Quem foi Rui Barbosa? Conheça a trajetória de um dos intelectuais mais importantes na história do Brasil
O jurista tentou ser presidente três vezes e recebeu o apelido de Águia de Haia por sua defesa do país em conferência internacional.

Rui Barbosa foi uma das vozes mais influentes de um país que atravessava mudanças profundas.
O jurista foi uma personagem principal na vida pública brasileira, tanto no fim do Império quanto nos primeiros anos da República.
Advogado, jornalista, jurista e político, construiu sua trajetória no centro dos debates que ajudaram a moldar o Brasil moderno.
Conheça abaixo a trajetória de Rui Barbosa e entenda sua importância para o Brasil.
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Nascimento e primeiros anos
Rui Barbosa de Oliveira nasceu em Salvador, na Bahia, em 5 de novembro de 1849. Seu pai, João Barbosa de Oliveira, era médico, político e jornalista.
Ele chefiou por anos a por anos a Instrução Pública da província, conjunto de serviços responsáveis por garantir a educação e cultura na província.
Depois dos estudos preparatórios na Bahia, Rui Barbosa seguiu para o curso jurídico em Recife.
Em 1868, ele conseguiu transferência para a Faculdade de Direito de São Paulo, como era comum entre os estudantes de sua geração.
Na capital paulista, ele se aproximou de outros grandes nomes na história brasileira, como Castro Alves e Joaquim Nabuco.
Além disso, se juntou ao grêmio estudantil da instituição, o Ateneu Paulistano. Em sessões, ele recitava poemas e enquanto consolidava uma reputação de jovem talentoso.
Em 1870, após a formatura, Rui se mudou para o Rio de Janeiro, onde começou sua carreira como jurista e jornalista.
Uma das primeiras causas que ele abraçou foi a abolição da escravidão.
O papel de Rui Barbosa no movimento abolicionista
Antes mesmo de ir estudar em São Paulo, a causa da abolição já movimentava o futuro jurista.
Na Faculdade de Direito do Recife, ele entrou para uma sociedade abolicionista criada por Castro Alves, seu colega no curso primário.
Já na capital paulista, Rui Barbosa lançou a conferência O Elemento Servil, na qual denunciou a escravidão como uma abominação moral ilegal.
Nos anos que se seguiram, tornou-se um dos principais oradores do movimento abolicionista, discursando nos teatros do Rio de Janeiro para tentar mobilizar a opinião pública.
Na vida parlamentar do fim do Império, Rui atuou como deputado geral, cargo equivalente ao de deputado federal atualmente.
Foi nessa posição que ele ajudou a redigir a Lei dos Sexagenários, que garantia a liberdade aos escravizados que sobrevivessem por mais de 60 anos.
Queima dos arquivos sobre a escravidão
Anos depois, quando se tornou ministro da Fazenda sob a República, seu apoio à causa motivou um dos episódios mais polêmicos de sua trajetória.
Tremendo que os antigos donos de escravos ganhassem uma indenização por causa da Lei Áurea, ele ordenou que os registros sobre a chegada de africanos fossem incinerados.
A ordem chegou a ser classificada pelo próprio jurista como uma espécie de “segunda abolição”.
Em sua visão, se alguém merecia alguma indenização eram os próprios escravos e não os fazendeiros.
Atualmente, a decisão é criticada por alguns movimentos, que o acusam de apagar uma parte importante da história daquelas pessoas trazidas para o país.
Do Império à República
Ao longo de sua trajetória, Rui Barbosa era um ávido defensor do sistema federalista, no qual cada província poderia decidir seu próprio destino.
Durante o Congresso do Partido Liberal de 1889, ele fez um discurso inflamado no qual disse que "Ou a Monarquia faz a federação, ou os federalistas farão a República".
Para tentar pacificá-lo, o Visconde de Ouro Preto, cargo equivalente ao primeiro ministro, Afonso Celso de Assis fez um convite para que ele fizesse parte de seu gabinete:
"Não posso ser membro de um ministério que não tome por primeira reforma a Federação", afirmou.
Rui Barbosa seria um dos principais críticos ao gabinete liberal de Afonso Celso na imprensa da época.
Em meio à crise política da época, ele teve um papel importante para convencer os militares a aderirem à República.
Às vésperas da queda do império, no dia 9 de novembro, ele publicou o famoso artigo Plano Contra a Pátria.
Na publicação, o jurista acusava o governo de se articular para enfraquecer o exército e esgotar suas funções, ao mesmo tempo em que se preparava para criar uma nova Guarda Nacional, marcada pelo favoritismo político.
O texto ajudou a unir militares de alta patente já insatisfeitos com o império e os conspiradores republicanos.
Após a proclamação, Rui Barbosa teve um papel de destaque no governo do Marechal Deodoro da Fonseca.
Ministro da Fazenda e crise do encilhamento
Rui foi escolhido para Ministro da Fazenda do Governo Provisório. À frente da pasta, ele foi um dos principais responsáveis por aprofundar uma das maiores crises econômicas na história do país até então.
Com o novo regime chegando ao poder, o ministro prometeu aplicar uma série de reformas para modernizar a economia e incentivar a industrialização.
Entre elas, mudanças na Bolsa de Valores que causaram uma corrida especulativa na Bolsa de Valores.
O ministro também determinou a criação de bancos emissores de moedas regionais, o que aumentou drasticamente a quantidade de dinheiro em circulação.
Outra medida que causou impacto foi a facilitação para a criação de empresas e a abertura de programas de crédito barato para elas.
Essa expansão monetária causou uma grave inflação, que ficou conhecida como Crise do Encilhamento.
O termo significa colocar a sela no cavalo e foi usado como uma metáfora da imprensa para se referir à euforia da Bolsa de Valores que antecedeu a quebra da economia.
Rui Barbosa renunciou em desgraça no ano de 1891, retornando a sua posição como senador.
A crise também derrubaria Deodoro no mesmo ano, abrindo espaço para que seu vice-presidente, o autoritário Floriano Peixoto, assumisse o poder.
Rui Barbosa é exilado por Floriano Peixoto
Apesar de não poder governar sem que o presidente anterior chegasse à metade do mandato, Floriano Peixoto se manteve no poder com o apoio do Congresso.
Desde o polêmico início do governo, Rui Barbosa já havia questionado sua legitimidade por causa da regra sobre o vice-presidente.
No entanto, a relação se tornou ainda mais drástica após o Manifesto dos Treze Generais. O documento assinado por 13 militares da alta cúpula questionava a legitimidade do governo e exigia novas eleições.
Boa parte dos envolvidos foram presos ou perderam seus cargos. Nesse contexto, Rui Barbosa passou a defender o Habeas Corpus para eles.
Essa crise motivou a famosa máxima atribuída ao presidente, que ameaçou a Suprema Corte da época dizendo:
"Se os seus ministros concederem ordens de habeas corpus contra os meus atos, eu não sei quem amanhã lhes dará o habeas corpus de que, por sua vez, necessitarão".
Após a Revolta da Armada Imperial, Rui Barbosa foi exilado do Brasil. Ele passou por Buenos Aires, Lisboa e, por fim, Londres, onde escreveu as famosas Cartas da Inglaterra para o Jornal do Comércio.
O retorno ao Brasil, em 1895, não significou o fim das disputas. Rui reassumiu um lugar de destaque no Senado, onde permaneceria até a morte, sucessivamente reeleito.
A Águia de Haia e o lugar de Rui Barbosa no mundo
Em 1907, o czar da Rússia convocou a 2ª Conferência da Paz, em Haia, para regulamentar leis de guerra e promover resolução pacífica de conflitos.
O chefe da diplomacia brasileira, o Barão do Rio Branco, chegou a considerar Joaquim Nabuco para a missão, mas ele recusou o posto e colaborou com informações.
Para agradar a opinião pública, foi decidido o envio de Rui Barbosa à frente da delegação brasileira.
A atuação dele em Haia foi decisiva, defendendo a igualdade jurídica das nações e contestando critérios que dividiam países de forma hierárquica.
O jurista chegou a ser nomeado presidente de honra da Primeira Comissão, foi nessa conferência que nasceu o apelido pelo qual ele entraria para a memória nacional: Águia de Haia.
O cognome foi dado pelo Barão do Rio Branco e consolidou a imagem de Rui como um diplomata arguto, combativo e brilhante em ambiente internacional.
Campanha Civilista, Partido Liberal e últimos combates
De volta ao Brasil, Rui Barbosa voltou ao centro da política nacional como um crítico fervoroso à campanha do marechal Hermes da Fonseca.
Ele liderou a Campanha Civilista, que teve forte repercussão em todo o país. Em 21 de julho de 1910, contestou no Senado a eleição do marechal.
A disputa reforçou sua defesa de um regime civil e institucionalizado, em oposição à tutela militar sobre a política.
Em 1913, fundou o Partido Liberal e foi novamente indicado para a presidência da República, mas desistiu da candidatura.
O fim da carreira e morte de Rui Barbosa
No fim da década de 1910, Rui Barbosa ainda participaria de novos episódios decisivos.
Convidado pelo presidente Rodrigues Alves para representar o Brasil na Conferência da Paz de Versalhes, recusou a embaixada por carta.
Em 1919, voltou a ser lançado candidato à presidência da República e percorreu vários estados em campanha contra a decadência dos costumes políticos.
Depois, recusou a representação do Brasil na Liga das Nações por divergências com o presidente Epitácio Pessoa.
Ainda em 1921, Rui foi eleito juiz da Corte Internacional de Justiça, recebendo homenagens no Brasil e no exterior.
No ano seguinte, fez seu último discurso no Senado, em meio ao estado de sítio concedido ao governo para enfrentar o movimento tenentista.
Sua morte, em 10 de março de 1923, foi comentada no mundo inteiro, e o Times, de Londres, dedicou a ele um espaço nunca antes concedido a qualquer estrangeiro.
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