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Arqueólogos procuram o local onde um dos milagres mais importantes da Bíblia aconteceu

Dois lugares são venerados por fiéis como o cenário onde a Virgem Maria aceitou sua difícil missão.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
ícone representando o anúncio do anjo para Maria
Fonte da imagem: Reprodução

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Um dos acontecimentos mais importantes para os cristãos foi a anunciação de Jesus para a Virgem Maria

Segundo a tradição bíblica, ela foi visitada pelo anjo Gabriel, que lhe perguntou se aceitava ser a mãe do Messias

A resposta foi “eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”, de acordo com o Evangelho de São Lucas.

Agora, arqueólogos modernos estão procurando o local exato em que esse evento aconteceu.

A busca não é simples. Os textos mais antigos oferecem poucos detalhes sobre onde exatamente ele teria ocorrido

O que a arqueologia tenta fazer, por isso, não é “provar” o milagre, mas reconstruir o cenário histórico em que essa tradição nasceu.

O objetivo é entender por que certos lugares de Nazaré passaram a ser venerados como o palco do encontro entre Maria e o anjo.

Hoje, a investigação se concentra sobretudo em dois pontos da cidade de Nazaré, no Norte de Israel.

Uma gruta associada à casa de Maria e um poço público ligado a antigas tradições cristãs, ambos têm vestígios de uso no período em que a Anunciação teria acontecido

Nenhum deles oferece uma prova definitiva, mas os dois ajudam a iluminar, com mais nitidez, o mundo em que Maria viveu.

O que o Evangelho realmente diz

A narrativa da Anunciação aparece no Evangelho de Lucas, escrito no fim do século 1 d.C.

Mas as escrituras não informam em que casa isso aconteceu, nem menciona uma rua, uma gruta, uma fonte de água ou qualquer ponto específico da cidade.

Sem uma indicação precisa na Bíblia, os pesquisadores passaram a observar os lugares que a tradição cristã passou a identificar com Maria. 

Em Nazaré, dois deles se destacaram: a gruta sobre a qual foi construída a atual Basílica da Anunciação e o chamado Poço de Maria, hoje ligado à Igreja Ortodoxa Grega de São Gabriel.

A Nazaré de Maria era uma vila pequena e agrícola

Antes de discutir esses dois locais, os arqueólogos precisam descobrir como era Nazaré no tempo de Maria.

A cidade atual tem cerca de 80 mil habitantes e é uma das maiores cidades árabes palestinas de Israel

Mas a Nazaré do século 1 era muito diferente disso. Segundo os pesquisadores, tratava-se de uma pequena vila agrícola, com casas modestas.

As famílias viviam próximas umas das outras. A vida girava em torno das tarefas domésticas, da agricultura e de recursos comunitários como poços e nascentes. 

Isso ajuda a entender por que uma gruta usada como casa ou um poço usado diariamente pelas mulheres da vila se tornaram candidatos plausíveis para a memória da Anunciação.

A gruta sob a Basílica da Anunciação

Um dos locais mais importantes dessa busca fica no coração de Nazaré. É a gruta sobre a qual foi construída a atual Basílica da Anunciação, tradicionalmente associada à casa de Maria.

A veneração desse lugar é muito antiga. No século 4, a peregrina Egéria, uma cristã da ibérica que foi à Terra Santa por volta de 383 d.C., registrou ter visto em Nazaré uma “grande e esplêndida gruta” associada a Maria, sobre a qual já havia um altar.

Esse detalhe é importante porque mostra que, ao menos no fim do período romano, aquele espaço já era tratado como um lugar sagrado pelos cristãos.

Ao longo dos séculos, diferentes igrejas foram construídas e reconstruídas sobre o local, durante os períodos bizantino, cruzado e posteriores. 

Em 1954, a antiga igreja foi demolida para dar lugar à basílica atual. Essa demolição abriu uma oportunidade rara para escavações arqueológicas em grande escala.

Entre 1955 e 1966, o arqueólogo italiano e padre franciscano Bellarmino Bagatti escavou os alicerces do complexo e encontrou cavernas, fossos e túneis usados pelos antigos moradores de Nazaré.

Essas estruturas serviam para armazenamento, oficinas e até habitação. Não se tratava apenas de um espaço ritual, mas de um ambiente que fazia parte da vida cotidiana da antiga vila.

Isso fortaleceu a tradição ligada ao local, já que Maria pode ter vivido naquele espaço, ou nas suas imediações.

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O que exatamente os arqueólogos encontraram na gruta

As escavações sob a Igreja da Anunciação trouxeram um conjunto de evidências que mostram que o local era usado e venerado desde tempos muito antigos.

Além das cavernas e estruturas subterrâneas, os pesquisadores identificaram indícios de uma igreja ricamente decorada do século 5 sob os alicerces do santuário atual

Também foram encontradas lâmpadas sob o piso de mosaico, o que sugere que a gruta já recebia peregrinos antes mesmo da construção dessa igreja.

Além disso, o arqueólogo Kenneth Dark observa que instalações semelhantes encontradas em Nazaré foram usadas como esconderijos durante a Revolta Judaica contra Roma, por volta do ano 70 d.C

Isso significa que as estruturas subterrâneas precisavam existir antes dessa data, o que as coloca dentro de um horizonte compatível com o tempo em que Maria teria vivido.

O segundo candidato: o Poço de Maria

A menos de um quilômetro e meio da Basílica da Anunciação está o outro centro desta investigação, o Poço de Maria, hoje ligado à Igreja Ortodoxa Grega de São Gabriel.

Esse local se apoia em uma tradição diferente da encontrada no Evangelho de Lucas. Ela aparece no Protoevangelho de Tiago, um texto apócrifo do século II.

Segundo esse relato, Maria saiu de casa para buscar água quando ouviu uma voz saudando-a: “Salve, você que recebeu a graça; o Senhor está com você”. 

Assustada, ela voltou para casa e ali teria recebido do anjo a mensagem de que daria à luz Jesus.

Esse detalhe é importante porque muda o cenário da Anunciação. Em vez de uma aparição dentro de casa, o texto sugere um contato junto à água, em um espaço comunitário.

O texto, porém, não diz explicitamente que isso aconteceu em Nazaré. Mesmo assim, a partir do século 4, os peregrinos cristãos já associavam esse episódio a um poço da cidade.

O que as escavações encontraram no poço

Entre 1997 e 1998, a arqueóloga Yardenna Alexandre e sua equipe escavaram o Poço de Maria

O objetivo era saber se aquele ponto realmente existia e era usado no período em que a Anunciação teria ocorrido.

Os arqueólogos encontraram moedas com efígies do rei Herodes e do imperador Cláudio, além de uma lâmpada que indica a presença de uma população judaica na Nazaré antiga

Os vestígios identificados no local mostram que a nascente já abastecia a vila no final do período helenístico e no início do período romano, período em que Maria viveu.

O poço não é uma criação posterior da devoção, ele já existia e era usado na época em que a Anunciação teria acontecido.

Isso não prova que Maria esteve ali naquele dia. Mas mostra que o local fazia parte do cotidiano real da vila.

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