Quem foi José do Patrocínio? O jornalista que transformou a imprensa em arma contra a escravidão
José do Patrocínio fez dos jornais e das tribunas sua campanha abolicionista. Aproximou-se da princesa Isabel e atravessou uma das maiores mudanças políticas do Brasil.

No dia 13 de maio de 1888, José do Patrocínio testemunhava o resultado de uma luta que havia ocupado boa parte de sua vida.
A princesa Isabel estava assinando a Lei Áurea.
Do Paço Imperial, Patrocínio discursou para a população e ofereceu à princesa, em nome da Confederação Abolicionista, um ramalhete de flores com a inscrição Libertas alma mater, ou seja, “mãe da liberdade”.
No dia seguinte, a própria imprensa que ele havia usado durante anos contra a escravidão celebrava sua participação na campanha.

Três dias depois, houve outra exaltação aos nomes de Isabel e José do Patrocínio.

A cena resume apenas uma parte de sua trajetória.
Patrocínio foi farmacêutico de formação, escritor, vereador, proprietário de jornal e um dos principais articuladores do movimento abolicionista brasileiro.
Sua maior ferramenta foi a palavra.
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Quem foi José do Patrocínio?
José Carlos do Patrocínio nasceu em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 9 de outubro de 1853.
Era filho do padre João Carlos Monteiro com Justina Maria do Espírito Santo, uma mulher negra que havia vivido sob a escravidão.
Passou parte da infância na região da fazenda de seu pai. Ali teve contato desde cedo com a realidade do sistema escravista e presenciou castigos aplicados a pessoas escravizadas.
Aos 14 anos, deixou Campos e seguiu para o Rio de Janeiro.
Começou a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia e retomou os estudos. Mais tarde, ingressou no curso de Farmácia da Faculdade de Medicina e concluiu a formação em 1874.
Mas seria longe dos medicamentos que encontraria sua principal atividade.
Como José do Patrocínio chegou ao jornalismo?
Pouco depois de concluir Farmácia, Patrocínio começou a escrever.
Em 1875, publicou com Dermeval da Fonseca o periódico satírico Os Ferrões. Dois anos depois, entrou para a Gazeta de Notícias, onde assinava a coluna “Semana Parlamentar” com o pseudônimo Prudhomme.
O jornalismo colocou Patrocínio diretamente no centro dos debates políticos do Império. A partir de 1879, a abolição passou a ocupar espaço cada vez maior em seus textos.
Nesse momento, escrever já não era apenas uma profissão. Era parte de uma campanha.
Como José do Patrocínio usou a imprensa contra a escravidão?
Patrocínio percebeu que os jornais permitiam transformar casos de violência, discursos políticos e ações de abolicionistas em assunto público.
Seus textos buscavam mobilizar leitores contra a escravidão.
Em 1881, assumiu a Gazeta da Tarde. O jornal se tornou um dos centros da campanha abolicionista. Dois anos depois, Patrocínio participou da criação da Confederação Abolicionista e da redação de seu manifesto.
A atuação não ficava restrita às páginas dos jornais.
Ele discursava em teatros, organizava comícios, participava de campanhas para comprar alforrias e ajudava redes que davam apoio à fuga de escravizados.
Imprensa, rua e organização política começaram a trabalhar juntas.
O que foi a Confederação Abolicionista?
A Confederação Abolicionista surgiu em 1883 para aproximar diferentes clubes e associações que combatiam a escravidão.
Patrocínio estava entre seus principais organizadores.
A entidade promovia passeatas, reuniões, festas, assembleias e ações para libertar pessoas escravizadas. Texto colado
Patrocínio também viajou pelo país divulgando a campanha. O objetivo era fazer da abolição uma pressão nacional, e não apenas um debate parlamentar no Rio de Janeiro.
Àquela altura, seu nome já estava diretamente associado à causa.
José do Patrocínio atuou na política da época
Em 1886, foi eleito vereador no Rio de Janeiro. Antes disso, já havia tentado chegar à Câmara dos Deputados. No ano seguinte, deixou a Gazeta da Tarde e fundou o Cidade do Rio.
Enquanto a pressão pelo fim da escravidão aumentava nas ruas, Patrocínio usava tanto a tribuna quanto seu jornal para defender a causa.
Até que em maio de 1888, essa campanha chegou ao seu ponto decisivo.
Qual foi o papel de José do Patrocínio na Lei Áurea?
Patrocínio não escreveu sozinho a história da abolição.
O movimento reuniu parlamentares, jornalistas, intelectuais, associações, escravos, libertos e ativistas como Joaquim Nabuco, André Rebouças e muitos outros.
Sua importância esteve especialmente na mobilização pública. Quando a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, Patrocínio estava entre os nomes mais conhecidos da campanha.
A vitória também mudou sua posição dentro de outra disputa que crescia no país. A questão já não era apenas a escravidão.
Era também o futuro da própria Monarquia.
José do Patrocínio era monarquista ou republicano?
A trajetória política de Patrocínio não cabe facilmente em uma única definição.
Ele havia frequentado círculos republicanos quando jovem e mantinha relações com importantes defensores da República.
Depois da abolição, no entanto, aproximou-se da princesa Isabel.
Patrocínio passou a defender a herdeira do trono e ficou associado ao isabelismo, movimento que via em Isabel a possibilidade de continuidade da Monarquia após Dom Pedro II.
Também foi relacionado à Guarda Negra, organização formada majoritariamente por libertos que defendia a princesa e entrou em conflito com grupos republicanos.
As fontes divergem sobre a extensão exata da participação de Patrocínio, mas registram seu apoio ao movimento e sua proximidade com seus integrantes.
Então veio 15 de novembro de 1889.
Como José do Patrocínio participou da Proclamação da República?
Na manhã em que militares derrubaram o governo imperial, Patrocínio acompanhou os acontecimentos no Rio de Janeiro.
Apesar de sua aproximação recente com a Monarquia, aderiu ao novo regime.
Como vereador, participou da declaração republicana na Câmara Municipal e passou a ser lembrado como “proclamador civil da República”.
A mudança mostra uma das contradições mais interessantes de sua vida pública.
Ele havia se aproximado da princesa Isabel depois da abolição, mas aderiu à República quando percebeu que a queda do Império era irreversível.
Isso não significaria submissão aos novos governantes.
José do Patrocínio entrou em choque com Floriano Peixoto
Poucos anos depois da queda da Monarquia, Patrocínio entrou em choque com o governo de Floriano Peixoto.
Em 1892, durante o estado de sítio, foi preso e enviado para Cucuí, no Amazonas. Depois de retornar ao Rio, continuou fazendo oposição por meio do Cidade do Rio.
Em 1893, o jornal publicou um manifesto ligado à Revolta da Armada. O governo fechou a publicação, e Patrocínio precisou se afastar novamente.
O homem que havia usado a imprensa para pressionar o Império agora enfrentava repressão política durante a República.
Como morreu José do Patrocínio?
Nos últimos anos, Patrocínio reduziu sua participação política. Continuou interessado em jornalismo, literatura, ciência e tecnologia.
Também esteve entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 21.
Ele sofria de tuberculose e morreu no Rio de Janeiro em 29 de janeiro de 1905, aos 51 anos.
Não chegou a ocupar a posição de um parlamentar nacional como Joaquim Nabuco nem trabalhou principalmente nos bastidores como André Rebouças.
Sua força estava na mobilização. Transformou jornais em espaços de campanha, levou a abolição aos palcos e comícios e ajudou a conectar associações que atuavam contra a escravidão em diferentes regiões.
Depois de 1888, sua própria trajetória acompanhou a instabilidade brasileira.
Celebrou Isabel, aproximou-se da Monarquia, aderiu à República e, pouco depois, foi perseguido por um governo republicano.
Mas essa é apenas uma parte dessa história.
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