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O Exército Vermelho em Berlim: o lado oculto da vitória de 1945

Estupros em massa, assassinatos e abusos contra civis: a barbárie no fim da Segunda Guerra Mundial ainda é pouco discutida.

Por
Caio Minucci
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Soldados russos segurando a bandeira soviética com o portão de Brandemburgo ao fundo, no centro de Berlim.
Fonte da imagem: Reprodução

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A derrota da Alemanha nazista em 1945 marcou o fim de um dos regimes mais brutais da história. Para milhões de pessoas, a chegada dos Aliados significou o encerramento de uma guerra que havia devastado a Europa. Mas, nos territórios ocupados pelo Exército Vermelho, a vitória também foi acompanhada por episódios de violência contra civis que permaneceram durante décadas à margem da memória pública.

Entre os casos mais controversos estão os estupros cometidos por soldados soviéticos contra mulheres alemãs e de outros países do Leste Europeu. Historiadores estimam que centenas de milhares de mulheres foram vítimas de violência sexual, com algumas estimativas chegando a dois milhões de vítimas em toda a Alemanha.

Como essa violência foi possível? Qual foi a dimensão dos abusos? E até que ponto o comando soviético sabia do que acontecia?

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A guerra de extermínio contra a União Soviética

Para entender o que aconteceu em 1945, é preciso voltar quatro anos no tempo.

Em junho de 1941, Adolf Hitler autorizou a invasão da União Soviética, a chamada Operação Barbarossa. O conflito no front oriental não seguiu os padrões de uma guerra convencional. Desde o início, a campanha alemã foi acompanhada por execuções em massa, destruição de cidades e perseguição deliberada de populações civis.

Prisioneiros de guerra soviéticos morreram aos milhões em campos a céu aberto. Civis foram executados e enterrados em valas coletivas. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética teria perdido cerca de 27 milhões de pessoas, o maior número de mortos entre os países envolvidos no conflito.

Quando a maré da guerra começou a mudar, em especial depois da batalha de Stalingrado, o Exército Vermelho iniciou o avanço de volta para o território ocupado pelos alemães.

O caminho passava por cidades destruídas, aldeias arrasadas e regiões nas quais a população soviética havia sido submetida a anos de violência.

Nesse contexto, a propaganda também desempenhou um papel importante.

O escritor e jornalista soviético Ilya Ehrenburg tornou-se uma das principais figuras da campanha de propaganda contra os alemães. Em seus textos, frequentemente publicados em jornais destinados aos soldados soviéticos, os alemães eram retratados de maneira desumanizada e como inimigos que deveriam ser punidos.

Uma das passagens mais conhecidas atribuídas a Ehrenburg dizia:

“Não contem os dias; não contem os quilômetros. Contem apenas o número de alemães que mataram.”

A propaganda soviética não foi, por si só, responsável pela violência que viria a ocorrer, mas historiadores discutem até hoje em que medida esse discurso de vingança contribuiu para a brutalização das tropas.

Em outubro de 1944, os primeiros soldados soviéticos cruzaram a fronteira da Alemanha. Na pequena cidade de Nemmersdorf, na Prússia Oriental, civis foram mortos, episódio que a propaganda nazista explorou para tentar convencer a população alemã de que a chegada dos soviéticos significaria uma catástrofe.

A população alemã ainda não sabia o que aconteceria nos meses seguintes.

A chegada dos soviéticos e a onda de estupros

A partir da ofensiva soviética de 1944, o Exército Vermelho avançou rapidamente pelo território alemão.

Segundo o historiador britânico Antony Beevor, autor de Berlim 1945: A Queda, pelo menos 1,4 milhão de mulheres teriam sido violentadas durante esse período.

Os números, porém, variam bastante conforme a fonte e o método utilizado para estimar as vítimas. Em Berlim, registros hospitalares apontam mais de 100 mil casos, enquanto estimativas para toda a Alemanha vão de várias centenas de milhares a até dois milhões.

A violência não atingiu apenas mulheres alemãs.

Polonesas também foram vítimas. O mesmo ocorreu com mulheres russas, ucranianas e bielorrussas que haviam sido levadas à força para a Alemanha pelos nazistas para trabalhar como escravas e que, com a chegada do Exército Vermelho, esperavam ser libertadas.

Relatos reunidos pelo correspondente de guerra soviético Vassili Grossman mostram que algumas dessas mulheres também denunciaram abusos cometidos pelos próprios soldados soviéticos. Zakhar Agranenko, oficial dos fuzileiros navais na Prússia Oriental, registrou em seu diário episódios de estupros coletivos, cometidos por grupos de nove, dez ou até doze soldados. Segundo os relatos reunidos por Beevor, algumas mulheres tentavam se oferecer a um único soldado na esperança de escapar da violência de um grupo inteiro.

Beevor também estima que até metade das vítimas poderia ter sido submetida a estupros coletivos.

Os relatos abrangem mulheres de idades extremamente diferentes. As vítimas teriam entre 8 e 80 anos.

Segundo os testemunhos reunidos pelo historiador, alguns soldados consumiam grandes quantidades de álcool antes dos ataques. Em certos casos, a violência prosseguia mesmo quando estavam incapazes de consumar o estupro, recorrendo a objetos e causando graves ferimentos.

Uma mulher em Berlim

Um dos testemunhos mais conhecidos surgiu do diário de uma jornalista alemã identificada posteriormente como Marta Hillers.

Entre abril e junho de 1945, Hillers registrou o cotidiano da ocupação soviética em Berlim. Seu relato descreve o medo, a fome e, sobretudo, a violência sexual sofrida pelas mulheres que permaneceram na cidade.

No primeiro dia da ocupação, Hillers teria sido estuprada duas vezes. Naquela mesma noite, outros soldados invadiram seu apartamento.

Diante da ameaça constante, ela tomou uma decisão que descreveu como uma estratégia de sobrevivência: procurou um oficial soviético de alta patente e tornou-se sua “protegida” em troca de comida e da promessa de ser poupada de outros soldados.

O diário foi publicado anonimamente em 1953, com o título Uma Mulher em Berlim.

A obra provocou controvérsia.

Durante anos, a identidade de sua autora permaneceu desconhecida. Quando o livro voltou a ser publicado na Alemanha, Hillers foi acusada por alguns críticos de estar “sujando a honra das mulheres alemãs” ao contar o que havia acontecido.

Ela decidiu não permitir uma nova publicação enquanto estivesse viva.

Marta Hillers morreu em 2001.

Em 2003, o livro foi reeditado na Alemanha e passou a ser recebido de forma muito diferente. Cinco anos depois, o diretor Max Färberböck levou a história ao cinema no filme Uma Mulher em Berlim, estrelado por Nina Hoss.

A obra ajudou a levar para um público mais amplo um episódio que, durante décadas, havia sido pouco discutido.

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Stalin sabia do que estava acontecendo?

A dimensão dos abusos levanta uma pergunta ainda mais importante: o comando soviético sabia o que acontecia com as mulheres nos territórios ocupados?

Historiadores apontam diferentes fatores para explicar a violência: o trauma acumulado por quatro anos de guerra, a propaganda de vingança e o colapso da disciplina militar estão entre os elementos mais frequentemente citados.

Mas há evidências de que o alto comando soviético recebeu informações sobre os abusos.

Segundo Antony Beevor, o chefe da NKVD, Lavrenti Beria, e Josef Stalin tinham conhecimento do que ocorria. A NKVD, responsável pela segurança interna e pela repressão política soviética, recebia relatórios sobre acontecimentos no front e nos territórios ocupados.

Entre esses documentos estão depoimentos de vítimas.

Uma alemã chamada Emma Korn relatou durante um interrogatório ter sido estuprada por doze soldados, além de outros abusos cometidos posteriormente contra mulheres que se escondiam em um porão com crianças. De acordo com o relato, ela e outras vítimas chegaram a tentar o suicídio coletivo.

Há também um episódio registrado pelo político comunista iugoslavo Milovan Djilas, que teria reclamado a Stalin sobre o comportamento das tropas soviéticas.

Stalin teria questionado por que um soldado que havia atravessado milhares de quilômetros de guerra não poderia “se divertir” com uma mulher ou levar algum objeto consigo.

Ao mesmo tempo, houve militares soviéticos que tentaram impedir os excessos.

Um dos casos mais conhecidos é o de Lev Kopelev, comissário político no front.

Kopelev procurou conter os abusos praticados contra civis e acabou preso pelo serviço de contrainteligência. Foi acusado de “propaganda do humanismo burguês” e de “piedade com o inimigo”.

Sua punição foi de nove anos no Gulag.

Nos meses posteriores à queda de Berlim, os próprios marechais soviéticos emitiram ordens internas tentando conter a violência.

Isso não significa, entretanto, que os abusos tenham sido pequenos ou excepcionais.

As consequências para uma geração

A violência sexual deixou consequências que ultrapassaram os meses imediatamente posteriores à guerra.

As autoridades de ocupação permitiram o aborto para vítimas de estupro. Ainda assim, estimativas apontam que cerca de 200 mil crianças podem ter sido concebidas em estupros cometidos por soldados soviéticos.

O número é uma estimativa e deve ser tratado como tal, mas ajuda a compreender o episódio.

Para muitas das vítimas, falar sobre o assunto não era uma opção.

Na Alemanha Ocidental, mulheres frequentemente permaneceram em silêncio. Maridos não perguntavam. Filhos cresceram sem saber o que havia acontecido com suas mães. Muitas vítimas morreram sem jamais revelar suas experiências.

Na Alemanha Oriental, a situação era ainda mais delicada.

Sob influência soviética, o Exército Vermelho era apresentado oficialmente como o libertador da Alemanha do nazismo. Falar sobre crimes cometidos por seus soldados entrava em choque direto com essa narrativa.

Na própria União Soviética, o tema praticamente desapareceu do discurso público.

O silêncio depois da guerra

O silêncio começou a ser quebrado lentamente.

Livros, documentários e pesquisas acadêmicas passaram a discutir de forma mais aberta a violência cometida contra as mulheres alemãs com o passar do tempo.

Na Rússia, por outro lado, a Segunda Guerra Mundial ocupa um lugar central na identidade nacional.

Durante o governo de Vladimir Putin, a memória da vitória soviética sobre a Alemanha nazista tornou-se ainda mais importante no discurso oficial. Nesse contexto, críticas ao comportamento do Exército Vermelho podem ser tratadas como ataques à memória nacional.

Em 2014, uma lei passou a criminalizar a disseminação deliberada de determinadas informações consideradas falsas sobre a atuação da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, com penas que poderiam chegar a cinco anos de prisão.

No ano seguinte, autoridades educacionais da região de Sverdlovsk determinaram a retirada das bibliotecas escolares de livros de Antony Beevor e do historiador britânico John Keegan. A justificativa apresentada era de que essas obras propagavam “estereótipos formados durante o Terceiro Reich”.

A disputa sobre a memória da guerra, portanto, continuou muito depois de 1945.


O outro lado da vitória

A história da derrota do nazismo costuma ser contada como uma narrativa de libertação. E, em muitos aspectos, ela de fato foi.

O fim do regime de Hitler significou o colapso de uma ditadura responsável por guerra, perseguição, deportações e assassinatos em massa.

Mas reconhecer isso não exige ignorar os crimes cometidos pelos vencedores.

A violência praticada por soldados soviéticos contra mulheres alemãs, polonesas e de outras nacionalidades mostra como uma guerra pode produzir novas vítimas mesmo quando seu resultado representa a derrota de um regime criminoso.

Também mostra como a memória histórica pode ser seletiva.

Durante décadas, milhares de mulheres permaneceram em silêncio. Algumas por vergonha, outras por medo, outras porque contar o que haviam vivido significaria desafiar a narrativa política dominante.

O caso também lembra que a condenação dos crimes de um regime não depende da ideologia de quem os praticou.

A vitória sobre o nazismo foi um acontecimento decisivo para a história do século XX. Mas ela não apagou os crimes cometidos durante a ocupação da Alemanha.

Contá-los não significa relativizar os crimes do Terceiro Reich.

Significa reconhecer que, em uma guerra, a história raramente cabe em uma narrativa simples de heróis e vilões, e que as vítimas civis frequentemente desaparecem justamente quando a memória dos vencedores começa a ser construída.

Este episódio não pode ficar escondido

Histórias como a das mulheres que viveram a chegada do Exército Vermelho mostram por que estudar o século XX exige olhar também para os episódios que permaneceram durante décadas fora dos grandes discursos históricos.

É justamente esse compromisso com episódios pouco conhecidos da história que orienta o trabalho da Brasil Paralelo.

Para aprofundar o estudo sobre as experiências vividas sob regimes socialistas, a Brasil Paralelo produziu a série História do Comunismo, uma produção original que percorre diferentes países e períodos para investigar as origens, as promessas e os resultados dessas experiências políticas.

A série passa pelo marxismo de Marx, pela Revolução Chinesa, pela Cortina de Ferro e pela experiência cubana, reunindo entrevistas e documentos para apresentar diferentes aspectos da história do comunismo.

A produção está disponível no streaming da Brasil Paralelo.

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Assista ao primeiro episódio gratuitamente:

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