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Políticas comunistas destruindo um país: a crise do Sri Lanka

Um vídeo chocante marcou a internet no último mês: uma multidão invadiu o palácio do presidente do Sri Lanka. As motivações para a crise do país são complexas, mas alguns fatores principais podem elucidar os motivos. Marxismo e depreciação do agronegócio são alguns dos principais fatores.
Comunicação Brasil Paralelo
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3/2/2022

Há meses o país vinha sofrendo com grandes protestos. O governo tentou impedir o movimento ordenando toques de recolher, mas a medida não funcionou. O povo resistiu e pressionou o presidente. No dia 14 de julho de 2022, Gotabaya fugiu para Singapura e renunciou ao cargo por e-mail.

O Sri Lanka enfrenta crises sociais desde o início do governo de inspiração marxista da década de 50. A história política pode explicar porque o país passou por uma guerra civil e sofre até hoje.

A luta de classes e a crise no país

Dentro do território do Sri Lanka, duas etnias principais convivem desde os tempos em que o país era uma colônia da Inglaterra: os tâmeis e os cingaleses.

Segundo o economista Rodrigo Constantino, os tâmeis sempre foram minoria no país, mas suas regiões sempre possuíram mais contato com a Inglaterra. A interação frequente com os ingleses fez com que os tâmeis prosperassem socialmente e economicamente, ascendendo aos cargos de elite do país.

A realidade dos cingaleses era outra. Embora este grupo também fosse governado pela Inglaterra, os cingaleses interagiam pouco com os britânicos.

As áreas dos cingaleses eram utilizadas para extração de recursos naturais, não sendo de interesse dos ingleses viver nessas regiões.

Estes fatores históricos influenciaram o futuro do país. Devido a educação que os ingleses forneceram aos tâmeis, o grupo assumiu o poder quando Sri Lanka se tornou independente, em 1948. Mesmo a cultura tâmil sendo distinta da cingalesa, o país vivia em relativa paz, não havia graves conflitos culturais ou físicos.

Contudo, essa paz chegaria a um fim. As diferenças culturais começaram a se acirrar quando alguns cingaleses instituíram cotas estudantis. A justificativa para os atos era uma suposta dívida histórica, o objetivo era punir os membros da etnia tâmil.

Em 1972, a política cingalesa do 'sistema de cotas distritais' endureceu a lei de cotas, excluindo o acesso dos tâmeis ao ensino superior. Grupos de cingaleses radicais foram conquistando espaço e acirrando a luta entre as etnias.

O principal agente da luta de classes foi Solomon Bandaranaike, cingalês que se graduou em economia na universidade de Oxford, Inglaterra. Sua família era do ramo rico dos cingaleses.

Após os estudos universitários, Solomon deixou a religião cristã e passou a lutar contra a cultura inglesa presente no Sri Lanka. Ele e sua esposa eram declaradamente de esquerda. Solomon criou um partido político e passou a instigar os cingaleses a não aceitarem a cultura inglesa e tâmi.

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Quando Solomon ocupava o cargo de primeiro-ministro do país, em 1978, ele aprovou uma nova constituição que transformava o cingalês na língua oficial do Sri Lanka e o budismo como a religião oficial do país. Os membros do Estado que não falavam cingalês seriam demitidos. O inglês estava sendo banido.

O acadêmico Alfred Jeyaratnam Wilson afirma que o país aproximou-se dos comunistas no governo de Solomon. Em seu livro “Politics in Sri Lanka, the Republic of Ceylon: A Study in the Making of a New Nation” (tradução: Política no Sri Lanka, a república do Ceilão: Um estudo de uma Nova Nação, disponível apenas em inglês), o autor mostra que o país se aliou à União Soviética e à China Comunista durante a Guerra Fria.

As medidas governamentais seguiam a teoria comunista em diversos aspectos, desde a nacionalização de empresas à luta de classes. Cada vez mais o Estado se tornava hostil à etnia tâmil. Toda a cultura do grupo estava sendo proibida.

Após estes atritos políticos, conflitos armados foram surgindo pelo país, até explodirem na sangrenta guerra civil do Sri Lanka, iniciada oficialmente em 1983.

A economia pós-guerra

A guerra civil do Sri Lanka só teve fim em 2009. Oitenta mil pessoas morreram e os cingaleses assumiram o poder definitivo do país. Gotabaya Rajapaksa, o presidente que teve o palácio invadido, era um importante militar cingalês.

Gotabaya durante seu mandato presidencial.

A economia do país foi abalada pela guerra. Muitas fontes de renda importantes foram reduzidas, como o turismo, o agronegócio e a reserva de moeda estrangeira. A partir da década de 70, a economia do país se recuperou razoavelmente.

Em 2016, a pobreza no país alcançou seu menor índice, sendo reduzida para 4,6% da população, segundo dados do Banco Mundial. Em 2002, o número de pessoas pobres equivalia a 22,7% da população. 

Contudo, o cálculo é feito com base na renda média da população. As pessoas que vivem acima da linha da pobreza não vivem com muito conforto.

Segundo a empresa de investimentos Morningstar. Inc, em 2016, um rúpio cingalês equivalia a 2 centavos do real brasileiro. Após as crises de 2022, a moeda passou a valer 1 centavo brasileiro.

Em 2022, a economia do Sri Lanka entrou em colapso, gerando os grandes protestos atuais. Alguns dos principais motivos foram:

  1. luta contra a agropecuária;
  2. fim do turismo durante a pandemia do coronavírus;
  3. corte de impostos e má gestão cambial.

Luta contra a agropecuária

Segundo Rodrigo Constantino, uma das principais influências do governo de Gotabaya foi a indiana Vandana Shiva. Vandana é militante feminista e contrária ao uso de defensivos agrícolas.

Seguindo as ideias do movimento ambientalista, o então presidente do Sri Lanka declarou que o Sri Lanka iria banir todos os defensivos agrícolas da nação. A medida foi aplicada no início de 2021. O país, que já passava por crises financeiras, piorou. 

Vandana Shiva e Sri Lanka agronegocio
Print de um tweet de Vandana comemorando a política contrária aos defensivos agrícolas.

Segundo o jornalista Alexandre Garcia, o preço interno do arroz do país subiu em 50%; o preço do coco, importante commodity do país, aumentou em 30% para a população e diminuiu em quantidade; o chá, um dos principais produtos de exportação do Sri Lanka, teve sua produção reduzida pela metade.

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Antes dos problemas do agronegócio, a pandemia prejudicou um dos principais negócios do país: o turismo.

Fim do turismo durante a pandemia do coronavírus

Segundo a BBC, o governo do Sri Lanka afirmou que a pandemia foi o principal motivo da crise econômica. Os governantes alegaram que o turismo era uma das principais fontes de renda do país.

A pandemia do coronavírus fez com que viagens internacionais fossem praticamente encerradas. Em 2019, o turismo correspondia a cerca de 5% do PIB do Sri Lanka, segundo o professor de relações internacionais Filipe Martins.

Além de comprar itens no país, os turistas trocam suas moedas pela moeda do Sri Lanka. Esse câmbio fornece moedas de grande valor internacional para o país, o que auxilia na importação de produtos e na reserva cambial.

Além da perda de uma das fontes de moedas estrangeiras, a má gestão do governo prejudicou todo o estoque que o país possuía. A má gestão do fundo de moedas internacionais fez com que o país não conseguisse mais importar combustível.

Corte de impostos e má gestão cambial

Em meio ao início da crise contemporânea, no final de 2021, o governo do Sri Lanka diminuiu o valor de alguns impostos para estimular a economia nacional. Essa medida fez com que a arrecadação estatal diminuísse.

Com uma menor arrecadação, agências de classificação econômica rebaixaram o Sri Lanka para níveis próximos de falta de recursos financeiros. Observando isso, países credores do Sri Lanka deixaram de negociar com o país, já que não haveria dinheiro para pagá-los.

Com a falta de confiança do mercado internacional e a falta de dinheiro estrangeiro, o Sri Lanka ficou sem diversos produtos essenciais que vinham do exterior, como gasolina. Acabando o combustível, as pessoas não conseguiam mais se deslocar por grandes distâncias.

Invasão do palácio e caos social

Manifestantes no Sri Lanka

Muitas pessoas ficaram sem trabalhar, crianças ficaram sem ir a escola e produtos essenciais, como comida e remédio, deixaram de chegar em diversos locais. Esse episódio foi a gota d’água para a população do Sri Lanka.

A crise do combustível aconteceu junto com a crise dos alimentos, gerada pela luta contra o agronegócio. Os efeitos negativos da guerra civil, originada pela luta de classes, esquentaram ainda mais o clima do país.

Todos esses fatores foram determinantes para que os cidadãos expulsassem o presidente do país. Em julho de 2022, as pessoas continuam nas ruas do país em um cenário caótico.

Atualmente o Sri Lanka é governado por um presidente interino. O líder Ranil Wickremesinghe tentou voltar o país a ordem, mas o povo continua nas ruas. 

O futuro do país é incerto, mas o passado pode ser estudado. Muitos foram os motivos para que o país entrasse em crise, mas 3 fatores principais podem ser nomeados: a luta de classes, a depreciação do agronegócio e a má gestão financeira.

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