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Universidade federal cassa o diploma de ditador fascista que governou por 36 anos

Conheça a história de Salazar e o regime que mudou a história de Portugal.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
Soldado tira um quadro de Salazar, ditdor que teve o honoris causa cancelado
Fonte da imagem: Reprodução

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O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) decidiu suspender o título de Doutor Honoris Causa de António de Oliveira Salazar

Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, cargo equivalente ao de primeiro-ministro, Salazar comandou o país entre 1932 e 1968

A relatora do caso, Gilda Sousa de Alvarenga, afirmou que ele liderou um regime autoritário marcado pela censura e pela perseguição a opositores.

Durante a leitura de seu parecer, a relatora do caso Gilda Sousa de Alvarenga, destacou os traços autoritários que marcaram o regime salazarista em Portugal”, afirma uma nota da universidade mandada ao portal Uol.

A decisão foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) em reunião realizada no dia 27 de agosto.

Segundo a UFRJ, a revogação leva em consideração as características do regime salazarista que governou Portugal por mais de quatro décadas.

Durante a apresentação do parecer, a professora Gilda Sousa de Alvarenga destacou que o governo foi marcado pelo “nacionalismo ultraconservador”, censura, repressão política e pela defesa das colônias portuguesas na África

Salazar recebeu a homenagem em 1941, quando a instituição ainda se chamava Universidade do Brasil.

A honraria representava a mais alta distinção concedida pela universidade. O título de Doutor Honoris Causa, expressão em latim que significa "por causa de honra" e é destinado a pessoas com contribuições relevantes.

A suspensão acontece poucos dias após a mesma universidade retirar uma honraria semelhante para o embaixador americano Lincoln Gordon

Ele representou os EUA no Brasil entre 1961 e 1966, contribuindo para a articulação política que derrubou João Goulart.

Entenda melhor esse movimento e o que foi o regime que se seguiu com uma das produções mais polêmicas da Brasil Paralelo, 1964: O Brasil Entre Armas e Livros. Assista completo abaixo:

Conheça a história de Salazar

Nascido em uma família pobre na região de Santa Comba Dão, região central de Portugal, Antônio de Oliveira Salazar governaria o país por quatro décadas.

Ex-seminarista, ele deixou os estudos religiosos para se formar em direito e depois se especializar em economia na Universidade de Coimbra.

Muito ligado à Igreja, ele ajudou a fundar o Partido do Centro Católico, chegando a ser eleito para o parlamento português, mas deixou a posição após a primeira sessão.

Naquela época, Portugal passava por um momento de turbulência política que acabou levando a um golpe de Estado em 1926.

Dois anos depois, ele foi convidado para assumir o cargo de ministro das Finanças pelo presidente e general Óscar Carmona.

Na posição, Salazar conseguiu um feito histórico revertendo mais de um século de déficit público.

O sucesso o levou a ser nomeado como presidente do Conselho de Ministros em 1932, abrindo caminho para o Estado Novo Português.

A aproximação com o fascismo

Salazar assumiu o controle de Portugal em uma época na qual o mundo passava por uma maré revolucionária.

A crise de 1929 quebrou as principais economias globais e acabou com a credibilidade do liberalismo e do conservadorismo clássicos.

Isso abriu caminho para que duas principais correntes ideológicas se espalhassem e polarizassem a população.

De um lado os comunistas ganharam força pela crise no sistema capitalista e o desenvolvimento que a URSS de Stalin aparentava ter

Na época não se sabia ao certo os elevados custos humanos disso, como por exemplo o Holodomor.

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Por outro lado, grupos que se inspiraram na Itália fascista de Benito Mussolini também se proliferavam olhando para o país como um caso de sucesso capaz de vencer a crise.

Nesse cenário, Salazar passou a incorporar símbolos, narrativas e práticas do fascismo a seu regime.

Salazar com um quadro de Mussolini em seu escritório. Reprodução.
Salazar com um quadro de Mussolini em seu escritório. Reprodução.

Ele tinha sua própria Juventude Hitlerista, encarnada no grupo para crianças e adolescentes Mocidade Portuguesa.

O regime criou uma milícia nacional, aos moldes dos Camicie Nere de Mussolini, chamada de Legião Portuguesa.

Além disso, as táticas de repressão do fascismo foram aplicadas em Portugal através da PIDE, polícia política do regime

Até mesmo o formato de Estado Corporativo do fascismo foi aplicado, com sindicatos estatais e órgãos de patrões e empregados para avaliar as leis.

O professor português Fernando Rosas explica o modelo de Portugal em seu livro Salazar e os Fascistas.

O ditador foi o que ele classificou como “fascismo conservador”, quando as elites tradicionais adoram um modelo fascista para sobreviverem ao momento que o mundo passava.

Um exemplo de um regime semelhante foi o de Getúlio Vargas, ditador que vinha da elite e contava com o apoio dos fazendeiros tradicionais, mas incorporou características do fascismo em um cenário conturbado.

  • Fascismo é um dos termos mais polêmicos na política atual. Conheça as raízes dessa ideologia com o épico História do Fascismo. Clique aqui para assistir completo.

Apesar da aproximação, Salazar manteve a neutralidade na Segunda Guerra Mundial, respeitando a tradição de proximidade com os ingleses.

Com o fim do conflito, Portugal procurou se aproximar dos EUA, sendo um dos membros fundadores da OTAN.

Os dois países chegaram a ter alguns atritos durante as guerras coloniais que Portugal travou na África na década de 1960.

Naquela época, o governo americano apoiou de forma velada e diplomática as independências africanas, enquanto proibia Portugal de usar recursos da OTAN.

Salazar chegou a fazer um discurso famoso no qual disse que os portugueses lutariam “orgulhosamente a sós” para manter suas colônias ultramarinas:

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As duas mortes de Salazar

Em agosto de 1968, o ditador caiu de uma cadeira e bateu a cabeça no chão, o que provocou uma hemorragia cerebral

Dias após se recuperar, ele sofreu um AVC e entrou em coma. Começou então a substituição de Salazar pelo ditador Marcelo Caetano.

Quando Salazar voltou, já não havia espaço para ele continuar no poder. Temendo uma reação, o regime transformou seu criador em um ditador de mentira.

Reuniões com pessoas próximas para discutir medidas que nunca seriam tomadas e planos que não seriam executados.

Tudo isso respaldado por jornais falsos para passar a impressão de que ele ainda estava no poder.

A farsa durou dois anos, até Salazar morrer por causa de complicações causadas pelo AVC. Quatro anos depois, em 1974, seu regime caiu para a Revolução dos Cravos.

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