Suprema Corte dos EUA começa julgamento sobre crianças trans
A decisão pode impedir que estados proíbam tratamentos que seriam irreversíveis em menores de idade.

A Suprema Corte americana começou o julgamento sobre uma lei do estado de Tennessee que impede crianças de fazerem procedimentos para mudança de sexo.
O Tribunal ouviu a primeira sessão de argumentação oral sobre o caso nesta quarta-feira, 4 de dezembro.
Os magistrados passaram mais de duas horas ouvindo argumentos contrários e favoráveis à lei, podendo fazer perguntas para as pessoas que falavam.
Três advogados falaram na Corte:
- a procuradora-Geral dos EUA, Elizabeth Prelogar: ela representa a gestão Biden, que é contra a lei do Tennessee;
- o procurador-geral do Tennessee, J. Matthew Rice: ele representa o governador que aprovou a lei e
- o advogado da União Americana pelas Liberdades Civis, Chase Strangio: será o primeiro advogado trans a falar na Corte e era o responsável pelo caso desde o início.
Enquanto os juízes ouviam os posicionamentos, um grupo de pessoas protestava em frente ao prédio com faixas dizendo “Stop the Harm” (Pare o dano), “Let Children Grow Up” (Deixe as crianças crescerem) ou “Health Matters” (A saúde é importante).
O processo
A medida foi implementada no ano passado e proíbe tratamentos hormonais, o uso de bloqueadores de puberdade para menores de idade e qualquer outro tratamento irreversível.
A organização American Civil Liberties Union (ACLU) iniciou um processo contra a lei em nome de três crianças trans e seus pais.
A administração do democrata Joe Biden deu apoio ao caso, argumentando que a medida violaria a 14ª emenda da Constituição americana, que garante tratamento igualitário para todos os cidadãos no país.
A decisão da Suprema Corte pode impedir que os estados criem regulamentações independentes sobre menores trans.
Tennessee não foi o primeiro estado a criar medidas desse tipo, de acordo com a Humans Rights Campaign, 26 estados já passaram aprovaram propostas parecidas, que podem ser revertidas com base no julgamento.
Argumentos
Um dos principais pontos levantados pelos advogados contrários à lei foi considerar a medida como discriminatória para mulheres.
A alegação era de que esse tipo de medicamento pode ser usado livremente por homens menores de idade para tratar de questões ligadas ao crescimento e, por tanto, a medida afetaria apenas mulheres que querem mudar de gênero.
Dessa forma, o tratamento seria considerado desigual, o que seria inconstitucional por causa do artigo 14 da Constituição americana.
Matthew Rice defendeu a medida contra essa acusação comparando o argumento com o uso de outros remédios controlados:
“Assim como usar morfina para controlar a dor é diferente de usá-la para auxiliar o suicídio, usar hormônios e bloqueadores da puberdade para tratar uma condição física é muito diferente de usá-los para tratar o sofrimento psicológico associado ao próprio corpo.”
Os advogados contrários à lei também ressaltaram questões como saúde mental das crianças trans, como foi o caso da procuradora geral dos EUA:
“uma proibição categórica abrangente, onde o legislativo nem sequer levou em consideração os benefícios significativos para a saúde que podem advir do fornecimento de cuidados de afirmação de gênero, incluindo redução de ideação suicida e tentativas de suicídio.”
Posicionamento dos juízes
O juiz John Roberts defendeu que os a questão envolve conceitos médicos que fogem do escopo da Corte, por esse motivo os legisladores teriam mais capacidade de tomar a decisão:
"Se isso for verdade, isso não torna um caso mais forte para deixarmos essas determinações para os corpos legislativos, em vez de tentarmos determiná-las por nós mesmos?"
A juíza Ketanji Brown Jackson, por outro lado, disse que a pauta era importante demais para ficar sob responsabilidade dos estados.
Outro magistrado, Brett Kavanaugh, indagou os opositores à lei sobre os riscos que medicamentos do tipo poderiam representar:
“Você diz que há benefícios em permitir esses tratamentos, mas também há danos, certo, de permitir esses tratamentos... incluindo perda de fertilidade, efeitos físicos e psicológicos sobre aqueles que mais tarde mudam de ideia e querem transacionar, que eu acho que não podemos ignorar."
A Corte deverá apresentar o veredito final sobre o caso em junho do ano que vem, ainda não existe uma data específica agendada.
A ideologia de gênero, tese de que fatores sociais definem se um indivíduo é homem ou mulher, é uma das questões mais debatidas globalmente e na sociedade brasileira não é diferente.
A Brasil Paralelo investigou a questão para o documentário original Geração sem Gênero, o segundo episódio da minissérie As Grandes Minorias.
Assista ao filme completo abaixo:
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