Presidente critica ação que deixou 121 mortos e diz que ordem judicial “não era de matança, mas de prisão”

Lula se pronunciou publicamente pela primeira vez sobre a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão.
Em entrevista, o presidente classificou a ação das polícias como “desastrosa” e afirmou que pretende acionar a Polícia Federal para realizar uma perícia independente nos corpos das vítimas.
“A decisão do juiz era uma ordem de prisão, não tinha uma ordem de matança, e houve a matança. Eu acho que é importante a gente verificar em que condições ela se deu”, disse o presidente.
A Operação Contenção, deflagrada pelo governo do Rio de Janeiro, deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais.
O governador Cláudio Castro (PL) vem defendendo a ação como um “sucesso”, alegando que ela desarticulou uma reunião de líderes do Comando Vermelho e foi conduzida “de forma proporcional”.
Noo entanto, Lula adotou tom oposto:
“O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa.”
Desde o início da operação, Lula vinha evitando declarações diretas sobre o caso, limitando-se a uma nota genérica em suas redes sociais.
As críticas ocorrem no momento em que o governo tenta avançar com duas propostas voltadas à segurança pública.
A primeira é a PEC da Segurança Pública, enviada ao Congresso em abril, que amplia as competências da Polícia Federal para combater crimes ambientais e de repercussão interestadual e internacional.
O texto enfrenta resistência de governadores e da oposição, que veem risco de perda de autonomia estadual.
Além disso, o projeto de lei Antifacção, previsto para ser enviado nos próximos dias, prevê aumento de penas, confisco de bens e mecanismos de sufocamento financeiro das facções criminosas.
A iniciativa é uma resposta à escalada da violência e às críticas de que o governo tem sido omisso no tema.
O posicionamento de Lula também ocorre após ele afirmar, na semana passada, que “traficantes também são vítimas dos usuários”, declaração que provocou reação negativa no Congresso e entre autoridades de segurança.
Com a nova postura, o presidente tenta reposicionar o discurso do governo sobre o combate ao crime organizado. O tema, um dos mais sensíveis de sua gestão, voltou ao centro do debate após a operação mais letal da história do Rio de Janeiro.
A megaoperação realizada na última terça-feira (28) mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar e cumpriu 160 mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV). O objetivo era conter o avanço da facção na zona norte da capital.
Durante a ação, houve resistência armada, explosões e até ataques com drones, que lançaram bombas contra os policiais. O saldo inicial divulgado pelo governo estadual foi de 121 mortos, entre eles quatro policiais.
De acordo com a Defensoria Pública do Rio, o número chegou a 132, com 128 civis e quatro agentes.
Moradores relataram tiroteios intensos e fuga de criminosos por rotas alternativas. Nas redes sociais, surgiram vídeos mostrando homens armados se preparando para o confronto horas antes do início da operação.
Além das mortes, a operação deixou 12 policiais baleados, quatro deles mortos, e resultou em 81 prisões. A cidade viveu um dia de paralisia: escolas suspenderam aulas, comércios fecharam e ruas ficaram vazias.
O caso ainda está sob apuração. O governo estadual e o Ministério Público devem avaliar se houve falha no sigilo da operação ou simples previsibilidade diante da mobilização de tropas.
Por enquanto, o que se sabe é que a ação expôs novamente a complexidade do combate ao crime organizado no Rio de Janeiro, onde cada avanço da polícia traz, junto, novas perguntas sobre segurança, estratégia e controle.
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