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História•5 min de leitura

O assassino de um suicida: Carlos Lacerda precisou fugir após a morte de Getúlio Vargas

Personagem histórico hoje esquecido, Lacerda foi um dos principais nomes da política no século passado.

Por
Redação Brasil Paralelo
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Do lado esquerdo, o presidente brasileiro Getúlio Vargas. À direita, Carlos Lacerda discursando após um espancamento sofrido em 1948.
Fonte da imagem: Do lado esquerdo, o presidente brasileiro Getúlio Vargas. À direita, Carlos Lacerda discursando após um espancamento sofrido em 1948.

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No início dessa história, Carlos Lacerda estava na posição de vítima, mas terminou como o vilão segundo a opinião popular. Isso porque foi considerado o grande inimigo da nação ao se tornar o “assassino” do pai dos pobres e mãe dos ricos, Getúlio Vargas.

Tudo começou na Rua Tonelero, no Rio de Janeiro. Carlos Lacerda chegava em casa na madrugada de 5 de agosto de 1954 acompanhado de seu filho, Sérgio, e do major-aviador Rubens Florentino Vaz.

O militar havia se oferecido para acompanhá-lo naquela noite por temer pela segurança do jornalista.

Lacerda era um dos maiores opositores do governo de Getúlio Vargas e vinha recebendo ameaças em meio ao clima de tensão política no país.

O atentado da Rua Tonelero

Ao chegarem em frente ao prédio onde Lacerda morava, dois homens os aguardavam. Um deles abriu o paletó, sacou uma arma e começou a atirar.

Lacerda carregava um pequeno revólver no bolso e tentou reagir. A situação ficou ainda mais difícil quando seu filho, assustado com os disparos, agarrou-se a ele.

No meio do tiroteio, o jornalista sentiu uma forte dor no pé esquerdo. Uma das balas havia acertado Lacerda.

Rubens Vaz também foi atingido. O major da Aeronáutica não resistiu aos ferimentos e morreu.

O que inicialmente parecia ser um atentado contra um jornalista de oposição rapidamente se transformaria em uma das maiores crises políticas da história republicana brasileira.

A investigação chegou ao Palácio do Catete

A morte de um oficial da Aeronáutica fez com que o caso ganhasse uma dimensão ainda maior.

As investigações passaram a envolver militares e deram origem a um Inquérito Policial Militar.

O trabalho ficou conhecido como "República do Galeão", em referência à base aérea onde as investigações se concentraram.

As apurações chegaram ao pistoleiro Alcino João do Nascimento. Segundo as investigações, ele havia sido arregimentado por Climério Euribes de Almeida.

O caminho percorrido pelos investigadores, porém, não terminou nos responsáveis pela execução.

O homem de confiança de Getúlio Vargas

As investigações apontaram Gregório Fortunato como mandante do atentado.

Conhecido como "Anjo Negro", Fortunato era chefe da Guarda Pessoal de Getúlio Vargas e um dos homens que circulavam próximos ao presidente no Palácio do Catete.

A descoberta transformou o atentado em uma crise diretamente ligada ao núcleo presidencial.

Não havia apenas um jornalista ferido e um militar morto. Agora, homens ligados à segurança pessoal do presidente apareciam no centro da investigação.

Para Lacerda, o episódio se tornou mais uma arma em sua campanha contra Vargas.

Lacerda aumenta a pressão contra Vargas

Mesmo ferido, Carlos Lacerda intensificou os ataques ao governo.

A morte de Rubens Vaz também aumentou a insatisfação entre integrantes das Forças Armadas. A pressão pela saída de Getúlio crescia a cada nova descoberta sobre o atentado.

Lacerda passou a defender abertamente a saída do presidente.

Getúlio, por outro lado, enfrentava uma crise que se aproximava cada vez mais de seu círculo pessoal.

A situação chegou ao limite na madrugada de 24 de agosto.

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O tiro que mudou a história

Getúlio Vargas se reuniu com seus ministros no Palácio do Catete enquanto aumentavam as pressões para que deixasse a Presidência.

Horas depois, retirou-se para seu quarto.

Na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas disparou contra o próprio peito.

O presidente estava morto.

Ao lado de sua morte, um documento ajudaria a transformar completamente o ambiente político do país: a Carta-Testamento.

Getúlio se apresentava como vítima de forças que agiam contra seu governo e encerrava o documento com uma frase que entraria para a história:

"Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

De vítima a “assassino” de Getúlio

Em poucas horas, a posição de Carlos Lacerda diante da opinião pública se inverteu.

Menos de três semanas antes, ele havia sobrevivido a um atentado que terminou com a morte de um amigo.

Agora, parte da população o responsabilizava politicamente pelo ambiente que havia antecedido o suicídio de Vargas.

A comoção provocada pela morte do presidente tomou as ruas.

Para seus adversários, Lacerda deixou de ser apenas o principal opositor de Getúlio. Passou a carregar a imagem de um dos responsáveis por sua queda.

O homem que havia sobrevivido a uma tentativa de assassinato passou a ser chamado nas ruas de "assassino de Vargas".

A população se volta contra Lacerda

A revolta não ficou apenas nas palavras.

A Tribuna da Imprensa, jornal fundado e comandado por Lacerda, tornou-se um dos alvos da reação popular.

Manifestantes cercaram e atacaram a sede do periódico. Exemplares do jornal foram queimados.

O ambiente no Rio de Janeiro havia se tornado perigoso para um dos homens que, poucos dias antes, liderava a ofensiva política contra o governo.

Lacerda precisava sair dali.

Carlos Lacerda precisa fugir

Diante das manifestações, Lacerda buscou proteção enquanto a revolta se espalhava pela cidade.

Ele chegou a se refugiar na Embaixada dos Estados Unidos. A situação se agravou quando manifestantes também se aproximaram do local.

O jornalista acabou retirado de helicóptero e levado até o cruzador Barroso, da Marinha.

Pouco tempo depois, deixou o Brasil.

Era uma reviravolta difícil de imaginar na madrugada da Rua Tonelero.

Carlos Lacerda havia começado aquele mês como vítima de um atentado relacionado a integrantes da guarda pessoal do presidente.

Terminava agosto fugindo do país, responsabilizado por parte da população pela morte do mesmo homem cujo círculo político havia sido atingido pelas investigações do crime.

A perseguição a Lacerda não terminou em 1954

Aquele não seria o último conflito de Carlos Lacerda com o poder. Anos depois, ele apoiou a derrubada de João Goulart, rompeu com o regime militar e acabou preso e cassado após o AI-5.

Sua trajetória atravessou alguns dos principais conflitos políticos do Brasil no século XX.

A história completa de Carlos Lacerda é tema de um documentário da Brasil Paralelo.

Conheça a trajetória do jornalista que enfrentou Getúlio Vargas, chegou perto da Presidência e terminou afastado da política.

Assista ao documentário Carlos Lacerda

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