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A independência do Brasil foi pacífica? Conheça as guerras que você provavelmente não aprendeu na escola

Conflitos se desenrolaram das regiões Norte e Nordeste até o extremo Sul do país.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
A independência do Brasil não foi pacífica conheça as principais guerras
Fonte da imagem: Reprodução

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No dia 7 de setembro de 1822, o príncipe de Portugal Dom Pedro I estava junto com seus homens na região do riacho do Ipiranga quando disse sua famosa máxima: independência ou morte.

Esse momento simbólico representou a ruptura do Brasil com Portugal e o nascimento de um novo país.

Apesar disso, o processo estava longe de terminar, a antiga metrópole só reconheceu oficialmente a separação em 29 de agosto de 1825, com o Tratado de Paz, Amizade e Aliança.

O que muitos brasileiros não sabem é que o processo de independência não foi tão pacífico quanto costuma ser narrado.

Ao longo de todo o país, tropas da coroa portuguesa se recusaram a abandonar as terras brasileiras e precisaram ser expulsas.

Leia abaixo como o conflito aconteceu em alguns dos principais focos:

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Guerra na Bahia

A luta pela independência na Bahia tem raízes nas disputas políticas que surgiram na província após a Revolução Liberal do Porto, movimento iniciado em Portugal em 1820.

De um lado, os constitucionalistas defendiam a manutenção do Brasil como parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

Do outro, o Partido Português, defendia o retorno do Brasil à antiga condição colonial. Havia ainda os republicanos, que defendiam a emancipação do Brasil dentro desse modelo.

Conforme o movimento pela independência avançava, a tensão entre os grupos aumentava.

Em 12 de novembro de 1821, soldados portugueses entraram em confronto com brasileiros na Praça da Piedade, em Salvador. 

A situação piorou em fevereiro do ano seguinte, quando o brigadeiro português Inácio Luís Madeira de Melo foi nomeado comandante das Armas da Bahia.

Os brasileiros rejeitaram a nomeação e passaram a organizar a resistência. Madeira de Melo conseguiu o apoio dos comerciantes portugueses e de importantes unidades militares, enquanto os brasileiros reuniram tropas para enfrentar os portugueses.

Os conflitos se espalharam por Salvador e pelo Recôncavo. Defensores da independência apoiam D. Pedro e organizaram uma Junta de Defesa para coordenar a resistência.

Em 28 de junho de 1822, moradores da cidade tomaram uma embarcação portuguesa que havia ameaçado bombardear Cachoeira.

O episódio incentivou outras vilas do Recôncavo a aderirem à luta. Tropas foram treinadas, trincheiras construídas e posições estratégicas ocupadas.

Depois da proclamação da Independência, a Bahia virou um dos principais campos de batalha para consolidar a separação de Portugal.

Em 2 de julho de 1823, Madeira de Melo deixou Salvador com cerca de 4.500 soldados portugueses.

As tropas brasileiras entraram na capital e foram recebidas pela população.

A expulsão consolidou a integração da Bahia ao Império do Brasil e encerrou um dos principais focos de resistência à independência brasileira.

A guerra de independência no Maranhão

Outra região que não aderiu de imediato à proclamação da independência foi a província do Maranhão.

Durante o período colonial, o Maranhão tinha relações muito mais próximas com Lisboa do que com o Rio de Janeiro

A comunicação por mar com Portugal era mais fácil, enquanto os produtos da província, como algodão e arroz, tinham Portugal como um de seus principais mercados.

Por isso, quando a Revolução Liberal do Porto começou, em 1820, parte importante das elites maranhenses apoiou o movimento e a volta de Lisboa ao centro do poder do Reino Unido.

Quando D. Pedro recusou a ordem das Cortes para retornar a Portugal e passou a fortalecer o poder do Rio de Janeiro, o governo maranhense continuou reconhecendo a autoridade de Lisboa.

Em junho de 1822, às vésperas da Independência do Brasil, o governo provincial chegou a declarar que não poderia cumprir determinações vindas do Rio de Janeiro sem autorização das Cortes portuguesas.

A adesão à independência começou a ganhar força somente em 1823, quando tropas favoráveis a D. Pedro avançaram pelo Norte.

Os combates atingiram a região de Itapecuru, importante centro da produção de algodão, e as tropas independentistas cercaram Caxias.

Grandes produtores maranhenses, diretamente afetados pelos combates, passaram a apoiar a independência

O avanço das tropas e a possibilidade de uma derrota portuguesa fizeram com que muitos proprietários abandonassem a defesa de Lisboa e se aproximassem do projeto de D. Pedro I.

São Luís, porém, continuava fiel a Portugal. As forças independentistas conseguiram cortar as comunicações entre a capital e o interior

Com isso, a ilha ficou cada vez mais isolada e começou a sofrer com a falta de alimentos e o enfraquecimento do comércio.

A situação chegou ao ponto de os próprios membros do governo maranhense reconhecerem que a província estava mergulhada em conflitos entre partidários da independência e defensores de D. João VI.

A guerra também provocava temor entre os proprietários de escravos, que receavam que os discursos de liberdade estimulassem uma revolta.

Com São Luís cercada, a resistência portuguesa dependia agora da chegada de reforços pelo mar, mas eles nunca chegaram por conta de um bloqueio naval brasileiro

Sem comunicação com o interior, com o comércio prejudicado e sem os reforços portugueses esperados, o governo maranhense ficou sem alternativas.

Em 28 de julho de 1823, a Câmara Geral reunida em São Luís oficializou a adesão do Maranhão ao Império do Brasil.

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A independência chega ao Grão-Pará

Em um processo semelhante ao que aconteceu no Maranhão, Belém mantinha relações muito mais próximas com Portugal do que com o Rio de Janeiro.

Além disso, a economia paraense dependia do comércio com portugueses, grande parte das autoridades, comerciantes e membros da elite local era de origem portuguesa.

Para esses grupos, aderir à independência significava colocar em risco privilégios políticos e econômicos construídos durante décadas.

Quando D. Pedro proclamou a independência, em 7 de setembro de 1822, o Grão-Pará continuou fiel à Coroa portuguesa.

A situação começou a mudar em 1823. Com a consolidação da independência em outras regiões do Norte, tropas favoráveis a D. Pedro avançaram sobre as províncias que ainda permaneciam ligadas a Portugal.

O imperador decidiu então enviar uma força naval para pressionar o Grão-Pará. A esquadra apresentou um documento afirmando que uma esquadra brasileira estava pronta para bloquear o porto de Belém caso a província se recusasse a reconhecer D. Pedro.

A ameaça funcionou e as autoridades paraenses aceitaram a adesão. Em 15 de agosto de 1823, no Palácio Lauro Sodré, em Belém, as autoridades assinaram o documento que oficializou a adesão do Grão-Pará ao Império do Brasil.

Ao todo, 107 autoridades assinaram o termo. Depois de quase um ano de resistência, o Pará estava oficialmente separado de Portugal.

Mas a adesão não significou o fim dos conflitos. Para parte da população, a independência havia criado uma grande expectativa de mudanças, mas a realidade foi diferente.

A estrutura de poder praticamente permaneceu intacta. Muitos dos portugueses que ocupavam cargos importantes continuaram exercendo suas funções sob o novo governo.

O ressentimento aumentou principalmente entre militares, funcionários públicos e grupos populares que reivindicavam direitos iguais aos dos portugueses.

Três meses depois da adesão, uma revolta eclodiu em Belém e a repressão foi marcada por violência.

Um dos episódios mais trágicos aconteceu na Baía do Guajará. Centenas de manifestantes foram presos e colocados no porão do navio São José Diligente, que ficou conhecido posteriormente como Brigue Palhaço.

Os presos foram confinados no porão e muitos morreram asfixiados. Segundo os relatos históricos, alguns também teriam sido mortos durante a repressão. 

As estimativas oficiais sobre o conflito apontam que ao todo, 256 paraenses perderam a vida durante o levante.

Independência foi marcada por guerra no Sul do país

Os conflitos pela independência não ficaram apenas na região Norte e Nordeste do Brasil, marcadas pela proximidade com Portugal.

No extremo Sul do Brasil, na província da Cisplatina, atualmente o Uruguai, a independência também provocou uma guerra entre portugueses e brasileiros.

Mas, para entender o conflito, é preciso voltar alguns anos. A região conhecida como Banda Oriental, localizada às margens do Rio da Prata, tinha uma importância estratégica.

O território permitia o acesso ao interior da América do Sul e dava controle sobre uma das principais rotas comerciais do continente.

Por isso, Portugal tinha interesse pela região desde o período colonial. A disputa aumentou no início do século XIX, quando as colônias espanholas começaram a lutar pela independência

O líder José Gervásio Artigas também passou a defender um projeto político próprio para a região, o que ameaçava os interesses portugueses na fronteira sul. Portugal decidiu então invadir a Banda Oriental.

Depois de quase cinco anos de conflitos, as forças de Artigas foram derrotadas na Batalha de Tacuarembó, em janeiro de 1820.

No ano seguinte, uma assembleia formada por representantes das localidades da região decidiu incorporar a Banda Oriental ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

O território passou a ser chamado de Província Cisplatina, a incorporação, porém, não eliminou as disputas.

Quando o Brasil declarou sua independência, em 1822, a Cisplatina virou um dos últimos lugares onde tropas portuguesas continuaram resistindo ao novo Império.

A situação na província era especialmente complicada porque havia uma forte presença militar portuguesa.

O comandante português D. Álvaro da Costa inicialmente demonstrou disposição para retirar suas tropas e retornar a Portugal.

Mas os acontecimentos na Bahia e em outras regiões mudaram sua decisão. Em 11 de setembro de 1822, D. Álvaro se rebelou contra o comandante das forças luso-brasileiras na região.

Ele permaneceu em Montevidéu e a cidade se transformou no principal reduto das tropas portuguesas no Sul.

Sem conseguir expulsar os portugueses por terra, as forças brasileiras passaram a pressionar Montevidéu pelo mar.

Em janeiro de 1823, foi estabelecido um bloqueio naval para impedir a entrada de suprimentos e reforços na cidade.

Os portugueses, entretanto, também conseguiram aumentar sua força naval. Algumas embarcações brasileiras chegaram a se juntar às forças de D. Álvaro, fortalecendo sua resistência.

O governo imperial decidiu então reforçar a esquadra. O objetivo era impedir que Montevidéu recebesse ajuda e obrigar as tropas portuguesas a abandonar a cidade.

A estratégia funcionou, mas antes da retirada portuguesa, ainda haveria um último combate no mar.

Em 21 de outubro de 1823, os navios portugueses tentaram romper o bloqueio brasileiro.

Sem sucesso e sem receber reforços, a resistência em Montevidéu estava chegando ao fim.

Somente em 8 de março de 1824, D. Álvaro da Costa deixou Montevidéu com a Divisão de Voluntários Reais, encerrando a presença portuguesa na Cisplatina.

A independência do Brasil estava consolidada também no extremo Sul, mas o problema da Cisplatina estava longe de terminar.

A incorporação da Banda Oriental ao Brasil nunca foi aceita de forma unânime pela população local.

Para muitos habitantes, a região havia sido conquistada por Portugal e posteriormente incorporada ao Brasil, sem que isso representasse a vontade da população.

Além disso, Buenos Aires também tinha interesses na região, a Argentina passou a apoiar os grupos que desejavam romper a união da Cisplatina com o Império brasileiro.

A situação explodiria novamente em 1825, quando grupos liderados por Juan Antonio Lavalleja iniciaram uma revolta contra o domínio brasileiro.

O conflito terminaria com a independência da região, que deixaria de pertencer ao Império do Brasil e daria origem ao Uruguai.

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