BC nega violação de direitos autorais e afirma que sistemas de pagamentos instantâneos por celular já existiam antes do Pix.

Talvez você considere o Pix uma das melhores ideias dos últimos tempos. A facilidade de transferir dinheiro entre contas e fazer pagamentos instantâneos tornou a vida financeira dos brasileiros mais simples e ágil.
Agora, o sistema de pagamentos voltou às manchetes por outro motivo. Anette Vernaschi Toppan afirma ter criado a ideia que deu origem ao Pix e processou o Banco Central alegando que seu projeto foi usado sem autorização.
Ela teria criado um protótipo do sistema entre 2011 e 2012: uma metodologia de pagamentos instantâneos por celular. O projeto teria sido chamado inicialmente de Celltoken e depois associado à plataforma Tá Pago.
Ela pede uma indenização mínima de R$1 milhão. A ação também cobra danos materiais, lucros cessantes, royalties e o reconhecimento de autoria sobre a tecnologia.
A professora ainda pede a suspensão do Pix em todo o país, com multa diária de R$100 mil em caso de descumprimento.
Segundo a ação, a ideia surgiu quando Anette tentava vender materiais didáticos e percebeu que muitos clientes não conseguiam concluir pagamentos pelos meios disponíveis na época.
A partir desse problema, ela diz ter criado um sistema de transferências eletrônicas instantâneas, acessado pela internet e por aparelhos celulares.
O Tá Pago previa o uso de créditos pré-pagos de telefonia móvel para movimentar valores. A proposta, segundo a autora, buscava incluir pessoas não bancarizadas e oferecer uma alternativa ao dinheiro em espécie e aos cartões de plástico.
Em 2014, Anette registrou o projeto na Biblioteca Nacional. A defesa afirma que esse registro comprova a anterioridade da criação e protege elementos como textos, metodologia, fluxogramas e estrutura de funcionamento do sistema.
O ponto central da ação é a alegação de que o Banco Central teria tido acesso ao projeto antes do lançamento do Pix.
Segundo a professora, documentos da plataforma Tá Pago foram enviados à autarquia em 2015, quando a empresa buscava autorização para funcionar como arranjo de pagamento.
A defesa sustenta que esse contato ocorreu antes ou durante o período de estudos que levaria à implementação do Pix.
Depois que o sistema foi lançado, em novembro de 2020, Anette afirma ter identificado semelhanças entre as duas propostas.
A petição compara os fluxogramas do Tá Pago e do Pix e diz que ambos teriam elementos estruturais parecidos: um pagador, um recebedor, uma rede de pagamentos instantâneos e transações feitas por meio de celular.
Para a autora, o Pix seria uma espécie de “versão 2.0” do Tá Pago. A ação afirma que o sistema teria reproduzido “ideia, layout, trechos, metodologia, entre outros elementos” do projeto registrado por ela.
Nos autos, o Bacen afirma que sistemas de pagamentos instantâneos por dispositivos móveis já existiam em outros países antes de 2014.
Também argumenta que direitos autorais protegem a forma concreta de uma obra, não a ideia abstrata de realizar transferências rápidas.
O BC sustenta ainda que o Pix foi desenvolvido de forma independente por seu corpo técnico e que há diferenças relevantes entre os modelos.
Enquanto o Pix funciona dentro do Sistema Financeiro Nacional, com transferências entre contas por meio de chaves, o Tá Pago previa o uso de créditos de telefonia celular.
O processo tramita na 18ª Vara Federal Cível do Distrito Federal. A ação foi protocolada em setembro de 2025 e inicialmente corria em segredo de Justiça. O sigilo foi retirado em maio, permanecendo restrito apenas a documentos fiscais da autora.
O juiz federal Arthur Pinheiro Chaves já negou o pedido da professora para realização de perícia técnica que compararia os sistemas.
Para o magistrado, os documentos apresentados são suficientes para analisar o mérito do caso. A defesa de Anette recorreu.
Também há uma discussão sobre documentos apresentados pelo Banco Central em língua estrangeira. O juiz determinou a tradução para o português, mas a autarquia pediu reconsideração.
Agora, a Justiça terá que decidir a origem do Pix. Ou o sistema nasceu de uma inovação própria do Banco Central, ou reproduziu parte de um projeto registrado anos antes por uma professora que diz nunca ter recebido reconhecimento.
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