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Uma década intensa, viva, às vezes complicada, mas verdadeira

Uma amizade de dez anos não precisa da mentira para sobreviver.

Por
Thomas Giulliano
Publicado em
Thomás Giuliano fala com a Brasil paralelo
Fonte da imagem: Lumine

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16h
25m
18s

Artigo de opinião

Há quem pergunte se voltamos a ser amigos. Não sei. Talvez nunca tenhamos deixado de ser. Houve um rompimento que me pareceu necessário e que julguei definitivo. Quase houve judicialização. 

Amizade é uma palavra estranha quando atravessa muitos anos. Pode sobreviver em lugares onde a convivência morreu. Pode se confundir com ressentimentos que parecem ocupar todo o espaço, até que alguma coisa se move e descobrimos que nem tudo estava morto ali.

Não gosto da estética da maior parte dos materiais recentes que assisti. Continuo achando que falta um diálogo mais sério com o público erudito e que, em algum ponto da estrada, parte daquela coragem juvenil foi substituída por pragmatismo. No campo da História do Brasil, que acompanhei mais atentamente, minha avaliação é bem menos generosa: acho que ficaram parados no tempo. Questões que nos inquietavam há dez anos parecem continuar sendo formuladas quase nos mesmos termos. Talvez fosse inevitável numa empresa que cresceu. Talvez não fosse.

Demorei, mas aprendi a entender as escolhas que fizeram. Seria pueril desejar que uma empresa seguisse numa sala de estar, com uma câmera e uma bateria morrendo no meio da gravação. Existem salários, milhares de assinantes, centenas de funcionários, metas, riscos que antes podiam ser assumidos sem muitos cálculos. Isso tudo, porém, não me obriga a gostar do resultado. 

Seria desonesto transformar meu desagrado numa condenação de tudo o que produziram desde então. Não penso que nunca mais tenham feito nada que preste. Seria uma estupidez dizer isso e, sobretudo, uma injustiça. Falo daquilo a que tive acesso, das escolhas que pude observar e principalmente do campo que conheço melhor. Minha crítica nunca precisou da caricatura para existir.

Continuo considerando o documentário sobre o Exército uma traição intelectual ao que havíamos construído. Não retiro uma palavra. O documentário sobre a enchente foi apressado. Vivi aquela tragédia perto demais para acompanhar sem incômodo à transformação daquela dor em produto narrativo. Estava metido na lama, nos pedidos, nas urgências, naquela sucessão de dias em que as pessoas perdiam casas, objetos, bichos, fotografias, às vezes familiares. Por isso me atingiu de modo particular a banalização que, a meu ver, aquele material produziu. Digo isso agora. No presente. Depois das desculpas, depois da reaproximação. Não preciso falsificar minhas opiniões. E por isso que posso dizer o resto.  

Fizemos muita coisa foda.

Quando os conheci, eram jovens saídos da ESPM carregando uma ideia que, vista de fora, podia parecer uma mistura de ingenuidade e insolência. Não sabiam até onde aquilo iria. Mas esses bandeirantes conquistaram um quinhão significativo da mídia brasileira e fizeram isso começando praticamente do nada. Estive ali quando ainda não havia a possibilidade confortável que permite às pessoas reorganizarem o passado e fingirem que tudo fazia parte de um grande plano. Havia improviso, risco, erro, convicção, brigas, entusiasmo. E havia coragem.

Peitamos Paulo Freire. Colocamos Alberto da Costa e Silva para dialogar, dentro de um mesmo projeto intelectual, com Olavo de Carvalho. Dissemos que 1964 foi golpe quando isso desagradava uma parcela do público que supostamente deveríamos agradar. Houve censura, acusação de revisionismo histórico. Gostava disso. Gostava de estar na vanguarda. Havia alguma coisa indisciplinada naquele período. Viajamos pelo Brasil, estivemos diante de gente extraordinária e, no meio disso, alguma coisa se moveu no debate político e cultural do país — para o bem ou para o mal.

Algumas discussões que hoje parecem ordinárias eram quase interditadas. Entramos nelas sem pedir licença. Houve erros, evidentemente. Mas até nossos tropeços tinham naquele momento a marca de quem avançava por um território ainda sem estrada. Talvez seja dessa irresponsabilidade que eu sinta saudade. Aquilo que se fazia por intuição precisou adquirir método.

Às vezes penso que nossa diferença cabe numa imagem mais simples. Continuo tocando blues num clube pequeno. Eles descobriram os grandes estádios e gostaram deles. No estádio é preciso pensar no sujeito da última arquibancada, no telão, no hit que milhares conseguem cantar juntos. Eu continuo interessado naquela mesa perto do palco, onde alguém consegue perceber quando o músico erra uma nota. Não há traição necessária em nenhuma dessas escolhas. Há apenas destinos que deixaram de coincidir. Somos, nesse sentido, inconciliáveis.  

Meu afastamento começou por volta de 2021. Não foi súbito. Fui me afastando à maneira de certas amizades antigas: primeiro deixamos de frequentar os mesmos lugares, depois descobrimos que as conversas ficaram difíceis e, quando percebemos, já existe entre as duas partes uma distância que ninguém sabe exatamente a origem. Talvez eu tenha me afastado também porque sou amigo. De desconhecidos esperamos pouco; dos nossos, esperamos aquela fidelidade quase absurda à imagem que guardamos deles. Em 2024, rompi. Foi público, duro e, em alguns momentos, doloroso. Disse o que pensava. Fiz críticas severas. Muitas atingiram pessoas com quem eu tinha dividido uma parte importante da vida. Mas mesmo durante esse período houve uma coisa que nunca disse: que me arrependia do que havíamos construído juntos. Nunca disse porque nunca pensei. Meus apontamentos seguiam noutra direção. Eu criticava porque sabia do que aquele projeto tinha sido capaz. Conhecia sua história antes que ela pudesse ser contada com retrospectivas bonitas, trilha sonora e fotografias escolhidas. Eu estava na primeira entrevista. Apresentei professores que mais tarde se notabilizariam dentro do próprio projeto. Em algum momento, sem perceber exatamente quando, deixei de ser apenas alguém que participara daquilo e passei a carregar aquilo dentro da minha própria biografia. 

Hoje há quem provavelmente pagasse uma gulosa para sentar diante de um microfone da Brasil Paralelo. Isso às vezes me diverte porque conheci aqueles sujeitos quando o microfone não conferia prestígio a ninguém. Não existia mundo algum para entrar. Era apenas o professor que recebia uns rapazes, oferecia café e ficava conversando enquanto esperávamos a bateria carregar. Gosto de me lembrar deles assim. Não porque despreze o que conquistaram. Ao contrário. Talvez seja porque conheci a precariedade inicial que consigo sentir a dimensão do que fizeram. E tenho um orgulho difícil de explicar quando olho o caminho entre aquela bateria descarregada e a empresa que existe hoje. Minha relação com essa história é umbilical. 

A Brasil Paralelo conseguiu me envelopar de tal maneira que, indiretamente, minha família deriva da Última Cruzada. Há uma intimidade quase cômica nisso, dessas que a vida prepara enquanto estamos ocupados demais para reconhecê-la. Você pensa que está participando de um projeto profissional, dando entrevistas, apresentando pessoas, discutindo História, viajando pelo país, e anos depois olha para a própria casa e descobre que os acontecimentos avançaram muito além daquilo que estava diante da câmera.

Mas há uma parte dessa história que nenhuma retrospectiva institucional conseguiria contar. Aqueles sujeitos foram caridosos comigo quando precisei. Estiveram perto nos momentos em que não havia câmera ligada, público para assistir ou qualquer vantagem em permanecer. Quando atravessei um divórcio, encontrei amparo. Conheceram versões minhas que não apareciam nas entrevistas. Em uma década, a vida entrou no meio do trabalho e misturou tudo.

Eu não comecei a defender aquele modelo depois que os números lhe deram razão. Defendi antes, quando ainda havia boas razões para desconfiar. Os lançamentos causavam estranheza, o funcionamento do negócio precisava ser explicado e o futuro não oferecia garantia. Podíamos estar assistindo ao nascimento de uma empresa ou apenas ver um grupo de jovens na direção de uma dívida considerável. Ninguém sabia. Eu tampouco. Ainda assim, defendia a estrutura escolhida por eles.  Hoje é fácil. Hoje existe uma década inteira encarregada de provar que alguma coisa funcionou. 

Não quero reescrever isso em benefício próprio. Seria grosseiro. A Brasil Paralelo que existe hoje foi construída por eles. Foram eles que transformaram uma aventura improvável numa empresa. O mérito é deles. Inteiro. Não quero roubar uma lasca. Mas também não vou mutilar minha memória para parecer modesto. 

Como eu poderia chamar isso apenas de trabalho? 

Dez anos são muito tempo. Principalmente quando vividos dessa maneira. Não fomos colegas que se encontravam para gravar alguma coisa. Há uma década inteira atravessada por viagens, projetos, discussões, entusiasmos, matrimônios, divórcios, nascimentos. Por isso sinto amor pelo que compartilhamos. Não preciso transformar esse amor numa aprovação retrospectiva. 

Quando jantaram com Lula e começou aquela orgia de condenação pública, com gente que os conhecia havia anos subitamente exigindo explicações como se tivesse descoberto uma fotografia de família com o inimigo, não perguntei nada. Não sabia o propósito exato do encontro. E não me interessou instaurar um inquérito antes de decidir se meus amigos continuavam merecendo minha confiança. Eu tinha uma década deles diante de mim. Os outros tinham uma fotografia. 

É preciso ter isso em mente para dimensionar a violência do que aconteceu entre nós depois. Eu não rompi com uma empresa cujo conteúdo deixara de me agradar. Não cancelei uma assinatura. Não fui um consumidor escrevendo uma resenha furiosa porque o produto havia mudado. Aquela história tinha entrado fundo demais na minha vida para me conceder a elegância da indiferença. Eu não tinha distância suficiente para ser justo o tempo inteiro. Tinha memória demais. Quando achei que estavam traindo coisas que havíamos defendido juntos, enxerguei alguma coisa sendo arrancada de uma história da qual eu também fazia parte. Posso ter errado no tamanho da reação. Posso ter transformado decepção em cólera e cólera em certeza. Mas seria mentira fingir agora que tudo aquilo nasceu de uma divergência intelectual. Não nasceu. 

Em 2026 vieram os pedidos de desculpas. Eu os aceitei.

Não porque tenha mudado de opinião sobre tudo. Não mudei. Continuo capaz de sentar diante deles e enumerar aquilo que considero erros, concessões, perdas. Eles talvez sejam capazes de fazer uma lista longa a meu respeito. Não importa. Uma amizade de dez anos não precisa da mentira para sobreviver.  Não voltarei ao estádio. Eles não voltarão ao pequeno clube de blues. Profissionalmente, nossos caminhos se afastaram demais, e há uma tranquilidade em admitir isso. Não precisamos inventar projetos para justificar uma reconciliação, nem produzir fotografias que deem ao público a impressão de que o tempo retrocedeu. Não retrocedeu. Ainda bem.

Sinto amor por esses sujeitos, inclusive quando olho para o que se tornaram e percebo o quanto já não cabemos na mesma sala comercial. Talvez seja essa a resposta para quem pergunta se voltamos a ser amigos.

Ontem foi a festa dos dez anos da Brasil Paralelo. Havia muita gente, discursos, homenagens, câmeras, aquela excitação que se forma em torno de uma empresa que venceu e agora pode celebrar a própria vitória. Imagino que oitenta e cinco por cento das pessoas estivessem ali pelo que uma festa daquela dimensão representa: o evento, os encontros, os negócios, a fotografia, o story, a oportunidade de dizer na manhã seguinte que estiveram lá. Não há censura nisso. É assim que o mundo funciona. Mas eu não estava lá por isso. Fui porque quis vê-los. Recebi deferências pelas quais sou grato. Não vou fingir aquela falsa indiferença de quem recebe uma homenagem e depois diz que não precisava dela. Fiquei tocado.

Olhei para eles e reconheci os sujeitos daquela antiga sala de estar. Ao fim do evento, individualmente, pude dizer que os amo. Disse mesmo. Sem metáfora, sem eufemismo. Há amizades que se revelam menos na frequência do contato do que na espécie de desastre que são capazes de suportar. 

Se amanhã a Brasil Paralelo quebrar, tratarei aqueles homens exatamente como os tratei quando não possuíam nada disso. Vou sentar com eles. Vou discutir História. Vou apresentar ideias para produções, apontar alternativas. Não porque tenha qualquer obrigação com a empresa. Meu vínculo é de outra natureza.

Sou um sujeito quixotesco. Sei disso. Não sou fácil. Tenho uma relação excessiva com lealdade, ideias, compromissos, palavras dadas. Quando acredito numa coisa, avanço contra o moinho. Eles sabem disso melhor do que quase todo mundo. Somos homens imperfeitos, vaidosos, difíceis, capazes de erros enormes, mas decentes. Depois de tudo, posso escrever isso sem hesitação.

Não sei o que os próximos dez anos farão conosco. Basta saber que chegamos até aqui sem transformar afeto em concordância, nem amizade em absolvição. Continuamos difíceis, diferentes, às vezes incompatíveis. Mas continuamos.

[VENDA] ENÉAS
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