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História•5 min de leitura

Quem foi Hipólito José da Costa Pereira? Conheça a trajetória do jornalista da independência

Fundador do Correio Braziliense é considerado o patrono da imprensa no Brasil.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
•Publicado em
Conhça a história de Hipólito José da Costa Pereira
Fonte da imagem: Reprodução

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Em um tempo no qual a liberdade de expressão é mais debatida do que nunca, é importante recordar as histórias de homens como Hipólito José da Costa Pereira, fundador do Correio Braziliense. 

Publicado em Londres a partir de 1808, o periódico foi uma das principais vozes políticas de seu tempo, defendendo a liberdade de imprensa e debatendo os rumos do Império Português. 

Sua história se confunde com um dos períodos mais turbulentos da história luso-brasileira, marcado pelas tensões que antecederam a independência do país.

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Quem foi Hipólito José da Costa?

Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça nasceu em 13 de agosto de 1774, na Colônia do Sacramento, que hoje pertence ao Uruguai.

Era filho de Félix da Costa Furtado de Mendonça, fazendeiro e oficial das Ordenanças da Capitania do Rio de Janeiro, e de Ana Josefa Pereira.

Ainda jovem, realizou seus estudos preparatórios em Porto Alegre antes de seguir para Portugal.

Na Universidade de Coimbra, se formou em Direito e Filosofia, concluindo os cursos em 1798.

Logo após concluir a universidade, ele recebeu uma missão do governo português, viajando aos Estados Unidos para estudar questões econômicas e as instituições do país.

A viagem durou aproximadamente dois anos, entre 1798 e 1800, no período, Hipólito registrou suas observações no que seria conhecido como Diário de minha viagem para Filadélfia, publicado apenas em 1955.

A experiência colocou Hipólito em contato com uma sociedade que experimentava novas formas de organização política.

Foi também durante essa fase que ele aderiu à Maçonaria, instituição que reunia intelectuais, políticos e homens públicos interessados na circulação das ideias iluministas.

O retorno a Portugal e a prisão pela Inquisição

Ao voltar dos Estados Unidos, Hipólito continuou trabalhando para a Coroa portuguesa.

Em 1801, foi nomeado para a Imprensa Real e recebeu nova missão oficial, desta vez visitando Inglaterra e França.

Assim que voltou, em 1802, foi preso pela Inquisição portuguesa com a acusação de disseminar as ideias iluministas no país.

Depois de três anos preso, Hipólito conseguiu escapar se disfarçado de criado, ele deixou a prisão e atravessou a Espanha até chegar em Gibraltar, de lá foi para a Inglaterra.

Em Londres, pôde escrever, publicar e discutir textos sobre política sem a mesma censura imposta pelo regime português.

Também recebeu proteção de Augusto Frederico, Duque de Sussex e o nono filho do rei Jorge III.

Essa proteção permitiu que Hipólito permanecesse na Inglaterra durante dezoito anos, até sua morte.

O nascimento do Correio Braziliense

Em junho de 1808, Hipólito lançou o primeiro número do Correio Braziliense. No mesmo ano, a família real deixou Portugal em meio às Guerras Napoleônicas.

Embora fosse impresso em Londres, o jornal circulava entre leitores brasileiros por meio de redes de distribuição que burlavam as restrições impostas pelas autoridades portuguesas.

Por isso, muitos estudiosos consideram o periódico o primeiro jornal brasileiro, apesar de não ser impresso no Brasil.

Também em 1808 surgia a imprensa em território brasileiro. Seu principal concorrente seria a Gazeta do Rio de Janeiro, criada poucos meses depois.

Enquanto a Gazeta funcionava como veículo oficial da Corte, divulgando atos do governo, o Correio Braziliense tinha outro propósito.

Seu objetivo era analisar os acontecimentos, discutir ideias, criticar decisões políticas e formar opinião pública.

Um jornal diferente do seu tempo

O Correio Braziliense não era um jornal de notícias rápidas. Cada edição reunia análises extensas sobre temas da época, como política, economia, ciência e administração pública.

Ao longo de quatorze anos, Hipólito publicou 175 edições, reunidas posteriormente em 29 volumes.

Durante todo esse período, praticamente escreveu sozinho o jornal. Seu trabalho consistia não apenas em informar os leitores, mas também em explicar acontecimentos internacionais e mostrar como eles poderiam afetar Portugal e o Brasil.

Em vez de apenas relatar fatos, procurava interpretá-los, o que transformou o periódico em uma das principais referências políticas do mundo no início do século XIX.

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A defesa do liberalismo moderado

As experiências vividas nos Estados Unidos, a perseguição sofrida pela Inquisição e os anos passados na Inglaterra moldaram o pensamento político de Hipólito.

Ele defendia ideias liberais, mas era um forte crítico de mudanças bruscas ou até mesmo de movimentos revolucionários.

Para Hipólito, as reformas deveriam ocorrer de maneira gradual, respeitando as instituições e evitando rupturas violentas.

Esse posicionamento aparece constantemente nas páginas do Correio Braziliense. Ao longo dos anos, o jornal virou um espaço de defesa da separação dos poderes e do governo constitucional.

Um jornal proibido que circulava clandestinamente

O sucesso do Correio Braziliense não significava que ele circulasse em liberdade para seus leitores.

Muito pelo contrário, as autoridades portuguesas tentaram impedir sua circulação desde os primeiros anos.

Governadores de diferentes capitanias ordenaram a apreensão dos exemplares, o governo português  chegou a proibir a entrada do periódico e classificar Hipólito como um autor perigoso.

Mesmo assim, o jornal continuou chegando ao Brasil, os exemplares atravessavam o Atlântico escondidos em cargas comerciais, bagagens diplomáticas e encomendas particulares.

O próprio Dom João VI era um leitor assíduo da publicação e chegou a subsidiá-la a partir de 1812, após um acordo secreto mediado pelo embaixador português em Londres, D. Domingos de Souza Coutinho.

''O mesmo Hipólito que defendia liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal”, descreveu Laurentino Gomes em sua obra 1808.

O público leitor era formado principalmente por comerciantes, funcionários públicos, militares, intelectuais e membros da elite política.

Muitas das discussões que mais tarde ganhariam espaço na Independência do Brasil passaram primeiro pelas páginas do Correio Braziliense.

O jornal que morreu com a independência

Quando a Independência do Brasil foi proclamada, em setembro de 1822, Hipólito entendeu que o objetivo central do periódico havia sido alcançado. 

Por isso, encerrou a publicação em dezembro daquele ano, após a edição de número 175.

Mesmo defendendo por anos a união entre Portugal e Brasil, ele passou a apoiar a separação quando concluiu que as Cortes portuguesas pretendiam reduzir novamente o Brasil à condição de colônia. 

Nos últimos meses do jornal, apresentou inclusive um projeto de Constituição para o novo país, inspirado no sistema constitucional britânico e aspectos do modelo americano.

Ainda em 1822, seu nome passou a integrar a primeira lista de agraciados com a Ordem Imperial do Cruzeiro, criada por D. Pedro I. 

O governo do recém-criado Império do Brasil também decidiu nomeá-lo cônsul-geral em Londres. 

No entanto, Hipólito jamais chegou a exercer essas funções. Ele morreu em 11 de setembro de 1823, em Londres, aos 49 anos. 

O jornalista não chegou a saber oficialmente da nomeação como cônsul do Império brasileiro.

Hipólito José da Costa é lembrado como o patrono da imprensa brasileira. Isso foi oficializado por FHC em 2000, quando ficou estabelecido o Dia da Imprensa Brasileira no 1º de junho.

Essa data é uma referência à publicação da primeira edição do Correio Braziliense, em 1808.

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