Por que o Brasil é o primeiro a falar na ONU? A resposta pode estar entre três teorias
Voluntariado, homenagem ou prêmio de consolação. Entenda o papel do Brasil no começo da organização.

Os líderes de 193 países se reúnem todos os anos em Nova Iorque para participar da Assembleia Geral da ONU.
Há mais de 70 anos, o primeiro a se pronunciar é o representante do Brasil presente no evento, normalmente o presidente da República.
Apenas em 1983 e 1984, a ordem foi invertida após o chefe da diplomacia brasileira, Ramiro Saraiva Guerreiro, aceitar um pedido de Ronald Reagan.
Essa tradição tem origens históricas incertas, que ainda despertam debates entre historiadores e especialistas.
Conheça a história da ONU para além do que a mídia costuma mostrar com o especial da Brasil Paralelo. Assista completo abaixo:
A teoria mais aceita: país foi voluntário
No início da história das Nações Unidas, poucos países queriam abrir o debate geral. Ser o primeiro a falar é correr o risco de críticas, pressão e repercussão política.
Além disso, o mundo vivia um momento conturbado, com o fim das tensões que levaram à Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria.
Mesmo diante dessa adversidade, o Brasil se ofereceu para ser o primeiro orador das sessões em 1949, 1950 e 1951.
O país também era visto como uma opção neutra com relação a outras grandes potências no contexto da disputa entre EUA e URSS.
Esse costume foi consolidado em 1955 e chegou a ser consolidado na Resolução 51/241, de 1997, que reconhece “tradições existentes” para a lista de oradores:
“Solicita-se ao Secretariado que elabore uma lista de oradores com base nas tradições existentes e nas manifestações de preferência, de modo a atender da melhor forma às necessidades dos Membros”.
A teoria mais famosa envolve Oswaldo Aranha e Israel
Uma das versões mais conhecidas é de que a posição privilegiada do Brasil seria uma forma de reconhecimento ao trabalho do diplomata Oswaldo Aranha.
Figura próxima de Vargas, ele chefiou a política externa do Brasil desde 1938 até 1944 e defendeu a aproximação do Brasil com as forças aliadas.
No entanto, o reconhecimento da ONU não viria por isso, mas sim por seu papel fundamental para a história da Organização.
Oswaldo Aranha presidiu a primeira sessão especial da Assembléia em 1947, que determinou a criação de Israel e de um Estado para a população palestina.
Atualmente, o ex-chanceler é nome de praça em Jerusalém e foi visto como importante para a decisão, já que teria articulado um resultado favorável aos judeus.
O pequeno prêmio de consolação
A terceira versão tem raízes nas negociações políticas para o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial.
Dividido entre o apoio aos EUA e ao Reich, Vargas chegou a ter encontros diretos com o presidente Franklin Delano Roosevelt.
Além do apoio a iniciativas do governo brasileiro e à reorganização de suas Forças Armadas, o americano também ofereceu um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Atualmente, os cinco países que têm essa posição contam com o poder de vetar todas as decisões do órgão, são eles:
EUA;
Rússia;
China;
Inglaterra;
França.
Vargas tinha muito interesse em fazer parte desse grupo seleto, já que o Brasil deixou a Liga das Nações anos antes por não ter um assento permanente no Conselho da Organização.
O país escolheu os aliados. Enviou a FEB para a Europa, forneceu matérias primas em um esforço que custou a vida de aproximadamente 30 mil “soldados da borracha” e abrigou a base aérea mais movimentada do mundo em Natal.
No entanto, não conseguiu seu lugar no Conselho. Mesmo com o apoio americano, a participação foi barrada pela URSS e pela Inglaterra.
Ambos temiam perder espaço para a influência americana com um assento permanente do Brasil.
Como uma espécie de prêmio de consolação, o país teria se tornado o primeiro entre os comuns, recebendo certo destaque por abrir a Assembleia Geral.
Saiba mais sobre a entrada no Brasil na guerra em um especial da Brasil Paralelo com Silvio Navarro. Assista completo abaixo:
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