Alberto da Costa e Silva passou décadas estudando reinos, cidades e civilizações africanas e mostrou por que conhecer esse passado é fundamental para compreender a História do Brasil.

“História da África não existe”. A afirmação do historiador britânico Hugh Trevor-Roper atingiu pessoalmente Alberto da Costa e Silva.
“Eu me senti insultado pessoalmente”, recordaria o brasileiro, que naquele período já havia dedicado anos ao estudo do continente africano. Para Costa e Silva, aquela ideia partia de uma visão limitada sobre o que poderia ser considerado História.
A África possuía um passado marcado por reinos, cidades, rotas comerciais, guerras, migrações, religiões, obras de arte e diferentes formas de organização política. E havia inúmeras maneiras de reconstruí-lo.
Séculos antes da chegada dos portugueses, diferentes regiões da África já haviam desenvolvido sociedades politicamente organizadas e extensas redes comerciais.
O Império do Mali se tornou uma potência ligada ao comércio de ouro. No século XIV, seu governante mais conhecido, Mansa Musa, realizou uma famosa peregrinação a Meca acompanhado por uma comitiva cuja riqueza impressionou os lugares por onde passou.
Na África Ocidental, cidades como Kano, Ifé e Benim possuíam mercados, artesãos especializados e estruturas próprias de poder.
Em outras partes do continente floresceram Axum, Gana, os reinos cristãos da Núbia, Songai, Grande Zimbabué e diferentes reinos iorubás.
É justamente essa diversidade que Alberto procura reconstruir em A Enxada e a Lança: a África antes dos portugueses.
No livro, ele resume a postura que adotou diante dessa história:
“Escrevi A enxada e a lança com rigor e paixão.”
Alberto da Costa e Silva não pretendia idealizar o continente. Sua obra aborda tanto o desenvolvimento de sociedades complexas quanto guerras, escravidão, disputas políticas e períodos de crise.
Seu objetivo era tratar a África como aquilo que ela sempre havia sido: parte da História humana.
Uma das dificuldades estava nas próprias fontes. Nem todos os povos africanos produziram grandes arquivos escritos semelhantes aos encontrados em algumas sociedades europeias. Mas isso não significava ausência de História.
A arqueologia revelou cidades, muralhas, túmulos, ferramentas, cerâmicas e sofisticados objetos de metal. Tradições orais preservaram acontecimentos, genealogias e memórias durante gerações.
Outras regiões deixaram também registros escritos. Na Etiópia, por exemplo, existia uma longa tradição de manuscritos. Cidades ligadas ao mundo islâmico produziram crônicas e documentos.
Para escrever A Enxada e a Lança, Alberto recorreu à arqueologia, à linguística, à paleontologia, a diferentes métodos de datação, a relatos de viajantes e a uma bibliografia gigantesca.
O resultado foi uma obra com mais de 1.600 notas de referência e mais de mil fontes bibliográficas.
O próprio autor reconhecia as dificuldades de reconstruir períodos tão remotos. Mas elas estavam muito longe de significar que não havia história para contar.
Alberto acreditava que havia também uma diferença na maneira como determinados passados eram valorizados.
Na escola, gerações aprenderam sobre gregos, romanos e outras civilizações da Antiguidade. A África, porém, frequentemente aparecia apenas a partir da escravidão ou da chegada dos europeus.
Ele questionou diretamente essa diferença:
“Se aprendemos na escola, com pormenores, o que se passou em Atenas e na Roma antigas, por que descurarmos de Axum, de Songai e de Ifé?”
Para Alberto, estudar essas sociedades não era apenas acrescentar alguns capítulos esquecidos à História Universal. Era também uma maneira de compreender melhor quem somos.
“Conhecer a história da África nos faz melhores”, escreveu. “Enriquece a consciência de nosso passado.”
Esse ponto foi central na trajetória de Alberto da Costa e Silva. Milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil durante séculos de escravidão. Mas essas pessoas não desembarcaram aqui sem passado.
Vinham de sociedades com estruturas políticas, econômicas, religiosas e familiares próprias.
Por isso, Alberto considerava impossível compreender verdadeiramente a escravidão brasileira sem conhecer os mundos dos quais aqueles homens e mulheres haviam sido arrancados.
Sua experiência como diplomata aprofundou essa percepção. Alberto esteve na independência da Nigéria, em 1960, passou pela Etiópia no ano seguinte e percorreu países como Gana, Togo, Camarões, Angola, Senegal, Serra Leoa, Congo e Quênia. Entre 1979 e 1983, foi embaixador na Nigéria e na República do Benim.
Ao viver na África, começou a perceber com maior nitidez os ecos daquele continente no Brasil.
Palavras, crenças, alimentos, técnicas, ritmos, costumes e formas de organização atravessaram o Atlântico junto com os homens e mulheres escravizados.
Alberto resumiu essa ligação em uma das passagens mais fortes de A Enxada e a Lança:
“Cada um deles tinha na carne e na alma a história de sua nação. Esse passado, por ter sido deles, é nosso, que os continuamos.”
Alberto da Costa e Silva começou a se interessar pela África ainda adolescente. Aos 16 anos, a leitura de Casa-Grande & Senzala ajudou a despertar uma curiosidade que o acompanharia durante toda a vida.
Diplomata, historiador, ensaísta e poeta, conciliou a experiência direta no continente com décadas de estudo.
Sua bibliografia inclui obras como A Enxada e a Lança, A Manilha e o Libambo e Um Rio Chamado Atlântico.
Seu trabalho o transformou em um dos principais africanistas brasileiros de sua geração e lhe rendeu, entre outras distinções, o título de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo, em Ifé, na Nigéria.
Alberto da Costa e Silva faleceu em 2023, aos 92 anos.
Mas tivemos o privilégio de registrar parte de seu conhecimento antes de sua morte.
Em 2017, Alberto da Costa e Silva concedeu uma entrevista exclusiva à Brasil Paralelo para a produção de Brasil: a Última Cruzada.
Assista gratuitamente a o primeiro episódio a seguir: