Pesquisadora influenciou o debate no mundo inteiro e mudou a forma como a academia lida com a questão.

A ideologia de gênero é um dos assuntos mais debatidos e polêmicos ao redor do mundo moderno.
No centro desse debate está Judith Butler, um dos maiores nomes que estudam o tema no mundo acadêmico.
Filósofa, professora e autora americana, Butler é uma das principais criadoras da Teoria Queer, segundo a qual gênero não é só uma consequência do sexo biológico, mas também resultado de normas culturais, históricas e sociais.
As ideias de Butler passaram a fazer parte de discussões sobre o movimento LGBT e identidade, influenciando políticas públicas em diferentes países.
Seu nome é motivo de polêmica. Em 2017, ela foi alvo de manifestações quando veio a São Paulo para um evento sobre democracia no Sesc São Paulo.
Uma petição pedindo o cancelamento daquele evento chegou a reunir a assinatura de mais de 360 mil pessoas.
Na ocasião, os manifestantes chegaram a queimar um boneco de bruxa com o rosto dela enquanto gritavam “queimem a bruxa”.
O experimento macabro com crianças conduzido por um dos principais nomes da ideologia de gênero é o tema do primeiro filme internacional da Brasil Paralelo, O Menino Que Se Chamava Brenda. Assista ao trailer completo abaixo:
Antes de olhar diretamente para o pensamento de Judith Butler, conheça sua história e as influências que ela teve.
A professora nasceu em 24 de fevereiro de 1956, na cidade de Cleveland, no estado de Ohio, nos EUA.
Foi criada em uma família judaica. Seu pai era dentista e sua mãe atuava na defesa do direito à moradia.
Em uma entrevista para o canal Big Think, Butler disse que desde criança foi impactada pelos movimentos que apareciam na década de 1960.
Naquela época, o mundo passava pela Revolução Sexual, uma transformação na forma de pensar sobre a liberdade sexual desafiando a moral tradicional.
A nudez em público virava uma forma de protesto e expressão artística, principalmente entre os jovens hippies.
Toda forma alternativa de sexualidade e o aborto também começaram a ser discutidos e receber uma forte defesa.
Para David Allyn, a Revolução Sexual foi o momento em que a sociedade “saiu do armário” em relação ao sexo antes do casamento, masturbação, pornografia e sexualidade.
Mesmo sendo apenas uma adolescente no ensino médio, Butler já se considerava uma pessoa politicamente ativa, como contou na entrevista:
“Quando cheguei ao ensino médio, já era politicamente ativa. Ao mesmo tempo, fazia cursos universitários de filosofia.”
Segundo contou, aos 20 anos, ela entendeu que os judeus não foram as únicas vítimas do nazismo e começou a entender que há diferentes formas de opressão:
“Passei a acreditar que era necessário ampliar a perspectiva e compreender que muitos grupos foram alvo de políticas genocidas, além de reconhecer que existem diferentes formas de opressão.”
Butler estudou no Bennington College e fez seus estudos de pós-graduação em filosofia na Universidade de Yale.
Ela deu aulas na Universidade Wesleyan, na Universidade George Washington e na Universidade Johns Hopkins, e desde 1993 leciona na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Nas décadas de 1970 e 1980, ela já participava do movimento que começava a questionar a ideia de gênero:
“A teoria queer estava surgindo. Ela se desenvolvia em um diálogo complexo com o feminismo. As questões trans ainda não haviam emergido como parte da nossa realidade contemporânea, então vivíamos um momento em que fazíamos perguntas como: ‘O que a sociedade fez de nós e o que podemos fazer de nós mesmos?’"
A ideia mais conhecida de Judith Butler é a de que o gênero não é uma característica fixa ou uma essência natural da pessoa.
Segundo a filósofa, o gênero é construído por meio de comportamentos, discursos e práticas que são repetidos continuamente ao longo da vida.
Para ela, essas repetições criam a impressão de que existe uma identidade natural e permanente.
Essa ideia ficou conhecida como performatividade de gênero. Na visão de Butler, as pessoas não expressam um gênero que já existia dentro delas.
Pelo contrário, aprendem padrões e comportamentos que são repetidos, como um ator trabalhando em uma personagem, e assim a sociedade reconhece masculino ou feminino:
“A performance é importante nesse sentido porque nós efetivamente encenamos quem somos, e qualquer pessoa que estuda performance sabe que existem performances que realizamos em nossas vidas que não são mera representação, não são falsas.”
Ela também distingue sexo e gênero. O sexo seria o que é atribuído no nascimento com base na biologia, já o gênero envolveria normas culturais, familiares e históricas, além de desejos e experiências pessoais.
Butler afirma que reconhece a existência das diferenças biológicas, mas argumenta que elas não determinam completamente quem uma pessoa é ou como ela deve viver.
Ela resume essa ideia afirmando que o sexo atribuído ao nascer e o gênero ensinado pela sociedade não precisam determinar toda a trajetória de uma pessoa.
A obra mais famosa de Judith Butler é Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, publicada em 1990.
O livro questiona uma ideia que, segundo a autora, a existência de uma experiência única e universal das mulheres.
Butler argumenta que essa categoria poderia excluir diferentes grupos e defende uma compreensão mais ampla da identidade de gênero:
"Em sua essência, a teoria feminista tem presumido que existe uma identidade definida, compreendida pela categoria de mulheres, que não só deflagra os interesses e objetivos feministas no interior de seu próprio discurso, mas constitui o sujeito mesmo em nome de quem a representação política é almejada."
Na obra, ela também afirma que muitas normas sociais ligadas ao gênero são produzidas e reforçadas culturalmente:
"Se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não se pode dizer que ele decorra de um sexo desta ou daquela maneira... Resulta daí que o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; ele também é o meio discursivo/cultural pelo qual 'a natureza sexuada' ou 'um sexo natural' é produzido e estabelecido".
Isso faz com que ela enxergue o gênero como algo a ser performado, mais do que uma questão natural ou biológica.
Dessa maneira, a ideia de masculino e feminino se torna mais fluida, uma pessoa que se identifica com o masculino pode aderir a caracteristicas atribuídas sexo oposto e vice versa:
“O gênero é uma identidade tenuemente constituída no tempo, instituído num espaço externo por meio de uma repetição estilizada de atos.”
Três anos depois, Butler aprofundou parte dessas ideias em Bodies That Matter, respondendo a críticas e desenvolvendo novos argumentos sobre sexo, linguagem e identidade.
Embora frequentemente seja apresentada como a criadora da ideologia de gênero, Judith Butler rejeita essa descrição.
Segundo ela, existem muitas teorias sobre gênero e seu trabalho representa apenas uma delas.
A filósofa também afirma que suas ideias foram influenciadas por autores e pesquisadores anteriores, como Simone de Beauvoir, Gayle Rubin e Juliet Mitchell.
Para Butler, todas as pessoas possuem alguma concepção sobre o que é gênero. O debate, segundo ela, consiste justamente em questionar de onde surgem essas ideias e como elas são construídas.
No entanto, a própria ideia de gênero tem um criador, um médico neozelandês que se chamava John Money.
Até meados do século XX, a palavra gender era usada quase exclusivamente na gramática para classificar substantivos como masculinos, femininos ou neutros.
Foi ele quem levou esse termo para a medicina. O historiador Vern Bullough explica que, em 1955, Money adotou a palavra "gênero".
Seu objetivo era diferenciar masculinidade e feminilidade do sexo biológico, criando uma distinção que até então não existia na literatura médica:
"Um bom exemplo é a sua concepção de gênero. Em 1955, ele adotou um termo antigo, gênero — há muito usado no discurso linguístico para designar se os substantivos são femininos, masculinos ou neutros — para servir como um conceito abrangente para distinguir a feminilidade ou o ser mulher e a masculinidade ou o ser homem do sexo biológico."
Um dos principais problemas para suas teorias dentro da comunidade científica na época era que ela não poderia ser testada de maneira experimental.
O cenário muda quando aparece a família Reimer. Os pais tiveram dois irmãos gêmeos, porém um deles, Bruce, perdeu o pênis durante uma cirurgia de circuncisão mal sucedida.
Desesperados, eles aceitam seguir os conselhos do médico e criar o filho que passou pelo acidente como se fosse uma menina, Brenda.
A experiência é catalogada como um sucesso, mas a verdade é bem mais sombria. Cabe ao pesquisador e rival de John Money, Dr. Milton Diamond expôr o que realmente aconteceu.
Essa história está sendo contada pela Brasil paralelo em seu novo filme O Menino que se Chamava Brenda. Assista ao trailer completo abaixo:
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