Ir para o conteúdo principal
História•5 min de leitura

A operação que salvou milhares de manuscritos de extremistas islâmicos

Bibliotecários conseguiram tirar milhares de manuscritos antigos de uma cidade tomada por jihadistas no Mali.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
•Publicado em
Homem segura manuscrito antigo aberto sobre o chão
Fonte da imagem: The New York Times

Receba notícias gratuitamente em seu email

Próximo envio em
22h
55m
30s

A destruição de livros e obras da Antiguidade por extremistas acompanha a humanidade há séculos e continua acontecendo.

No auge do Estado Islâmico, o grupo destruía esculturas e registros históricos da era pré-islâmica no Iraque e na Síria.

Um episódio semelhante quase aconteceu no Mali, após a turbulência política causada pelo golpe de Estado de 21 de março de 2012.

A destruição só foi impedida por causa de uma operação de voluntários e funcionários da biblioteca.

Grupos radicais islâmicos tomaram as principais cidades do Norte do país e passaram a atacar o patrimônio cultural da região.

Uma delas era Timbuktu, que guardava um dos maiores tesouros escritos da África. A cidade surgiu no século XII como um centro comercial às margens do rio Níger.

  • Que tal receber notícias todos os dias em seu E-mail? Clique aqui e receba de graça o Resumo BP.

A riqueza de Timbuktu

A cidade fica no cruzamento das rotas que atravessavam o Saara, ligando a África tropical ao Mediterrâneo. Ao longo dos séculos, viu nascer e cair os impérios de Gana, do Mali e de Songai.

Os sábios de Timbuktu não apenas trouxeram manuscritos de outras terras islâmicas. Eles também copiaram e escreveram milhares de textos sobre direito, matemática, poesia religiosa e crônicas históricas.

Os manuscritos cobrem do século XII ao início do século XX. Até 2012, estavam guardados em mais de 35 bibliotecas familiares e nos arquivos do Instituto Ahmed Baba, do governo malinês.

Timbuktu foi tomada pelos rebeldes em 1º de abril de 2012, dez dias depois do golpe. Os combatentes islâmicos destruíram monumentos antigos protegidos pela UNESCO.

Quando perceberam que os manuscritos eram patrimônio da humanidade e tinham valor para o Ocidente, a destruição dos textos virou prioridade para os rebeldes.

[LEAD] Paraguai

A operação que salvou a história de Timbuktu

Cientes do perigo, os donos das bibliotecas decidiram tirar os manuscritos da cidade às escondidas e levá-los para Bamako, a capital, a mais de 700 km.

Um dos principais organizadores foi Abdel Kader Haïdara, diretor de uma das maiores bibliotecas de Timbuktu e presidente de uma associação de donos de manuscritos.

Ele convenceu a maioria dos proprietários a confiar a ele o resgate de suas coleções.

Para não levantar suspeitas, os manuscritos foram levados aos poucos. Os textos eram guardados em baús de metal muito usados na África para transportar roupas.

Cada carro levava no máximo dois baús, para não chamar atenção. Antes de chegar aos carros, parte dos manuscritos saiu da cidade em carroças puxadas por burros ou em canoas pelo rio Níger. Os trajetos eram alterados com frequência.

Ao todo, foram cerca de 2.400 baús, o que exigiu aproximadamente 1.200 viagens de carro.

A operação durou oito meses, de junho de 2012 a janeiro de 2013, e transportou cerca de 285 mil manuscritos, recolhidos de quase todas as bibliotecas importantes da cidade.

Graças a esses esforços de resgate, pelo menos 95% dos manuscritos de Timbuktu foram salvos.

A operação teve apoio de governos e organizações estrangeiras, como os ministérios das Relações Exteriores da Holanda e da Alemanha e a Fundação Ford, dos Estados Unidos.

O resgate, porém, não resolveu todos os problemas. Em Bamako, os manuscritos ficaram guardados nos mesmos baús em que chegaram.

A mudança do clima seco do Norte para o clima úmido do Sul, somada às condições inadequadas de armazenamento, passou a ser uma nova ameaça à sobrevivência dos textos.

[LEAD] Paraguai
[LEAD] Paraguai