Condenado por matar três pessoas em 1999, ele mora sozinho a poucos quarteirões do local.

Em 1999, um estudante de Medicina entrou armado com uma submetralhadora numa sala de cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, durante uma sessão do filme "Clube da Luta". Matou três pessoas e feriu outras nove.
Levado a julgamento em 2003, Mateus da Costa Meira foi considerado plenamente capaz de compreender seus atos.
Uma junta de peritos concluiu que o crime havia sido planejado com detalhes incompatíveis com qualquer tese de insanidade: ele comprou a arma por R$5 mil, providenciou munição e se hospedou em um hotel para dificultar seu rastreamento.
Durante o inquérito, chegou a declarar por que escolheu o shopping como alvo: "Poderia ser na Câmara dos Deputados. Mas lá tem detector de metais."
Mais de duas décadas depois, Mateus está livre.
Hoje com 51 anos, ele vem sendo fotografado por frequentadores do Shopping Barra, um dos centros comerciais mais movimentados de Salvador.
Mora sozinho, a poucos quarteirões do local, e circula por cafés, livrarias e salas de cinema, algumas parecidas com aquela onde cometeu o massacre.
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Após ser condenado em São Paulo, ele foi enviado para a Penitenciária de Tremembé. Em 2004, pediu transferência para uma unidade de Salvador, para ficar perto dos pais. Lá, tentou matar um companheiro de cela a golpes de tesoura.
Esse segundo crime levou a um novo julgamento, e dessa vez o resultado foi diferente. Acusação e defesa concordaram que Mateus era inimputável.
Os jurados aceitaram a tese, e ele foi internado por tempo indeterminado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia.
Documentos do processo mostram que o Ministério Público da Bahia se opôs à desinternação, alegando que não havia perícia comprovando o fim de sua periculosidade, nem estudo social sobre a capacidade dos pais, já idosos, de supervisioná-lo.
Segundo os autos, os próprios pais haviam relatado à Justiça que não tinham condições de recebê-lo em casa, citando agressões anteriores: Mateus já havia quebrado três costelas do pai e perseguido a irmã com uma faca.
Com o anúncio da desativação do hospital de custódia, sem outra unidade disponível, os pais voltaram atrás e concordaram em acolhê-lo. Ainda assim, por precaução, ele hoje mora sozinho em uma quitinete.
A Justiça da Bahia autorizou a desinternação em 2024, mesmo com laudos que descreviam delírios persecutórios, alucinações auditivas, baixa tolerância à frustração e risco elevado de comportamento violento..
Desde a soltura, ele já foi visto almoçando com a mãe na praça de alimentação do shopping. Um advogado que já atuou em sua defesa relatou ter dado meia-volta ao encontrá-lo no local, acompanhado dos próprios filhos.
Durante o processo, peritos também encontraram uma lista manuscrita com nomes de pessoas que Mateus pretendia matar, incluindo jurados de seu julgamento, ex-advogados e médicos que assinaram laudos desfavoráveis a ele.
O caso repercutiu nas redes sociais. Em publicação no X, o empresário Leandro Rushel criticou a soltura de Mateus.
"O contribuinte sustenta um dos Judiciários mais caros do planeta e recebe em troca um sistema incapaz do básico: manter separado da sociedade quem os peritos do próprio Estado classificaram como perigo à vida alheia. O Ministério Público disse não. Os psiquiatras disseram não. Os pais disseram não. A lista de futuras vítimas estava nos autos. E a Justiça disse sim."
Procurados pelo O Globo, o Ministério Público da Bahia, o Tribunal de Justiça da Bahia e os pais de Mateus não se manifestaram.
Em nota, o Shopping Barra, sem citar o nome de Mateus, afirmou manter protocolos rigorosos de segurança e monitoramento no local.
O caso de Mateus é apenas um retrato de um sistema que, segundo críticos, falha em manter afastados da sociedade quem representa risco real. Enquanto isso, quase 300 mil criminosos que deveriam estar presos vivem livres no Brasil.
É essa crise que a Brasil Paralelo investiga em "Entre Lobos 2026", a maior produção já feita sobre segurança pública no país.
O documentário estreia gratuitamente no dia 30 de julho, às 20h.
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