Documento aponta como o tráfico de pessoas e a lavagem de dinheiro se conectaram em uma engrenagem criminosa transnacional.

O golpe que chega pelo WhatsApp pode parecer simples. Uma mensagem falsa. Um pedido de Pix. Uma promessa de investimento. Um perfil sedutor que ganha a confiança da vítima até convencê-la a transferir dinheiro.
Mas o novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que, por trás de parte dessas fraudes, existe uma estrutura muito maior: tráfico de pessoas, trabalho forçado, organizações transnacionais e lavagem de dinheiro.
O tráfico humano já não aparece apenas associado à exploração sexual ou ao trabalho braçal em fazendas, garimpos e confecções clandestinas.
Em alguns casos, a vítima é atraída por uma falsa vaga de tecnologia e só descobre o golpe quando já está no exterior.
Segundo o Anuário, criminosos usam aplicativos de mensagens, como o Telegram, para divulgar falsas vagas de trabalho com promessa de altos rendimentos.
A pessoa acredita estar diante de uma oportunidade internacional. Quando chega ao destino, a realidade muda.
O documento cita o caso de dois brasileiros, de 26 e 31 anos, resgatados em 2025. Eles foram atraídos por ofertas de trabalho em tecnologia, viajaram para a Tailândia e depois foram levados ilegalmente para Mianmar.
Ao chegar, tiveram os passaportes confiscados e foram mantidos em complexos controlados por organizações criminosas.
Esses locais são conhecidos como scam centres, ou centros de golpes. Funcionam como cativeiros digitais. As vítimas são obrigadas a trabalhar em jornadas exaustivas, sob intimidação, violência e privação de liberdade.
O trabalho forçado consiste em aplicar golpes pela internet.
Uma das modalidades citadas pelo Anuário é o pig butchering, conhecido como “abate do porco”.
Nesse tipo de fraude, o criminoso cria uma identidade falsa, se aproxima da vítima final e constrói uma relação de confiança, muitas vezes amorosa.
Depois de se aproximar, induz a pessoa a fazer investimentos fraudulentos.
A vítima de um lado perde dinheiro. A vítima do outro lado está sendo explorada para aplicar o golpe.
É o chamado dupla camada de vitimização.
Pessoas traficadas e mantidas em regime de trabalho forçado são usadas para destruir financeiramente outras pessoas em diferentes países.
Esse ponto acompanha o avanço do estelionato no Brasil.
Em 2025, o país registrou 2.261.055 boletins de ocorrência por estelionato, o equivalente a 258 golpes por hora. Desde 2018, esse tipo de crime cresceu 429,8% e se consolidou como o principal crime patrimonial do país.
O dado mostra que a crise de segurança pública não está mais restrita à rua. Outro caso que chamou a atenção foi o de uma falsa delegacia da Polícia Federal encontrada no exterior.
Criminosos chegaram a montar uma réplica de uma unidade da PF para enganar brasileiros em videochamadas. A vítima acreditava estar falando com autoridades reais e era convencida a transferir dinheiro.
O Anuário também aponta que o dinheiro dessas redes circula por caminhos difíceis de rastrear. Fluxos de criptomoedas ligados a redes de tráfico humano cresceram 85% no último ano, chegando a centenas de milhões de dólares.
O resultado é uma criminalidade mais sofisticadal e mais difícil de combater.
O golpe digital, portanto, não é apenas um problema de educação financeira ou cuidado individual.
Em muitos casos, ele faz parte de uma cadeia internacional de exploração, lavagem de dinheiro e crime organizado.
Entender essa mudança é essencial para compreender o novo formato do crime no país.
É esse tipo de engrenagem que a Brasil Paralelo investiga em Entre Lobos, uma produção sobre as raízes da crise de segurança pública no Brasil e a forma como o crime se adapta, se organiza e avança sobre a vida cotidiana.
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