Entenda o caso Master
A trajetória do Banco Master começa em 2016, quando Vorcaro adquiriu o antigo Banco Máxima, instituição que já operava com problemas da gestão anterior.
Rebatizado como Banco Master, o banco adotou uma estratégia de crescimento baseada na captação acelerada de recursos.
Enquanto grandes bancos pagavam rendimentos próximos à taxa básica de juros do país, o Banco Master passou a oferecer ganhos muito mais altos em CDBs.
Esses investimentos, nos quais o cliente empresta dinheiro ao banco em troca de juros, prometiam rendimentos de 130%, 140% e até 150% dessa taxa.
A estratégia atraiu cerca de 1,6 milhão de investidores.
A maioria dos investidores contava com a garantia do Fundo Garantidor de Crédito, que protege depósitos de até R$250 mil por pessoa, o que reduziu a percepção de risco.
Na prática, essa garantia dava aos investidores a sensação de que o dinheiro estava seguro. A expectativa de ressarcimento fez com que muitos ignorassem os riscos do negócio.
Para pagar os rendimentos prometidos, o banco precisava obter ganhos muito altos, algo difícil no mercado tradicional de crédito.
Segundo as investigações, o banco aplicava o dinheiro dos clientes em negócios que demoravam para virar dinheiro, o que dificultava o pagamento dos investidores.
Auditorias identificaram ainda um modelo descrito como “esquema circular”. Fundos ligados ao próprio grupo compravam e vendiam ativos entre si, inflando artificialmente seus valores e o patrimônio declarado do banco.
Enquanto chegavam novos recursos, a estrutura se mantinha.
Paralelamente à captação de investidores, o Banco Master passou a ser investigado por fraudes em empréstimos consignados do INSS. As apurações apontam cerca de 250 mil contratos irregulares envolvendo aposentados.
Segundo os investigadores, não havia biometria, assinaturas válidas ou autorização comprovada. Mesmo assim, os valores passaram a ser descontados diretamente da folha de pagamento dos beneficiários.
Tentativa de venda para o BRB
Em 2024, o banco passou a ter dificuldade para pagar compromissos e buscar dinheiro rapidamente. Para obter recursos, tentou uma operação envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
No centro da operação estava a empresa Tirreno, criada pouco antes, com R$ 30 milhões declarados e sem atuação conhecida no mercado. A empresa teria “vendido” ao Banco Master cerca de R$6,7 bilhões em carteiras de crédito.
Esses créditos foram usados como garantia para a emissão de títulos do Banco Master, que acabaram comprados pelo BRB. Quando os auditores solicitaram a documentação dos devedores, os registros não foram apresentados.
A Tirreno alegou ter adquirido os créditos da financeira Cartos, que negou a transação. As investigações classificaram os ativos como inexistentes.
Após identificar esses problemas, a Polícia Federal deu início à Operação Compliance Zero para investigar o que estava por trás das irregularidades.
O caso ganhou dimensão institucional ao revelar a proximidade de Vorcaro com autoridades dos Três Poderes.
Relação com figuras da política nacional
Documentos apreendidos na Operação Compliance Zero mostraram a existência de um contrato de R$129 milhões entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, pertencente a Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
O contrato previa pagamentos mensais de R$3,6 milhões para a defesa dos interesses do banco junto a órgãos como o Banco Central e a Receita Federal. Mensagens atribuídas a Vorcaro tratavam os pagamentos como “prioridade absoluta”.
Segundo apuração do jornal O Globo, Alexandre de Moraes reuniu-se com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante o período da crise.
O ministro afirma que as reuniões trataram exclusivamente da Lei Magnitsky, aplicada a ele pelo governo dos Estados Unidos, e que não tiveram relação com o banco liquidado. O BC decretou sigilo sobre essas comunicações.
Viagem de Dias Toffoli com um advogado do Master
Outro episódio ocorreu no STF em novembro de 2025. Um dia após ser sorteado relator de um recurso do Banco Master, o ministro Dias Toffoli viajou ao Peru em um jato particular para assistir à final da Libertadores.
No voo estava o advogado Augusto Arruda Botelho, contratado por um diretor do banco. Dias depois, Toffoli decretou sigilo no processo e levou o caso ao STF, suspendendo investigações em instâncias inferiores.
O ministro afirma que a viagem teve caráter pessoal e que não tratou do banco durante o voo.
No Tribunal de Contas da União, o ministro Jhonatan de Jesus determinou uma inspeção no Banco Central. A iniciativa foi contestada pelo presidente da corte, Vital do Rêgo, que afirmou não haver competência do TCU para interferir na decisão do BC.
As investigações também passaram a analisar relações de Daniel Vorcaro com integrantes do Poder Executivo.
Reuniões com Lula e outras figuras de Brasília
Reportagens apontaram encontros fora da agenda oficial com o presidente Lula, além da atuação do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega como interlocutor do banqueiro.
As apurações mencionam ainda a prestação de consultoria jurídica ao Banco Master pelo ex-ministro da justiça Ricardo Lewandowski e a proximidade do senador Jaques Wagner (PT) com pessoas ligadas ao grupo.
Embora não haja acusações formais contra esses nomes, a exposição dessas relações ampliou o impacto político do caso.
Vorcaro foi preso tentando sair do país
Vorcaro chegou a ser preso ao tentar deixar o país pelo Aeroporto de Guarulhos. Após 11 dias, obteve o direito de cumprir prisão domiciliar por decisão do TRF-1.
Pouco tempo depois, surgiram relatos de tentativas de contratação de influenciadores e políticos para questionar publicamente a atuação do Banco Central. O vereador Rony Gabriel (RS) recusou a proposta e divulgou o contrato.
A crise atingiu também o Will Bank, braço digital do grupo, liquidado em janeiro de 2026. Cerca de 9 milhões de clientes ficaram temporariamente sem acesso a contas e cartões.
Daniel Vorcaro nega todas as acusações. Afirma que os recursos do BRB permaneceram em conta de garantia e foram devolvidos.
Sustenta que não contou com proteção política. Em seu depoimento, declarou: “Se tivesse ajuda de políticos, não estaria de tornozeleira”.
Esse é um resumo do caso que está chamando atenção do Brasil e que pode se tornar o maior escândalo bancário da história.
O que foi revelado até agora é apenas a ponta do iceberg.
Por trás dos fatos conhecidos, há camadas mais profundas, conexões pouco exploradas e decisões que ainda precisam ser compreendidas.
Nesta estreia inédita, a Brasil Paralelo lança luz sobre os bastidores de um caso que muitos prefeririam manter nas sombras.
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