann, as pessoas tendem a descobrir qual a visão dominante em um determinado ambiente e a reproduzem para evitar confrontos.

O pensamento hegemônico em um determinado lugar não é necessariamente aquele compartilhado pela maioria das pessoas, mas o com maior repercussão.

Em muitos casos, a maioria das pessoas podem até pensar de forma diferente, mas escondem suas visões, pois acreditam que são minoria.

A espiral do silêncio dentro das universidades é um dos temas do documentário original Unitopia.

A Brasil Paralelo levou suas câmeras para as instituições de ensino mais famosas do Brasil para ver a real situação do ensino. Assista ao primeiro episódio abaixo:

Universidade fez crítica ao antissemitismo

Em uma nota oficial, a reitoria da UFRJ repudiou veementemente qualquer tipo de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo e a qualquer forma de intolerância ou discriminação.

Além disso, ressaltou que não admite agressões físicas como resposta a provocações ou divergências ideológicas.

Por fim, a universidade afirmou que vai organizar ações com a comunidade estudantil para evitar a escalada de novos conflitos no campus.

O caso se tornou objeto de um inquérito da polícia, além de alvo de uma sindicância instalada pela própria universidade.

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