Investigação aponta dívida trabalhista de mais de R$1,5 milhão. Empregadores firmaram acordo com o Ministério Público.

Ela chegou à casa aos sete anos, em 1971. Passou por três gerações da mesma família, sempre sem carteira assinada, até ser resgatada em condição análoga à escravidão em um condomínio de luxo em Fortaleza.
Sua rotina começava por volta das 4h30 da manhã, quando preparava o café e organizava a saída das crianças para a escola. O resto do dia era dedicado à limpeza, ao preparo das refeições e aos cuidados com a casa e com os filhos da família.
A trabalhadora, hoje com 62 anos, foi resgatada em junho pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, dentro de um condomínio de luxo na cidade de Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza.
De acordo com a investigação, ela trabalhava sem salário para a mesma família havia mais de 50 anos.
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Tudo começou em 1971, quando ela tinha sete anos. Segundo a empregadora, a menina "foi dada pela mãe" e assim passou a viver na casa da família.
Uma irmã dela também teria ido junto, mas não foi localizada. Segundo a família, ela deixou a casa ainda na adolescência.
Enquanto os filhos da família frequentavam a escola normalmente, as duas meninas nunca tiveram acesso à educação formal. Ao longo dos anos, a trabalhadora acompanhou a família em três gerações diferentes.
Em 1982, ela foi morar com a filha da primeira patroa, que havia acabado de formar a própria família, e passou a cuidar dos três filhos do casal.
Em 2014, mudou de casa de novo, agora para cuidar da geração seguinte: duas crianças que hoje têm 7 e 11 anos.
Durante todo esse período, ela nunca recebeu salário regular. Estava inscrita no Cadastro Único e recebia R$600 mensais pelo programa Bolsa Família.
Segundo a investigação, era a própria empregadora quem sacava o dinheiro do benefício e depois o repassava à trabalhadora. A Auditoria-Fiscal identificou possível fraude nesse processo, já que a empregadora teria informado que a mulher vivia sozinha e estava desempregada para viabilizar o acesso ao benefício.
O caso será encaminhado às autoridades competentes.
Segundo a fiscalização, somando salários não pagos, férias, 13º salário, FGTS e horas extras, a dívida trabalhista com a mulher passa de R$ 1,5 milhão.
Só a partir de 2014 é que existe vínculo empregatício reconhecido oficialmente, quando ela chegou à última casa onde trabalhou. Por isso, os empregadores assinaram um acordo com o Ministério Público do Trabalho.
Pelo acordo, eles vão pagar R$50 mil em dez parcelas e comprar um imóvel de pelo menos R$150 mil para a trabalhadora, já com móveis e eletrodomésticos.
Também vão pagar a Previdência dela até se aposentar, com um valor extra de até R$12 mil caso ela complete 64 anos sem conseguir se aposentar ainda.
Mesmo depois de resgatada, a mulher continua morando na casa dos empregadores. Segundo o g1, ela agora recebe apoio psicológico para se adaptar ao que os próprios investigadores chamam de "mundo externo".
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