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Manuscrito quase foi para o fogo e pode revelar obra inédita do padre José de Anchieta

Livro do século XVI reúne pistas que pode conter pistas sobre o início da educação, da literatura e do teatro no Brasil.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
São José de Anchieta
Fonte da imagem: Benedito Calixto

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Um pequeno manuscrito guardado em uma casa dos jesuítas, no interior de São Paulo, pode abrir uma nova janela sobre a obra de Padre José de Anchieta.

O documento mede apenas 10 centímetros de altura por 7 de largura e chegou aos pesquisadores em estado frágil. As folhas estavam descosturadas, danificadas por traças e marcadas pela ação do tempo.

Mesmo assim, o achado pode se tratar de uma obra inédita ligada a um dos nomes mais importantes da formação cultural e religiosa do Brasil.

A hipótese é defendida pelo historiador padre Felipe de Assunção Soriano em sua tese de doutorado defendida ontem, 27 de julho. Ele dedica sua pesquisa a investigar a autoria do material.

O documento não tem assinatura. Por isso, a atribuição a Anchieta não parte de uma prova única, mas de uma cadeia de indícios.

Entre eles está a análise da marca-d’água do papel, conhecida como filigrana. Segundo Soriano, o estudo permitiu confirmar a autenticidade do manuscrito e datar a fabricação do papel em 1568.

A data é importante porque coincide com o período de atuação de Anchieta no Brasil. O conteúdo também chama atenção: trata-se de uma selecta latina, uma espécie de material didático usado na formação de estudantes dos colégios jesuítas.

O mistério dentro do livro

O manuscrito parece ter sido usado como material de estudo e ensino. Ele reúne exercícios, textos em latim e até peças de teatro escritas no estilo usado pelos jesuítas da época.

Parte do conteúdo tem ligação com o Colégio das Artes de Coimbra, em Portugal, onde Anchieta estudou antes de vir para o Brasil. Também aparecem referências a temas e professores do missionário.

Esse ponto é importante porque o documento não tem assinatura. Por isso, os pesquisadores não tratam a autoria como uma prova simples e direta.

A tese de Soriano é que a obra pode ter sido organizada por Anchieta como uma espécie de caderno de trabalho. No século XVI, reunir textos próprios, adaptar materiais de estudo e organizar exercícios também podia ser entendido como uma forma de autoria.

É isso que o pesquisador chama de “autoria mediada”.

O manuscrito também pode revelar novas pistas sobre o início da educação, da literatura e do teatro no país.

Antes de virar nome de cidades e escolas, Anchieta foi um dos missionários mais importantes da história do Brasil. Ele atravessou o oceano, aprendeu a língua dos índios, escreveu, ensinou, e até fundou uma das maiores cidades do mundo.

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