Seria possível o fascismo voltar hoje em dia? O filme A Onda discute este problema

Redação Brasil Paralelo
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21/1/2022
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Um governo como o nazista é algo impossível de acontecer novamente na Alemanha. Com esta provocação se desenvolve o filme A Onda. Foi um aluno de ensino médio quem afirmou isto para o professor Rainer Wenger.

O docente busca na história lições de manipulação de massas e promove um experimento totalitário com sua turma para provar que o aluno estava errado. Mas as coisas saem de controle.

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Resumo do filme A Onda

A Onda é um filme de drama e thriller alemão de 2008, dirigido por Dennis Gansel. O enredo surgiu a partir da adaptação do livro homônimo do norte-americano Todd Strasser. A história é inspirada no caso real do professor Ron Jones, que conduziu uma experiência social com os seus alunos do ensino médio.

Rainer Wenger, protagonista do filme, é um professor de ensino médio que defende ideias anarquistas. Quando sua escola desenvolve um projeto extracurricular, ele é selecionado para lecionar aos alunos sobre autocracias.

O desejo de Wenger era lecionar sobre anarquismo, mas outro professor foi apontado para este projeto. Para sua surpresa, muitos alunos aparecem na sua aula. 

O curso extracurricular duraria uma semana e Wenger deveria explicar as implicações de um regime autoritário. Porém, seu experimento extrapola a sala de aula e seu controle.

O professor instaura na classe um sistema ditatorial. Ele é o grande líder, quem faz as regras e determina como as coisas vão acontecer.

As cadeiras são rearranjadas, todos os alunos devem vestir uniformes e para falar é necessário esperar sua vez e levantar-se.

O movimento começa a ganhar força e atrair mais alunos. O grupo cria seu nome, "A Onda", uma saudação, um logotipo e o movimento vai ganhando forma e força.

Logo, os alunos da classe sobre anarquismo, liderada por outro professor, são encarados como inimigos. Os projetos tomam formas como se fossem gangues rivais ou partidos políticos em disputa.

Rapidamente surgem conflitos entre os anarquistas e os membros da Onda. Alguns alunos passam a se envolver tanto que de fato devotam a vida à causa. Um destes jovens é Tim, o qual é negligenciado pelos pais e encontra n'A Onda seu grande propósito.

O adolescente chega a comprar uma arma para enfrentar os adversários do movimento.

O projeto extrapola o limite da sala de aula e passa a afetar as relações pessoais de Wenger e dos alunos.

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Qual é o objetivo do filme A Onda?

O filme se desenvolve a partir dos cursos extraclasses sobre anarquismo e autocracia. A escola os propôs para ajudar os alunos a valorizarem mais a democracia. Os jovens do ensino médio que estão no filme são a terceira geração alemã depois do nazismo.

Quando Wenger apresenta o passado sangrento da Alemanha Nazista, a postura dos alunos chega ao deboche. Um adolescente chega a afirmar que seria impossível a Alemanha viver algo como o nazismo novamente, em tempos de democracia consolidada.

Diante da indiferença dos alunos, Wenger estuda casos históricos de grandes ditadores que com seus discursos souberam manipular as massas.

O professor propõe um experimento para conscientizar seus alunos. Seu objetivo era mostrar como é fácil cair em um discurso e numa postura autoritária.

Wenger quer mostrar o perigo das ideologias e como elas sutilmente podem comandar as pessoas, seus pensamentos, sentimentos e ações.

O professor começa apresentando o conceito de autocracia, um termo que veio do grego antigo e significa poder absoluto.

Logo na primeira aula, Rainer fala com os seus alunos sobre o passado sangrento da Alemanha nazista e a classe debate os perigos do nacionalismo extremista e dos discursos de ódio. Um dos adolescentes afirma, então, que é impossível que a Alemanha volte a ser dominada pelo fascismo.

O intuito da experiência social de Rainer Wenger é mostrar aos seus alunos o quão fácil é ser manipulado pela força do discurso de massa e aderir a um comportamento autoritário. 

A ideologia passa a governar a vida dos alunos sem que sequer eles percebam.

O grupo de adolescentes é extremamente influenciável. O professor é visto como líder e formador de opinião.

O objetivo do filme é mostrar como a massa ainda pode ser manipulada e como uma ideologia mal orientada e extremista pode causar estragos. Principalmente numa juventude que ainda está em formação, com problemas de identidade e em processo de formação da personalidade.

O que podemos aprender com o filme A Onda?

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Cena do filme A Onda, o professor Rainer Wenger explica o que é Autocracia.

O filme A Onda mostra os reais perigos do autoritarismo e do totalitarismo que, disfarçados sob bons pretextos, aos poucos vão manipulando as pessoas sem que elas percebam.

Ele apresenta e discute os problemas do autoritarismo e alerta para a possibilidade do ressurgimento de uma visão fascista do mundo contemporâneo.

  • O que define o fascismo? Descubra agora suas 8 principais características.

O experimento real de Ron Jones que inspirou o livro e o filme não se passou na Alemanha. O filme foi feito no país bávaro justamente para transmitir um sentimento que perpassa no país: de que o nazismo é algo superado, não se afigura mais como um risco.

O professor consegue trazer e impor uma visão autoritária para seus alunos, de maneira despercebida.

Eles usam de sinais para se comunicar, mas não têm relação com o nazismo: afinal, jogadores de basquete também se comunicam assim. Os uniformes não remetem a militarização das ditaduras: na verdade, eles deixam as pessoas mais iguais.

  • Saudação própria, símbolo, partido, militarismo, estas características se repetem na história dos regimes totalitários. Veja como estes símbolos estão presentes no nazismo.

E com jogos de palavras e recursos retóricos, aos poucos o professor vai manipulando os alunos e levando adiante seu experimento. A mudança é intensa.

No início do filme, numa cena na sala de aula, os alunos se vestem de acordo com suas personalidades e interesses. Portam-se como adolescentes normais, conversam em sala de aula, são desleixados e muitas vezes interrompem a aula com conversas paralelas.

Com o avanço d'A Onda, os alunos tornam-se um bloco completamente coeso. Todos usam as mesmas roupas, saúdam-se da mesma maneira, obedecem todas as ordens do professor sem ao menos refletir o que ele pede.

São duas salas de aula completamente diferentes, apesar de elas serem compostas pelos mesmos alunos.

A Onda não adverte apenas os perigos do nazismo e do fascismo. Todo totalitarismo é denunciado no filme. Ideias próprias do comunismo como justiça social, igualitarismo e igualdade aparecem na trama do filme.

Aos poucos, a turma começa a incorporar o autoritarismo no modo de falar. O professor se encanta com seu poder e seu controle. É aí que ele perde o controle sobre o projeto.

Existe um cenário que leva os alunos a aceitar esse totalitarismo. Eles estão perdidos, envoltos em um clima hedonista, sem um sentido maior para suas vidas e carregados de problemas.

O filme cita a celebridade Paris Hilton como grande referência para os jovens. No início da produção eles vivem em festas, com muita bebida, envoltos em relações instáveis e sem que seus pais sequer se preocupem com eles.

Os alunos, diante destes problemas e da falta de sentido para suas vidas, aderem ao totalitarismo. Nenhum deles enfrenta problemas financeiros graves, simplesmente não sabem o que fazer ou aonde ir: seus valores são materialistas e suas existências vazias.

É neste quadro que a ameaça totalitária se faz muito atraente. Dado o vazio existencial que eles vivem, há uma possibilidade razoável d'A Onda fazer sentido.

Se a vida não tem sentido, é melhor projetá-lo no movimento.

Há um paralelo entre os alunos neste cenário e os alemães da década de 30 diante dos problemas econômicos e a desilusão com o governo. Ambos os cenários favoreceram a ascensão do totalitarismo.

Um experimento que começou dentro da escola, da sala de aula, tornou-se totalmente a identidade dos alunos.

Na história, o professor é diferente dos alunos. Ele usa a mesma camisa, segue a mesma ideologia, mas diferencia-se, está num patamar superior. Ele é o líder e condutor, o Duce deste movimento fascista.

Mussolini, ao tomar o poder, exigiu dos italianos ser tratado pelo título de Duce. A tradução da palavra é duque, fazendo referência aos grandes líderes das repúblicas medievais italianas.

Assim como nos regimes totalitários, o professor está acima da própria lei. Ele é a lei. E aos poucos também vai se tornando uma figura divinizada pelos seguidores.

Os alunos simplesmente se conformam e obedecem ao símbolo que é A Onda e ao professor. Eles foram completamente domesticados. Sequer refletem o que fazem.

O filme mostra de maneira muito visual e clara o que é o fascismo e quais são suas consequências.

Para Guilherme Freire, professor de filosofia, as consequências do fascismo e das ideologias totalitárias é:

“Elas levam para o caminho da morte. Como afirma Platão: ‘Quando você chega na tirania, o próximo passo é a morte’. A característica fundamental do tirano é o desejo de matar, e, a partir desse ponto a sociedade entra em colapso”.
  • O cinema frequentemente é utilizado como uma ferramenta de controle e propaganda social. Entenda como assistindo ao 2o episódio da nossa série A Sétima Arte.

A ameaça totalitária que marcou a virada do século XX está ainda muito presente no imaginário das pessoas.

Até que ponto as pessoas estão sujeitas a uma ameaça totalitária? A Onda apresenta isso, alerta para a possibilidade de como as pessoas podem ser educadas e doutrinadas para o totalitarismo, mesmo aquelas que se julgam imunes.

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Como o professor influenciou seus alunos no filme A Onda?

Como nasce um regime totalitário? Os primeiros passos empreendidos por Rainer e a sua classe no experimento são importantes para compreender como o totalitarismo surge, instala-se e toma conta.

Na primeira aula, os alunos aprendem que numa autocracia existe um indivíduo que dita as regras para a população. Essas regras podem mudar a qualquer momento. O líder é investido de um poder ilimitado.

Em seguida, alguns alunos apontam fatores que contribuem para a instauração de um governo autoritário:

  • desigualdades sociais;
  • desemprego;
  • injustiça;
  • inflação;
  • nacionalismo exacerbado;
  • uma ideologia.

Depois das respostas, um dos estudantes afirma que o nazismo nunca conseguiria regressar à Alemanha. Diante da afirmação, o professor declara que está na hora do intervalo. 

Quando os alunos voltam do recreio, as mesas foram mudadas de lugar. Wenger altera as regras de forma súbita, este é um momento de mudança, o experimento passa a ser instalado.

Continuando a lista, os alunos afirmam que uma ditadura precisa também de controle, vigilância e de uma figura central que concentre o poder.

Sem muito esforço de persuasão e promovendo uma votação aparentemente democrática, o professor é escolhido para ocupar a função de líder. 

Sua conduta se altera. Agora, ele apenas quer ser tratado por "Senhor Wenger" e exige respeito às suas ordens. Como líder, Wenger estabelece novas regras:

  • uso de uniforme;
  • saudação padrão no início das aulas;
  • tratamento formal para o professor;
  • falar somente quando autorizado e estando de pé;
  • alunos agrupados em duplas contendo um com boas notas e outro com notas ruins. 

O uniforme padronizado e o agrupamento das relações de modo utilitário servem para anular a individualidade de cada um. 

Os interesses e as liberdades pessoais dos jovens são substituídos pelas necessidades do projeto de Wenger, que representa o Estado autoritário.

  • Pessoas aderiram a tal ponto aos governos totalitários que perderam a capacidade de tomar decisões próprias. Chegaram a matar simplesmente por ordem do governo. Entenda a ideia de Banalidade do Mal envolvida neste processo.

Em seguida criam uma saudação para o grupo que se assemelha às saudações do nazismo e do fascismo.

A sala, que antes era cheia de barulho e de vida, torna-se silenciosa e ordeira. Quando chamados por Rainer, os alunos têm que levantar e responder de forma disciplinada e militar.

O professor afirma que "disciplina é poder" e expulsa três estudantes que se recusam a obedecer, deixando notória a sua autoridade perante o grupo.

Aos poucos, os alunos vão incorporando os gestos e as ideias de A Onda. Reconhecem a autoridade do professor e cumprem tudo que ele ordena sem questionar.

Assim, sob o bom pretexto da ordem e da disciplina, o professor envolve os alunos em seu projeto ideológico totalitário.

Da mesma forma que os grandes ditadores da história, o discurso do professor soube persuadir as massas criando um(a):

  • identidade;
  • identificação;
  • propósito;
  • projeto;
  • inimigo a ser combatido.

A Onda se espalha e gera divisões na própria escola, nas famílias e nas relações pessoais das personagens.

A violência com o grupo contrário escala e aos poucos perde-se a individualidade de cada aluno, predomina o coletivo e os interesses de A Onda.

A história real por trás do filme A Onda

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Jornal americano noticiando a polêmica A Terceira Onda.

A história d'A Onda foi baseada em fatos reais. Contudo, a narrativa real foi menos trágica. Em 1967, o professor de história norte-americano Ron Jones resolveu criar um experimento social para explicar aos seus alunos como o nazismo poderia retornar à nossa sociedade.

Ele lecionava no ensino médio de uma escola em Palo Alto, na Califórnia. O professor criou o movimento "A Terceira Onda". Ele conseguiu convencer os estudantes de combater a democracia e a ideia de individualidade. 

Embora os eventos mais violentos representados no filme sejam ficcionais, o caso na época, provocou um escândalo nacional.

O experimento surgiu da incapacidade do professor de responder aos questionamentos de seus alunos sobre como o povo alemão teria sido capaz de apoiar as atrocidades nazistas.

No período de uma semana, Jones transformou sua classe de 30 alunos em um verdadeiro movimento fascista.

Os alunos vestiam o uniforme do movimento, faziam uma saudação e foram doutrinados ideologicamente.

Começando com simples exercícios de como sentar-se apropriadamente nas carteiras, Jones passou a impor-se como uma figura autoritária em sala de aula. Os mais altos valores por ele defendidos passaram a ser comunidade, força e, sobretudo, disciplina.

Em menos de três dias, Jones não apenas percebeu um aumento da eficiência de sua turma, como o número de presentes e interessados se ampliou. Muitos jovens desejavam ingressar na comunidade que ele havia criado.

O nome escolhido pelo professor para o grupo foi A Terceira Onda, numa referência à crença mítica de que a terceira onda de uma maré é sempre a mais forte. 

Ao chegar quinta-feira, Jones percebeu que o experimento estava fugindo ao seu controle, com jovens apresentando-lhe denúncias uns contra os outros. Eles acreditavam que certos colegas não se dedicavam satisfatoriamente aos preceitos d'A Terceira Onda. 

O professor anunciou então que todos fariam um comício no dia seguinte. Ron Jones chegou a afirmar que eles eram apenas uma pequena parte de um movimento de amplitude nacional.

O movimento já contava com candidato à presidência, o qual faria um discurso em cadeia de televisão. 

Na sexta-feira, enquanto os militantes juvenis aguardavam um sinal de transmissão que jamais viria, Jones revelou-lhes que todos haviam participado de uma experiência sobre como o fascismo poderia triunfar no seio de uma sociedade.

O controverso episódio sugere que:

  1. os jovens estão mais sujeitos a influência de ideais autoritários, por conta das angústias que determinam esta fase do processo de amadurecimento;
  2. uma ideologia, sob boas justificativas como comunidade e disciplina, pode ser capaz de conquistar o apoio popular.

Em 1981, o escritor Todd Strasser se inspirou na experiência para escrever A Onda e, no mesmo ano, surgiu uma adaptação televisiva, homônima, de Alexander Grasshoff. 27 anos depois surgiu o filme alemão que é resumido neste artigo.

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