A escritora que abriu uma escola para crianças pobres antes do fim da escravidão
Maria Firmina dos Reis escreveu sobre escravos que sonhavam com a liberdade e só foi lida de verdade um século depois de morrer.

Quando foi aprovada no concurso para professora, Maria Firmina dos Reis recebeu da mãe uma sugestão.
Ela deveria ir à cerimônia de nomeação em um palanquim, uma cadeira carregada nos ombros por escravos.
Maria Firmina recusou e foi a pé.
"Negro não é animal para se andar montado nele", disse à mãe.
A frase resume a vida da mulher que escreveu Úrsula, publicado em 1859 e considerado por pesquisadores o primeiro romance de autoria feminina no Brasil.
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Maria Firmina nasceu em São Luís. A data exata é incerta, e as fontes apontam 1822 ou 1825.
Era filha de Leonor Felippa dos Reis, uma escrava alforriada, e cresceu perto dos livros. Seu tio, Sotero dos Reis, era professor e frequentava os meios intelectuais da capital.
Ainda jovem, foi aprovada em concurso para lecionar em uma vila do município de Guimarães. Dedicou cerca de 35 anos ao magistério e, nas horas livres, escrevia poemas, crônicas e charadas para os jornais da região.
Perto da aposentadoria, fundou em Maçaricó uma escola gratuita para crianças pobres, onde meninos e meninas estudavam juntos.
As aulas aconteciam em um barracão, e ela chegava todas as manhãs em um carro de boi. A iniciativa era rara para a época, e a escola fechou depois de cerca de dois anos e meio.
Um romance que deu voz aos escravos
Úrsula conta a história de amor entre Tancredo e a personagem que dá nome ao livro. O que chamou a atenção dos estudiosos, porém, foram dois personagens escravizados.
Túlio é um jovem que busca a alforria, e Susana é uma africana que relembra a vida livre que tinha antes de ser trazida ao Brasil.
O livro saiu sem o nome da autora. A capa dizia apenas que a obra era de "uma maranhense".
Em 1887, Maria Firmina publicou o conto A Escrava, em que uma personagem defende o fim da escravidão com base na "moral religiosa" e na "moral cívica". Ela também compôs um hino em homenagem à abolição.
Maria Firmina morreu em 1917, em Guimarães, cega e pobre, na casa de uma ex-escrava. Hoje, é a única mulher entre os bustos de escritores da Praça do Pantheon, em São Luís.
Em 2022, foi homenageada pela Festa Literária Internacional de Paraty, e sua obra passou a integrar listas de leitura de vestibulares.
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