Com origem na cidade do Rio de Janeiro, as favelas se espalharam pelo Brasil e já existem mais de 12,3 mil registradas.

O número de brasileiros que vivem em favelas nunca foi tão alto. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, 16,4 milhões de pessoas moram em favelas.
Esse número é o equivalente a aproximadamente 8,1% da população total que vive no Brasil.
Em pouco mais de uma década, essa população cresceu mais de 95%, transformando a expansão das favelas em um dos principais desafios urbanos do Brasil.
Os dados mais recentes do MapBiomas mostram que esse crescimento não aconteceu apenas no número de moradores.
Entre 1985 e 2024, a área ocupada pelas favelas passou de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares, quase triplicando em quatro décadas.
Atualmente, existem mais de 12,3 mil comunidades registradas espalhadas ao redor de todo o país.
Esse avanço é especialmente intenso nas grandes cidades. Hoje, 82% de toda a área ocupada por favelas está localizada em regiões metropolitanas, onde também se concentram empregos, serviços e oportunidades.
São Paulo, Manaus e Belém lideram o ranking das regiões metropolitanas com maior área urbanizada em favelas.
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O problema vai além da falta de moradia. Segundo o levantamento do MapBiomas, boa parte dessa expansão ocorreu justamente em áreas consideradas inadequadas para ocupação.
As favelas cresceram mais de 150% em terrenos muito inclinados, aumentando o risco de deslizamentos, e 145% em áreas próximas a rios e drenagens, locais mais vulneráveis a enchentes e inundações.
Além disso, cerca de 25% de toda a expansão urbana brasileira ocorreu em regiões onde a disponibilidade de água para abastecimento já é considerada insuficiente.
Uma das maiores marcas do subdesenvolvimento brasileiro nasceu justamente no Rio de Janeiro, então capital do país.
A origem das favelas está ligada a uma sequência de acontecimentos históricos que começou com a abolição da escravidão, em 1888.
A Lei Áurea colocou fim à escravidão, mas não foi acompanhada de políticas que garantissem moradia, trabalho ou integração social aos ex-escravizados.
Sem condições de permanecer nas regiões centrais, muitos passaram a viver em cortiços, moradias coletivas precárias que reuniam negros libertos, imigrantes pobres e outros grupos.
Poucos anos depois, esses cortiços também desapareceriam. Durante a reforma urbana do Rio de Janeiro, milhares de moradias foram demolidas para abrir espaço à modernização da cidade.
Muitos subiram o Morro da Providência, onde começaram a construir barracos com a madeira retirada das antigas casas.
Ao mesmo tempo, um dos conflitos mais famosos na história do Brasil ajudaria a dar nome a esse novo tipo de ocupação.
Após o fim da Guerra de Canudos, em 1897, soldados que haviam lutado na Bahia retornaram ao Rio de Janeiro.
O governo havia prometido moradias aos combatentes, promessa que nunca foi cumprida. Sem ter onde viver, muitos também passaram a ocupar o Morro da Providência.
Durante a campanha militar, esses soldados haviam permanecido próximos ao Morro da Favela, na região de Canudos, batizado por causa da planta conhecida como favela, comum naquela área.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, passaram a comparar o novo assentamento ao morro baiano.
Com o tempo, o nome deixou de identificar apenas aquele lugar e passou a designar qualquer comunidade construída de forma precária.
Ao longo do século XX, a industrialização acelerou o crescimento urbano e atraiu milhões de pessoas para os grandes centros.
Sem oferta suficiente de moradias formais e com o alto custo da terra, novas ocupações surgiram nas periferias, morros e áreas de risco.
Hoje, mais de um século depois do surgimento da primeira favela, os números mostram que o desafio continua crescendo.