Qual a origem da Ideologia de Gênero? Conheça a história de um dos conceitos mais polêmicos do mundo
Saiba como um médico da Nova Zelândia foi um dos principais responsáveis pelo surgimento do conceito.

A ideologia de gênero é um tema sensível, capaz de movimentar paixões, impactar na política e construir convicções.
Essa questão motiva debates no meio acadêmico, político e é a inspiração para o primeiro filme internacional da Brasil Paralelo.
A teoria separa o sexo biológico do papel exercído por uma pessoa diante da sociedade, que seria uma construção chamada de gênero.
Atualmente existem inúmeras interpretações e visões do que seria isso exatamente e como se manifestaria.
O gênero nasce de uma interpretação relativamente recente sobre o comportamento humano.
Conheça abaixo as origens do gênero no mundo acadêmico e como essa teoria se desenvolveu:
O experimento com crianças conduzido por um dos principais nomes da teoria de gênero é o tema do primeiro filme internacional da Brasil Paralelo, O Menino Que Se Chamava Brenda. Assista ao trailer abaixo:
O primeiro registro da teoria de gênero
Até meados do século XX, a palavra gender (gênero em inglês) era usada quase exclusivamente na gramática para classificar substantivos como masculinos, femininos ou neutros.
A primeira vez em que o termo foi mencionado com uma referência a seres humanos aconteceu na revista The American Journal of Psychology, em 1945.
No artigo Sanity and Hazard in Childhood (Sanidade e Perigo na Infância), o psicólogo americano Isaac Madison Bentley usou a expressão.
Ele descreveu o gênero como sendo o “sexo socialmente observado”, ou seja, a construção social em torno da biologia, como explicou:
“A fala e as ações dos adultos vão, gradualmente, atribuindo um gênero ao eu em formação da criança. A maneira como ela passa a se perceber e a se valorizar é regulada pela satisfação — ou pela tolerância resignada — dos pais ao descobrirem que o bebê é menina ou menino, pela divisão de deveres e privilégios entre pai e mãe e, por fim, pela posição ocupada na família por irmãos, irmãs e até pelos animais de estimação da casa.”
Apesar de ser o primeiro registro histórico do uso de gênero, o artigo não alcançou grande relevância na comunidade científica.
O gênero por John Money
Foi o médico neozelandês, John Money, que levou esse termo para a medicina. O historiador Vern Bullough explica que, em 1955, Money adotou a palavra "gênero".
Seu objetivo era diferenciar masculinidade e feminilidade do sexo biológico, criando uma distinção que até então não existia na literatura médica:
"Um bom exemplo é a sua concepção de gênero. Em 1955, ele adotou um termo antigo, gênero — há muito usado no discurso linguístico para designar se os substantivos são femininos, masculinos ou neutros — para servir como um conceito abrangente para distinguir a feminilidade ou o ser mulher e a masculinidade ou o ser homem do sexo biológico."
O próprio Money explicou por que fez essa mudança. Segundo ele, a palavra "sexo" havia passado a designar muitas coisas diferentes ao mesmo tempo.
Para ele, o termo explorava de maneira imprecisa questões como anatomia, cromossomos, comportamento sexual e reprodução.
Para evitar essa confusão, escreveu que decidiu utilizar a expressão "gender role", ou papel de gênero, como um conceito para descrever comportamentos e funções culturais.
A partir dali, os termos sexo e gênero passaram a ocupar lugares diferentes em sua teoria.
Ele criou o conceito Gender Identity/Role (Papel ou Identidade de Gênero) para afirmar que identidade e comportamento formavam uma única unidade.
"A identidade de gênero é a experiência privada do papel de gênero, e o papel de gênero é a expressão pública da identidade de gênero", escreveu em 1973.
Essa compreensão levou o pesquisador a definir o papel de gênero como tudo aquilo que uma pessoa "diz ou faz" para revelar sua condição de homem ou mulher.
Vale destacar que Money não citou Bentley em seus principais artigos, o que levanta a possibilidade dos dois terem chegado à mesma terminologia de maneira independente.
O cérebro nasceria preparado, mas não "programado"
Uma das ideias centrais defendidas por John Money era que o desenvolvimento do gênero resultava da interação entre fatores biológicos e experiências vividas.
Ele rejeitava tanto a ideia de que tudo fosse determinado pela biologia quanto a de que tudo dependesse exclusivamente da educação.
Para explicar essa interação, utilizava uma comparação com a linguagem. Segundo Money:
"Você nasceu com predisposição, mas não foi programado para o gênero, da mesma forma que nasceu com predisposição, mas não foi programado para a linguagem."
Ou seja, na sua visão, o cérebro humano nasceria preparado para desenvolver uma identidade de gênero, porém, isso depende das experiências vividas principalmente nos primeiros anos de vida.
Essa teoria levou Money a formular um dos conceitos que marcaram sua carreira e deram origem a um experimento macabro pelo qual ele seria lembrado.
Inspirado pela embriologia, ele defendia que o desenvolvimento infantil acontecia por meio de "períodos críticos".
Em determinados momentos da infância, haveria grande flexibilidade e depois disso, essa possibilidade diminuiria rapidamente.
Segundo escreveu em 1973, as evidências disponíveis indicavam que o desenvolvimento da identidade de gênero acontecia nos primeiros meses de vida:
"Pelas evidências observadas em pessoas intersexo submetidas a tentativas de redesignação sexual após a primeira infância, torna-se evidente que a fase pós-natal da diferenciação da identidade de gênero já começou de forma inexorável por volta dos 18 meses de idade e está surpreendentemente completa por volta dos 4 anos e meio."
O experimento polêmico de John Money
Essa tese o levou a realizar um de seus experimentos mais polêmicos, o caso dos irmãos Reimer.
Um dos principais problemas para sua teoria dentro da comunidade científica na época era que ela não poderia ser testada de maneira experimental.
O cenário muda quando aparece a família Reimer. Os pais tiveram dois irmãos gêmeos, porém um deles, Bruce, perdeu o pênis durante uma cirurgia de circuncisão mal sucedida.
Desesperados, eles aceitam seguir os conselhos do médico e criar o filho que passou pelo acidente como se fosse uma menina, Brenda.
A experiência é catalogada como um sucesso, mas a verdade é bem mais sombria. Cabe ao pesquisador e rival de John Money, Dr. Milton Diamond expôr o que realmente aconteceu.
Essa história está sendo contada pela Brasil paralelo em seu novo filme O Menino que se Chamava Brenda. Assista ao trailer completo abaixo:
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A influência da ideologia de gênero na psicanálise
Na década de 1960, o conceito de gênero passou a ser absorvido pelo estudo da psicanálise.
O processo começou com o refinamento do termo gênero, que teve como um de seus principais expoentes o psicanalista Robert Stoller, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).
Em sua obra mais conhecida sobre o assunto, Sexo e Gênero, Stoller afirma que a identidade de gênero e o sexo biológico seriam quase completamente independentes:
“Um dos objetivos deste estudo será confirmar o fato de que os dois domínios (sexo e gênero) não estão de modo algum inevitavelmente vinculados numa relação de um para um, mas cada um pode seguir seu caminho bastante independente."
Sua visão defendia que o gênero era definido nos primeiros meses de vida, com base em aprendizados catalisados pela figura materna.
Apesar do gênero se manifestar anos depois, esses primeiros momentos da vida seriam fundamentais para a construção do subconsciente:
“Esse processo de aprendizagem começa no nascimento, embora seus efeitos só se manifestem no bebê à medida que o ego se desenvolve gradualmente. Esse processo cultural emana da sociedade, mas o sentido disso é canalizado por meio da mãe."
O próprio John Money chegou a elogiar o trabalho de Stoller, afirmando que ele usou seu conceito para revolucionar a psicanálise:
"Robert Stoller, o primeiro psicanalista a reconhecer a importância teórica dos novos dados sobre hermafroditismo, originou o termo 'identidade central de gênero' e, com ele, iniciou uma revisão da teoria psicanalítica clássica."
Como o gênero entrou no feminismo e nas ciências sociais
Na década que se seguiu, o termo deixou de ser restrito a médicos e psicólogos para adentrar na política e ciências sociais.
Figuras importantes da segunda onda do movimento feminista já tinham levantado teses semelhantes à ideia de gênero.
Um dos exemplos mais famosos é a famosa máxima de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”.
Essa frase segue a tese de que ser mulher é mais do que uma questão biológica e está ligado a uma série de fatores sociais.
No entanto, uma das primeiras feministas a explorar o conceito de gênero em seus trabalhos acadêmicos foi Kate Millett.
Seu trabalho mais famoso, Política Sexual (1970), elogia e usa como referência as pesquisas de Money e Stoller.
A autora defende que as diferenças entre homem e mulher seriam mais aprendidas através da socialização do que realidades biológicas, construídas principalmente pela sociedade patriarcal e usadas para explorar as mulheres.
O gênero se tornou cada vez mais uma constante entre as autoras feministas que se seguiram.
Gayle Rubin, por exemplo, explora a separação entre sexo e gênero em seu livro O Tráfico de Mulheres (1975).
Na publicação, ela fala em um "sistema de sexo/gênero”, definido como um “um conjunto de arranjos através dos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e na qual estas necessidades sexuais transformadas são satisfeitas.”
Apesar de não citar Money em seus trabalhos mais famosos, a autora reconhece sua influência na introdução do compilado Deviations, de 2011:
“Embora eu não tenha citado Money e Ehrhardt, fui de fato influenciada pelo livro dele… o impacto de Money é complexo, mas sua relevância para a teoria feminista inicial frequentemente passou despercebida e foi subestimada.”
Judith Butler e as críticas a John Money
A identidade de gênero se difundiu dentro das academias e abriu espaço para novas interpretações.
Atualmente, um dos nomes mais famosos ligados a essa corrente de pesquisa é a professora Judith Butler.
Sua obra mais conhecida é Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, publicada em 1990.
O livro questiona uma ideia que, segundo a autora, a existência de uma experiência única e universal das mulheres.
A ideia mais conhecida de Butler é a de que o gênero não é uma característica fixa ou uma essência natural da pessoa.
Segundo a filósofa, o gênero é construído por meio de comportamentos, discursos e práticas que são repetidos continuamente ao longo da vida.
Essa ideia ficou conhecida como performatividade de gênero. Na visão de Butler, as pessoas não expressam um gênero que já existia dentro delas.
Pelo contrário, aprendem padrões e comportamentos que são repetidos, como um ator trabalhando em uma personagem, e assim a sociedade reconhece masculino ou feminino:
“A performance é importante nesse sentido porque nós efetivamente encenamos quem somos, e qualquer pessoa que estuda performance sabe que existem performances que realizamos em nossas vidas que não são mera representação, não são falsas.”
Judith e a crítica a John Money
Apesar de ser parte de uma tradição construída a partir da tese criada por Money, Butler critica de maneira ampla o médico.
Em um artigo intitulado Fazer Justiça Por Alguém, ela critica a desonestidade do médico na divulgação de seu experimento.
Além disso, destaca que no caso dos irmãos Reimer, "a maleabilidade é, por assim dizer, violentamente imposta, e a naturalidade é induzida artificialmente."
Outra discordância vem com relação à ideia de que procedimentos cirúrgicos por si só teriam o poder de transformar Bruce em uma mulher:
"Money defende a facilidade com que um corpo feminino pode ser construído cirurgicamente, como se a feminilidade fosse sempre pouco mais do que uma construção cirúrgica, uma eliminação, um corte."
Conheça melhor a história do experimento com o primeiro filme internacional da Brasil Paralelo: O Menino Que Se Chamava Brenda. Assista ao trailer completo abaixo:
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