Livro do século XVI reúne pistas que pode conter pistas sobre o início da educação, da literatura e do teatro no Brasil.

Um pequeno manuscrito guardado em uma casa dos jesuítas, no interior de São Paulo, pode abrir uma nova janela sobre a obra de Padre José de Anchieta.
O documento mede apenas 10 centímetros de altura por 7 de largura e chegou aos pesquisadores em estado frágil. As folhas estavam descosturadas, danificadas por traças e marcadas pela ação do tempo.
Mesmo assim, o achado pode se tratar de uma obra inédita ligada a um dos nomes mais importantes da formação cultural e religiosa do Brasil.
A hipótese é defendida pelo historiador padre Felipe de Assunção Soriano em sua tese de doutorado defendida ontem, 27 de julho. Ele dedica sua pesquisa a investigar a autoria do material.
O documento não tem assinatura. Por isso, a atribuição a Anchieta não parte de uma prova única, mas de uma cadeia de indícios.
Entre eles está a análise da marca-d’água do papel, conhecida como filigrana. Segundo Soriano, o estudo permitiu confirmar a autenticidade do manuscrito e datar a fabricação do papel em 1568.
A data é importante porque coincide com o período de atuação de Anchieta no Brasil. O conteúdo também chama atenção: trata-se de uma selecta latina, uma espécie de material didático usado na formação de estudantes dos colégios jesuítas.
O manuscrito parece ter sido usado como material de estudo e ensino. Ele reúne exercícios, textos em latim e até peças de teatro escritas no estilo usado pelos jesuítas da época.
Parte do conteúdo tem ligação com o Colégio das Artes de Coimbra, em Portugal, onde Anchieta estudou antes de vir para o Brasil. Também aparecem referências a temas e professores do missionário.
Esse ponto é importante porque o documento não tem assinatura. Por isso, os pesquisadores não tratam a autoria como uma prova simples e direta.
A tese de Soriano é que a obra pode ter sido organizada por Anchieta como uma espécie de caderno de trabalho. No século XVI, reunir textos próprios, adaptar materiais de estudo e organizar exercícios também podia ser entendido como uma forma de autoria.
É isso que o pesquisador chama de “autoria mediada”.
O manuscrito também pode revelar novas pistas sobre o início da educação, da literatura e do teatro no país.
Antes de virar nome de cidades e escolas, Anchieta foi um dos missionários mais importantes da história do Brasil. Ele atravessou o oceano, aprendeu a língua dos índios, escreveu, ensinou, e até fundou uma das maiores cidades do mundo.
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