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Terrorismo no Rio de Janeiro: traficante evangélico pode ser o primeiro a entrar na classificação

Criminosos estão impedindo as pessoas de seguirem a Igreja Católica e religiões de matriz africana em áreas controladas.

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Redação Brasil Paralelo
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Rifle de precisão em um esconderijo do TCP no Rio de Janeiro.
Fonte da imagem: BBC Brasil

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Um traficante de drogas pode ser classificado como terrorista pela primeira vez no Brasil. 

Peixão, líder do Terceiro Comendo Puro (TCP), é acusado de liderar um grupo que persegue, tortura e até mata por motivos religiosos, segundo a Polícia Militar do Rio de Janeiro

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“Soldados de Jesus”

Um grupo de cinco comunidades compõem o chamado “Complexo de Israel”. O termo foi batizado como referência à terra prometida, para o povo de Deus na Bíblia. 

O Terceiro Comando Puro (TCP) surgiu em 2002, a partir de uma dissidência do extinto Terceiro Comando. Atualmente, o grupo é uma das facções mais poderosas no Rio de Janeiro.

Um ramo da organização assumiu o nome de Tropa de Arão, em referência ao irmão de Moisés, figura bíblica que liderou a fuga do povo judeu do Egito e sua busca pela terra prometida.

Arão é um dos apelidos do traficante Álvaro Malaquias de Santa Rosa, que também é conhecido como Peixão. Figura repleta de mistérios, alguns afirmam que ele seria pastor. 

Esse grupo é marcado pela fé de seus líderes na religião evangélica. Segundo a pesquisadora Viviane Costa, autora do livro “Traficantes evangélicos”, o grupo compartilha orações e revelações que recebem no rádio. 

Desde 2016, a tropa controla cinco favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro conhecidas como:

  • Parada de Lucas;
  • Vigário Geral;
  • Cidade Alta;
  • Pica-Pau e
  • Cinco Bocas.

As comunidades estão cercadas de barricadas e infestadas de homens armados que se autodenominam “soldados de Deus” para impedir a entrada da polícia e de grupos rivais 

Estrelas de David estão espalhadas por toda a região, além disso passagens bíblicas são retratadas em muros da comunidade.

De acordo com a polícia, o grupo chega a identificar as drogas que transporta com bandeiras de Israel.

Foto de uma passagem bíblica em um muro da comunidade. Imagem: Open Edition.

Traficantes proíbem práticas religiosas no Complexo de Israel

Segundo o secretário de segurança, a Tropa de Arão também interfere diretamente na vida religiosa dos moradores do complexo.

Há relatos de terreiros de religiões de matriz africana fechados pelos traficantes com frases como “Jesus é o dono do lugar” pichadas nas paredes

Quando esses traficantes evangélicos ordenam o fechamento de terreiros, além do racismo e intolerância religiosa, estão demonstrando seu poder, força e domínio no território. Ou seja, esse grupo de traficantes utiliza a gramática evangélica como instrumento de dominação da população residente nas favelas”, explicou a pesquisadora Kristina Hinz para a BBC Brasil.

Os traficantes também determinaram que as igrejas católicas da região estão proibidas de celebrar missas, casamentos e batizados.

Motoqueiros armados teriam ido nas portas de paróquias para avisar aos religiosos que as atividades deveriam ser encerradas.

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Grupo poderá ser classificado como organização terrorista

As investigações da Polícia Federal (PF) apontam para a classificação da organização como grupo terrorista.

A PF estaria levando em conta questões como violência desmedida contra civis e as motivações religiosas por trás das ações de Peixão.

Isso porque a definição da lei antiterrorismo brasileira incluí a prática violenta de discriminação religiosa:

O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.”

O crime de terrorismo é imprescritivel e pode levar a penas que variam de 12 a 30 anos de prisão, além de outras penas de crimes corelatos, como homicídio, destruição de patrimônio, entre outros.

Governador chamou o TCP de grupo terrorista

No final do ano passado, traficantes do Complexo de Israel reagiram a uma operação policial, levando a um tiroteio em plena Avenida Brasil, uma das principais do Rio.

Em uma coletiva de imprensa após o embate, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), disse que “foi um ato de terrorismo” e que “não dá pra classificar de outra forma”.

Castro destacou a violência gratuita contra civis que estavam na avenida, que teriam sido alvo dos traficantes:

A polícia estava de um lado e a ordem foi atirar nas pessoas que estavam do outro lado. Esses criminosos atiraram a esmo para acertar pessoas de bem que estavam indo trabalhar"

A reação dos traficantes teria acontecido porque os agentes da Polícia Militar estavam perto da localização de Peixão.

O governador pediu ajuda do governo federal e destacou que esse as armas e drogas entram no Rio através de portos e aeroportos da federação

Como se classifica alguém como terrorista?

  • O  crime de terrorismo envolve atos violentos ou ameaças destinados a gerar medo generalizado. Também coloca em risco vidas, integridade física, patrimônio e a paz pública

É definido pela Lei nº 13.260/2016 como ações motivadas por xenofobia, discriminação ou preconceito racial. Também abrange crimes por motivação étnica ou religiosa, categoria pela qual os crimes cometidos pelo traficante  étnico ou religioso, e abrange o uso de explosivos, armas químicas ou biológicas, além de sabotagem. 

No Brasil, o terrorismo é punido com penas que variam de 12 a 30 anos de prisão, sempre em regime fechado. 

Essa punição é mais severa do que a aplicada para o tráfico de drogas, cujas penas variam entre 3 e 6 anos de reclusão, em caso de condenação. Além disso, é a Justiça Federal que julga este tipo de crime. 

Isso porque a organização criminosa tem se apropriado de uma narrativa religiosa nos territórios que domina na Baixada Fluminense.

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