O governo paraguaio pede o retorno de canhão há mais de 15 anos.

Em meio a uma crise diplomática com o Paraguai, Lula concordou em devolver uma relíquia histórica, o canhão "El Cristiano".
A decisão foi acertada em uma reunião que aconteceu no mês passado com os comandantes militares e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.
Mesmo que o presidente esteja de acordo com a devolução da peça, isso só acontecerá após negociações do Ministério das Relações Exteriores.
O canhão é uma peça de artilharia utilizada na Guerra do Paraguai, o maior conflito que aconteceu na história da América do Sul.
Ele recebeu o nome de El Cristiano, o Cristão, porque foi construído a partir do bronze de sinos de igrejas derretidos.
A peça de artilharia foi capturada quando as tropas da Tríplice Aliança tomaram a fortaleza de Humaitá, em julho de 1868.
O artefato só foi oficialmente integrado ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, em 1922 e segue em exibição até hoje.
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Há mais de 15 anos o Paraguai pede pela restituição do canhão, mas os pedidos ganharam um novo gás após uma crise diplomática causada por uma fala de Lula:
“Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não ia dar em nada, durou cinco anos”, afirmou.
O Congresso do Paraguai chegou a aprovar uma declaração de repúdio à fala do presidente brasileiro:
“Você está falando com muita leviandade da maior tragédia da nossa história e do maior genocídio do nosso continente”, escreveu o presidente da Câmara dos Deputados do país, Raul Latorre.
Essa não seria a primeira vez em que artefatos do conflito são utilizados como ferramentas políticas e diplomáticas.
O governo argentino de Juan Domingos Perón chegou a enviar alguns itens enquanto procurava se aproximar do país em 1954.
Até mesmo o Brasil chegou a encaminhar dois lotes durante o regime militar, mais especificamente nos governos de Geisel e Figueiredo.
O conflito teve início em novembro de 1864, quando as tropas do ditador Solano Lopez sequestraram o navio Marquês de Olinda.
Pouco menos de um mês depois, o exército paraguaio invadiu a província de Mato Grosso, deixando um rastro de morte, estupros e destruição.
O objetivo era avançar até o Rio Grande do Sul, garantindo controle fluvial na Bacia do Prata.
Em meio aos avanços, as tropas passaram por parte da Argentina, arrastando o país para o conflito ao lado do Brasil.
Poucos anos antes, o império brasileiro havia entrado em guerra contra o regime do ditador Juan Manuel Rosas.
O país, agora governado pela oposição a Rosas, decidiu entrar na guerra ao lado dos brasileiros.
Do lado paraguaio, a narrativa é de que o país estava enfrentando o imperialismo brasileiro daquela época.
Solano López tinha um acordo de proteção com o presidente uruguaio Manuel Oribe, que também era muito próximo de Rosas e queria controle sobre a bacia do Prata.
Para garantir o controle estratégico ao Prata, o governo brasileiro também apoiou a oposição a Oribe em um conflito civil no Uruguai.
Após a entrada de tropas brasileiras no país, Oribe foi derrubado e substituído pelo Partido Colorado, legenda rival.
Durante a guerra contra Solano Lopez, o Uruguai se aliou ao Brasil e à Argentina, no que ficou conhecido como Tríplice Aliança.
Os historiadores costumam dividir o conflito em três partes. A primeira marcada pelo avanço paraguaio, que foi possível por causa do efeito surpresa e do despreparo das forças armadas brasileiras.
A segunda é marcada por vitórias brasileiras, conhecidas como dezembradas, e pela reorganização militar do Brasil sob comando do Duque de Caxias.
Já a fase final do conflito aconteceu sob comando do genro de Dom Pedro II, Conde D’Eu, e pelo avanço das forças aliadas até a morte de Solano Lopez.
Como o ditador fugiu para o Norte do país em busca de uma rota de fuga, o conflito foi prolongado.
Sem soldados profissionais, as tropas paraguaias começaram a colocar mulheres e crianças na linha de frente, causando a morte de civis.
Um dos episódios mais sangrentos foi a batalha de Acosta Ñu, em que centenas de menores morreram durante o confronto. Até hoje, o dia 16 de agosto é lembrado como dia das crianças no país.
As estimativas apontam para a morte de aproximadamente 60% dos homens do país, o que faz com que os paraguaios acusem o Brasil de crime de guerra até os dias de hoje.
A Brasil Paralelo resgatou a história do país e seus personagens no épico Brasil: A Última Cruzada. Assista ao episódio sobre o reinado de Dom Pedro II completo abaixo: