Atualidades5 min de leitura

O que acontece quando o comediante mais famoso da China brinca com o comunismo?

Guo Degang é investigado após alterar uma canção revolucionária em tom de piada.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Guo/Xi
Fonte da imagem: Reprodução

Receba notícias gratuitamente em seu email

Uma piada feita no palco virou caso de Estado na China. Guo Degang, um dos comediantes mais conhecidos do país, passou a ser investigado depois de alterar versos de uma canção revolucionária ligada ao Partido Comunista Chinês.

O episódio aconteceu durante uma apresentação em Wuhan, no fim de julho. Guo cantou uma versão modificada de Tocando meu amado pipa, música associada aos guerrilheiros comunistas que lutaram contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial.

Na letra original, um dos versos diz que “tudo está quieto no lago Weishan”.

Guo trocou o lago pela Cidade Proibida, antigo centro do poder imperial chinês, e cantou o trecho em tom satírico.

Parece pouco para quem vive fora da China. Mas, dentro do país, a referência tem peso.

A Cidade Proibida fica no coração de Pequim e foi a sede do poder durante séculos. Ao colocar esse símbolo em uma música revolucionária, Guo foi acusado de “distorcer e vulgarizar” uma obra clássica e de violar padrões de moral pública.

O Departamento de Cultura e Turismo de Wuhan afirmou que a adaptação feita pelo comediante não constava no material submetido previamente à aprovação. A investigação continua em andamento.

Depois da repercussão, algumas apresentações de Guo foram canceladas, e compradores de ingressos começaram a ser reembolsados.

Por que uma música pesa tanto na China?

Na China comunista, canções revolucionárias não são apenas músicas antigas. Elas fazem parte da memória oficial do regime.

Muitas foram usadas para contar a história do Partido Comunista, exaltar seus combatentes e formar uma narrativa de unidade nacional.

A própria canção citada por Guo apareceu em um filme chinês dos anos 1950, Guerrilheiros da Ferrovia, e foi escolhida em 2019 entre cem músicas para celebrar os 70 anos da fundação da República Popular da China.

Esse é o ponto: o humorista não mexeu apenas em uma melodia popular. Ele tocou em um símbolo político.

[VENDA] ENÉAS

O limite da arte no regime comunista chinês

O caso de Guo não é isolado. Em 2023, o comediante Li Haoshi foi multado em cerca de R$11,3 milhões após usar uma frase associada ao Exército de Libertação Popular em uma piada sobre cães de rua.

Ele pediu desculpas, foi proibido de se apresentar por tempo indeterminado e não voltou a aparecer publicamente.

Esses episódios ajudam a entender a China de hoje.

O país virou uma República Popular em 1949, após a vitória dos comunistas liderados por Mao Tsé-Tung na guerra civil contra os nacionalistas.

Depois da morte de Mao, o país passou por reformas econômicas que permitiram mais abertura ao mercado, entrada de investimentos estrangeiros e crescimento acelerado.

Foi esse movimento que ajudou a transformar a China em uma das maiores potências econômicas do mundo.

Mas a abertura econômica não veio acompanhada de abertura política.

O país continuou sob controle do Partido Comunista Chinês, em um sistema de partido único.

A iniciativa privada ganhou espaço, mas a vida pública, a imprensa, a cultura e os símbolos políticos permaneceram sob vigilância do Estado.

É por isso que o caso de Guo vai além do cancelamento de um show.

Na China, uma piada não é engraçada para o partido quando toca em símbolos ligados à memória oficial do regime.

Uma música revolucionária, uma frase militar ou uma referência ao centro do poder podem se tornar assunto de investigação.

Para entender as origens do regime, assista ao original da Brasil Paralelo A História do Comunismo.

Assista ao primeiro episódio gratuitamente:

O jornalismo da Brasil Paralelo existe graças aos nossos membros

Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público. O que financia nossa estrutura são as assinaturas de cada pessoa que acredita em nossa causa. 

Quanto mais pessoas tivermos conosco nesta missão, mais longe iremos. Por isso, agradecemos o apoio de todos. 

Seja também um membro da Brasil Paralelo e nos ajude a expandir nosso jornalismo. 

Clique aqui.

[VENDA] ENÉAS
[VENDA] ENÉAS