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Um maçom pode ser católico? Entenda o que a Igreja diz sobre essa polêmica

Embates entre a ordem e a Igreja marcaram séculos e deixaram marcas na história.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
Um católico não pode ser mações, entenda o motivo disso
Fonte da imagem: Padre Paulo Ricardo

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Em um caso que chamou a atenção do país, uma mãe diz que seus filhos foram obrigados a escolher entre a Igreja Católica e a Ordem Demolay.

A organização recebe jovens entre 12 e 21 anos e é conhecida por seus fortes laços com a maçonaria.

Três jovens Demolay foram informados de que precisavam deixar a ordem se quisessem continuar no grupo Guardiões, da Igreja de Eunápolis, Bahia.

O episódio fez com que as lojas maçônicas da região publicassem notas de repúdio, condenando o que classificaram como preconceito.

No entanto, a questão é mais complexa do que aparenta ser e está ligada aos embates históricos entre a Igreja e a maçonaria.

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Maçons estão em pecado mortal

A Igreja coloca penas contra maçons há séculos. Em 1738, o Papa Clemente XII determinou a excomunhão automática dos maçons na bula In Eminenti:

“[Os fiéis] devem manter-se completamente afastados de tais Sociedades, Companhias, Assembleias, Reuniões, Congregações ou Conventículos, sob pena de excomunhão para todas as pessoas acima mencionadas, excomunhão essa que se incorre pelo próprio ato, sem necessidade de qualquer declaração, e da qual ninguém pode obter o benefício da absolvição, a não ser na hora da morte, exceto por Nós mesmos ou pelo Romano Pontífice da época.”

A excomunhão é uma pena jurídica na qual uma pessoa fica afastada da Igreja e proíbida de receber os sacramentos.

A justificativa para isso era que essas organizações costumavam ser associadas à desobediência das leis daquele tempo e aos preceitos da fé católica.

Além disso, as sociedades secretas da época, em especial a maçonaria, difundiam os ideais liberais e iluministas, muitas vezes com uma forte carga anticlerical.

Essas ideias chegaram a inspirar movimentos como a Revolução Francesa, que causou a perseguição da Igreja e acabou com o assassinato de centenas de fiéis.

Apenas nos “massacre de setembro”, que ocorreram entre os dias 2 e 3 daquele mês em 1792, foram mortos 191 católicos.

Todos passaram a  ser oficialmente reconhecidos como mártires e beatificados pela Igreja em 17 de outubro de 1926.

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Os embates entre católicos e maçons não pararam por aí. Ao longo dos séculos que se seguiram, as ideias da maçonaria inspiraram uma série de movimentos que bateram de frente com a Igreja.

A Instituição também voltou a reforçar a proibição aos maçons em uma série de outros documentos ao longo da história.

Papas voltaram a criticar a maçonaria

Um exemplo foi publicado pelo Papa Pio IX, que ficou conhecido como Syllabus Errorum.

O texto reforça a excomunhão dos maçons com destaque para os grupos que agiam nas Américas:

Expliquem-lhes frequentemente e imprimam profundamente em suas almas as constituições papais sobre este assunto e ensinem-lhes: eles afirmam que as associações maçônicas são anatematizadas por eles não apenas na Europa, mas também na América e em qualquer lugar do mundo”, está em um trecho do texto.

O Papa Leão XIII também escreveu uma série de documentos sobre o tema, entre eles a encíclica Humanum Genus.

Ao longo da carta, o pontífice argumenta que o mundo está em uma luta entre o bem, apoiado pela Igreja, e o mau, representado pela maçonaria.

A organização também teria conquistado muito poder dentro dos Estados e estaria tentando destruir o catolicismo:

Declararam ser verdadeiro a respeito dos Maçons que eles desejam especialmente atacar violentamente a Igreja com irreconciliável hostilidade, e que eles nunca descansarão até que eles tenham destruído o que quer que os supremos Pontífices tenham estabelecido como religião.”

Essas disputas chegaram até a causar uma série de problemas no Brasil durante os tempos do império

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Crise religiosa no Brasil

Nos anos que antecederam a queda da monarquia no país, Dom Pedro II teve uma briga com a Igreja motivada justamente pela maçonaria.

Em 1872, o padre Almeida Martins, que era maçom, fez um discurso favorável à Lei do Ventre Livre no qual utilizou a retórica da ordem.

O caso foi visto como um escândalo pelo bispo do Rio de Janeiro, Dom Lacerda, que suspendeu o religioso de suas atividades.

Isso fez com que setores da Igreja aliados à maçonaria começassem a trocar farpas com setores avessos ao grupo.

A situação se agravou quando os bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa se posicionaram sobre a disputa.

Segundo a Syllabus Errorum, eles pediram que as ordens religiosas encontrassem os maçons infiltrados em seus quadros e os expulsassem.

O governo de Dom Pedro II determinou que os dois voltassem atrás ou seriam presos, o que aconteceu até receberem uma anistia em 1875.

Na época, a Constituição do Brasil reconhecia o catolicismo como religião oficial, porém dentro de um esquema conhecido como padroado, no qual a coroa era organizada e administrava a Igreja.

Em troca, cabia ao imperador aprovar ou não a aplicação das decisões do papa em território brasileiro.

O episódio ficou conhecido como “Questão Religiosa” e fez com que Dom Pedro II perdesse apoio da Igreja, facilitando sua queda em 1889.

Atualmente ser maçom ainda é motivo de excomunhão?

Quando foi publicado o novo Código de direito Canônico, o nome da ordem deixou de ser citado nominalmente, o que abriu espaço para questionamentos.

O Papa Bento XVI, que na época era líder da Congregação para a Doutrina da Fé, chegou a se pronunciar sobre o tem:

Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.”

Pessoas ligadas à maçonaria deixaram de ser excomungadas para serem consideradas em pecado grave.

Isso significa que a pena jurídica acabou, mas suas almas seguem afastadas da graça de Deus e da salvação eterna.

O caso é semelhante do que acontece com o comunismo, considerado motivo de excomunhão a partir do papado de Pio XII.

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