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História•5 min de leitura

94 anos do Manifesto de 7 de outubro: o que foi o Integralismo?

O movimento de Plínio Salgado levou multidões às ruas nos anos 1930 e chegou perto do poder, até ser proibido por Getúlio Vargas em 1937.

Por
Caio Minucci
•Publicado em
Plínio Salgado
Fonte da imagem: Reprodução

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Em 7 de outubro de 1932, o escritor Plínio Salgado apresentou o documento que deu origem à Ação Integralista Brasileira (AIB), um dos maiores movimentos políticos de massas da história do país.

Marcada pelas camisas verdes, pelas marchas e pela saudação "Anauê!", a organização cresceu rapidamente na década de 1930, entrou em rota de colisão com Getúlio Vargas e foi extinta cinco anos depois de fundada.

Neste 7 de outubro, o Manifesto completa 94 anos. Relembre o que foi o Integralismo, como surgiu e por que desapareceu.

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O Manifesto que fundou a AIB

O Manifesto de Outubro nasceu de um processo que já vinha se desenhando havia anos. Seu autor, Plínio Salgado, nasceu em São Bento do Sapucaí, no Vale do Paraíba paulista, em 1895, e fez da palavra sua principal arma política, atuando como escritor e jornalista antes de se tornar líder de massas.

Nos anos 1920, Plínio participou do movimento modernista brasileiro, mas se afastou de suas correntes mais cosmopolitas e passou a defender uma identidade nacional que não dependesse da imitação de referências europeias.

Em abril de 1930, viajou à Europa e ao Oriente Médio. A viagem foi financiada por Alfredo Egydio de Souza Aranha, empresário que fundou o Banco Federal de Crédito, que anos mais tarde se tornaria o Itaú. Na Itália, Plínio viu de perto o fascismo de Mussolini e voltou ao Brasil impressionado com a capacidade do regime de mobilizar multidões.

À frente do jornal A Razão, também financiado por Souza Aranha, Plínio passou a atacar diariamente a incapacidade do liberalismo de reorganizar o país.

O jornal virou ponto de encontro de grupos nacionalistas, católicos e corporativistas que já existiam, mas atuavam separados, como a Legião Cearense do Trabalho e a Ação Social Brasileira.

Em 7 de outubro de 1932, essa articulação resultou no Manifesto de Outubro e na fundação oficial da AIB. O movimento já nasceu com seus principais símbolos: o Sigma, letra grega que representava a soma das forças da Nação; o "Anauê!", saudação que evocava a identidade indígena brasileira; e a camisa verde, usada por todos os militantes. No topo da organização estava Plínio, o "Chefe Nacional".

O que os integralistas defendiam

O lema "Deus, Pátria e Família" resumia parte do projeto integralista, mas a doutrina começava por uma visão sobre o homem. Para seus dirigentes, o liberalismo teria reduzido o indivíduo a um sujeito de direitos abstratos, e o marxismo, a uma posição de classe.

Contra as duas visões, o Integralismo defendia o chamado "Homem Integral", que unia corpo, razão e espírito a serviço da Nação.

Daí vinha a defesa de uma sociedade organizada por corporações profissionais, e não por partidos, e de um Estado forte, encarregado de coordenar a economia e orientar a educação. Em poucos anos, a AIB já tinha milhares de núcleos espalhados pelo país e chegou a eleger prefeitos.

A estética de massas, os uniformes e o corporativismo aproximavam o Integralismo do fascismo europeu, e o movimento dialogava com autores ligados ao regime de Mussolini, como Giuseppe Bottai. Plínio, porém, insistia que o Integralismo era espiritualista, cristão e brasileiro, com símbolos próprios, como o indígena e os bandeirantes.

Na questão racial, ele rejeitava a teoria racial biológica do nazismo e aceitava a ideia de uma identidade brasileira miscigenada. Já Gustavo Barroso, um dos principais ideólogos do movimento, desenvolveu um antissemitismo político, com ataques a intelectuais e banqueiros judeus e elogios a medidas do regime de Hitler.

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O confronto com Vargas e o fim do movimento

Quanto mais a AIB crescia, mais difícil ficava a convivência com Vargas. Os dois viam o comunismo como inimigo e defendiam um governo central forte, mas Vargas queria concentrar o poder no Estado, e a AIB queria transformar o Estado segundo seus próprios princípios.

Em setembro de 1937, o governo divulgou o Plano Cohen, documento que descrevia uma suposta conspiração comunista. O texto tinha sido escrito por Olímpio Mourão Filho, então ligado ao serviço secreto da AIB.

Mourão diria depois que era apenas uma simulação para exercícios internos, mas o governo tratou o plano como prova de uma revolução iminente. A divulgação do documento ajudou a criar o clima para o golpe de 10 de novembro de 1937, que instaurou o Estado Novo.

Para os integralistas, deveria ser um momento de triunfo: a democracia liberal tinha caído e o anticomunismo era a principal justificativa do novo regime. Mas, em dezembro, Vargas extinguiu todos os partidos e organizações partidárias, e a AIB, que esperava participar do novo governo, foi proibida.

Meses depois, na madrugada de 11 de maio de 1938, um grupo formado por militares dissidentes, civis oposicionistas e integralistas atacou o Palácio Guanabara, onde Vargas morava.

O episódio ficou conhecido como Levante Integralista

Depois da tentativa fracassada, a repressão se intensificou, e Plínio afirmaria mais tarde que cerca de três mil sedes integralistas foram depredadas em todo o país. Em junho de 1939, depois de meses na clandestinidade, ele foi preso e deportado para Portugal, onde ficou exilado até 1945.

Quando Plínio voltou ao Brasil, a Segunda Guerra já tinha terminado. Em 1945, ele criou o Partido de Representação Popular (PRP), que atuava dentro do sistema eleitoral e manteve viva parte do ideário integralista nas décadas seguintes, mas sem as camisas verdes e as marchas que haviam marcado a AIB.

Plínio chegou a disputar a Presidência da República em 1955 e foi deputado federal por muitos anos. Morreu em 1975.

Um épico exclusivo sobre o fascismo

A Brasil Paralelo percorreu as principais universidades e centros de pesquisa pelo mundo — de Cambridge a Berlim, de Oxford a Milão — para entrevistar nomes como Richard J. Evans, Donald Sassoon, Stanley Payne e Heike Görtemaker, alguns dos maiores especialistas vivos sobre o tema.

O fascismo não foi apenas um episódio do século XX. Ele mostra como ideias filosóficas podem legitimar regimes autoritários. Ao mesmo tempo, revela como a crítica filosófica pode desmascará-los.

Entender seus traços essenciais é fundamental. O culto ao líder. A dissolução do indivíduo no Estado. A propaganda que cria realidades fictícias.

Sem isso, o termo corre o risco de virar apenas um rótulo em disputas políticas. E isso enfraquece o debate público, abrindo espaço para manipulações.

Em tempos de propaganda digital, personalismos e polarização, suas reflexões se tornam ainda mais valiosas. Elas ajudam a separar o efêmero do essencial.

A nova série da Brasil Paralelo, A História do Fascismo, mergulha nesses dilemas filosóficos e históricos para transformar achismos em conhecimento sólido. Afinal, como lembra Arendt, “o poder sempre é perigoso quando não encontra resistência”.

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