O termo começou a ser usado para indicar um “despertar”
No ambiente digital, o termo começou a ser usado por pessoas que se diziam “despertas” para uma realidade diferente da que é amplamente divulgada.
Segundo a pesquisadora Michele Prado, o movimento promete que o seguidor será "escolhido para supostamente enxergar aquilo que ninguém mais vê; ser despertado de um sono profundo com uma pílula que traz a verdadeira compreensão da realidade; sair da Matrix".
Essa apropriação ganhou força em movimentos que criticam governos, empresas de tecnologia, imprensa e elites globais. O discurso costuma estar associado à ideia de que há uma “Matrix” moderna, uma estrutura que manipula e oculta verdades.
- Um exemplo é o caso do adrenocromo, abordado em artigo da Brasil Paralelo, em que se investiga a origem da substância e as teorias que surgiram em torno dela.
Segundo o artigo, o composto é apenas um subproduto da adrenalina oxidada, sem comprovação científica de efeitos alucinógenos ou de rejuvenescimento. A ideia de que elites globais o utilizam em rituais secretos surgiu na ficção — como em Laranja Mecânica e Medo e Delírio em Las Vegas — e se espalhou por teorias sem base.
Ao separar fato de fantasia, o conteúdo cumpre o papel de uma “redpill”: revela que o real perigo não está em mitos da internet, mas nos abusos cometidos por governos em programas como o MK-ULTRA, da CIA. O texto convida o leitor a olhar com mais senso crítico tanto para as versões oficiais quanto para as conspirações infundadas — e entender como a verdade, muitas vezes, está distorcida por interesses de poder.
Redpill e as comunidades masculinas da internet
A partir de 2010, o termo passou a ser adotado também por grupos voltados ao público masculino em fóruns como Reddit e 4chan.
De acordo com a socióloga e pesquisadora Bruna Camilo de Souza Lima e Silva:
“O red pill começou como um termo e recentemente se tornou um movimento masculinista. E qual é a verdade que eles dizem difundir? De que as mulheres são aproveitadoras, controladoras e manipuladoras”.
Um dos exemplos mais conhecidos foi o fórum TheRedPill, criado no Reddit em 2012, com o propósito declarado de oferecer aos homens uma “estratégia sexual” diante do que chamavam de “cultura feminista dominante”.
Em pouco tempo, o grupo ganhou popularidade, ultrapassando 400 mil membros.
A ideia central é que haveria um desequilíbrio social que favorece as mulheres e prejudica os homens.
De acordo com o fundador do fórum, que se identificou como Morpheus em entrevista a Stephen Marche, a ideia por trás do grupo era a seguinte:
“Nos últimos 10 anos, a instabilidade das mulheres piorou. Você conhecia uma garota, se dava bem, pegava o número dela e combinava de sair. Mas ela não aparecia ou cancelava pouco antes. Eu me via fazendo todo esse esforço para nada, era muito frustrante. Não era assim que os relacionamentos funcionavam quando meus pais se conheceram.”
Morpheus afirma que suas tentativas de “ser bom e autêntico” deixaram de ser atrativas na realidade atual. Para ele, o grupo dos “redpill” se tornou o espaço onde pôde aprender as lições de vida que, até então, nunca havia recebido.
“Queríamos um espaço onde os homens pudessem discutir temas masculinos sem enfrentar o mesmo tipo de humilhação pública que ocorre nas redes sociais. As feministas são rápidas em tentar derrubar qualquer coisa que considerem inadequada. Milo Yiannopoulos, por exemplo, perdeu seu selo de verificação no Twitter por causa das opiniões que expressava sobre masculinidade. É um tema importante, que se tornou quase um tabu na nossa cultura.”
Stephen Marche procurou entender como a comunidade funcionava e relatou como foi a experiência dentro do fórum. De acordo com Marche, “Os tópicos de discussão são uma mistura de raiva e curiosidade
Dentro da plataforma ele encontrou:
- “Discursos contra feministas;
- Conselhos sobre como se masturbar menos;
- Teorias sobre por que mulheres fantasiam sobre estupro;
- Descrições de discussões com amigas;
- Guias para abordar estranhos na rua;
- Rotinas de exercícios e dietas”.
Com isso, surgiram conteúdos que orientam homens sobre como se comportar em relacionamentos, como evitar vínculos afetivos e como retomar o controle da própria vida.
Os criadores desses conteúdos geralmente se apresentam como “mentores” que oferecem técnicas para sucesso social, sexual ou financeiro. Em muitos casos, esses materiais são monetizados por meio de cursos, mentorias e comunidades fechadas.
Expansão e controvérsia
Nos últimos anos, o termo “redpill” passou a ser discutido em matérias de diversos veículos de mídia. A maioria dos debates gira em torno da forma como o conceito se expandiu para áreas sensíveis, como gênero, sexualidade e relações sociais.
De metáfora filosófica, a redpill se transformou em um selo para diferentes tipos de discurso, alguns baseados em crítica cultural, outros com enfoques ideológicos mais específicos.
As principais características desses discursos incluem:
- Realismo social: membros do movimento afirmam “enxergar o mundo como ele realmente é”, sem as supostas “ilusões” promovidas por discursos progressistas.
- Masculinismo: valorização de traços considerados tradicionalmente masculinos, como força física, liderança, racionalidade e controle das emoções.
- Críticas ao feminismo: parte do grupo argumenta que o feminismo teria ultrapassado seu objetivo inicial de igualdade entre os sexos, passando a favorecer as mulheres em detrimento dos homens.
- Dinâmicas de poder nas relações afetivas: defendem que, em contextos amorosos ou sexuais, homens devem adotar posturas associadas ao chamado “macho-alfa” para conquistar respeito e valorização.
A expressão “redpill” tornou-se um símbolo multifacetado da cultura digital. De origem cinematográfica, migrou para o discurso político, social e cultural.
Hoje, aparece em vídeos, artigos, fóruns e redes sociais com diferentes sentidos, dependendo de quem utiliza o termo e com qual objetivo.
O que começou como uma metáfora de ficção científica transformou-se em ferramenta de crítica, marketing, doutrinação ou simplesmente de posicionamento.