Enquanto Xi e Putin buscam menos dependência de Washington, Modi mantém laços estratégicos com os próprios Estados Unidos.

Donald Trump já chamou blocos como o BRICS de "anti-americanos" e atacou publicamente qualquer tentativa de formar uma ordem alternativa à liderada pelos Estados Unidos.
Nesta semana, boa parte desses líderes se encontraram, e o discurso da vez foi justamente esse: construir um mundo menos dependente de Washington.
Xi Jinping e Vladimir Putin estiveram nesta segunda-feira na capital do Quirguistão, ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian.
Formalmente, é a cúpula anual da Organização de Cooperação de Xangai, que completa 25 anos. Mas a data comemorativa serviu como pano de fundo para uma mensagem política mais direta.
Xi e Putin trataram sobre a guerra na Ucrânia, embora o Kremlin diga que esse não foi o tema principal da conversa.
A organização reúne hoje dez países-membros, que juntos representam 43% da população mundial. Uma reunião bilateral entre Putin e Pezeshkian está prevista para terça-feira (1º).
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Apesar do discurso de unidade, o grupo tem dificuldade histórica em falar a mesma língua sobre temas centrais.
Na guerra da Ucrânia, a Rússia conseguiu alinhar a maioria dos membros a seus interesses, mas a Índia insiste em manter uma posição mais equilibrada, buscando laços com Kiev ao mesmo tempo em que compra recordes de petróleo russo.
Já sobre a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, a organização adotou postura mais unificada, condenando o uso da força em comunicado conjunto em março.
A Índia, porém, se recusou a assinar uma declaração anterior que condenava Israel pelo ataque ao Irã em 2025.
Para o pesquisador Alejandro Reyes, da Universidade de Hong Kong, esse tipo de divergência mostra os limites do rótulo "anti-EUA".
"As diferenças entre a China, a Rússia e a Índia são muito substanciais para justificar esse rótulo. A pressão econômica e geopolítica americana pode, por vezes, gerar convergência entre países que, de outra forma, poderiam discordar mais uns dos outros".
A China busca se firmar como articuladora de uma ordem mundial mais multipolar, reforçando sua influência na Ásia Central. A Rússia quer provar que não está isolada, mesmo sob sanções ocidentais pela guerra na Ucrânia.
A Índia joga outro jogo. Participa da cúpula sem abrir mão da relação com os Estados Unidos, inclusive através do Quad, aliança que também inclui Japão, Austrália e o próprio governo americano.
O resultado é um bloco que, na prática, funciona como um espaço onde cada país busca seus próprios interesses, mesmo sentando à mesa com quem discorda.
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