Mais da metade das facções do país estão na região que virou palco de disputas que ajudam a explicar a explosão de homicídios.

As dez cidades mais violentas do Brasil têm algo em comum: todas estão no Nordeste.
O dado chama atenção porque a região abriga 26,9% da população brasileira e concentrou 44,4% dos homicídios registrados no país no ano passado.
Ao olhar essa realidade, uma pergunta é inevitável: por que tantas mortes se concentram ali?
Uma parte da resposta está na disputa entre facções.
Segundo dados citados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Nordeste abriga 46 das 88 organizações criminosas ativas no Brasil. Isso representa mais de 52% das facções do país.
O número ajuda a explicar a diferença entre regiões dominadas por poucos grupos e áreas onde várias organizações disputam território ao mesmo tempo.
Em São Paulo, a a presença e domínio do PCC criou uma dinâmica diferente. A hegemonia de uma facção tende a reduzir a guerra aberta entre grupos rivais.
Áudios atribuídos a Marcola, líder histórico da facção paulista, interceptados pelo Ministério Público em 2011 e divulgados pela imprensa em 2013, ajudam a entender essa lógica.
Na gravação, ele diz que “hoje pra matar alguém é a maior burocracia”, em referência às regras internas impostas pela facção. Em seguida, reclama que os homicídios haviam caído e que o governo queria levar o crédito.
"Então quer dizer, os homicídios caíram não sei quantos por cento e aí eu vejo o governador chegar lá e falar que foi ele."
A fala não mostra um crime mais fraco. Mostra mais organização, capaz de decidir quando a violência deve aparecer e quando ela deve ser contida.
A região virou área de expansão de grupos nacionais, como PCC e Comando Vermelho, em choque com facções locais e dissidências. O resultado é uma disputa por bairros, presídios, portos, rodovias e rotas de tráfico internacional.
A Bahia e o Ceará aparecem no centro desse processo. Cidades como Simões Filho, Porto Seguro, Jequié, Maracanaú e Caucaia não são apenas pontos no ranking da violência.
Elas estão em áreas estratégicas para circulação de drogas, acesso a portos e controle territorial.
Quando várias facções disputam o mesmo espaço, o homicídio vira ferramenta de domínio.
Mata-se para conquistar território, retaliar rivais, impor medo e mostrar quem manda. No meio disso está a população.
Em algumas cidades nordestinas, moradores passaram a conviver com regras impostas por criminosos. Há relatos de expulsão de famílias de suas casas, proibição de roupas, símbolos e gestos associados a facções rivais.
Um exemplo disso é o distrito de Uiraponga, em Morada Nova, no Ceará, onde criminosos expulsaram famílias de suas casas e transformaram o local em uma espécie de cidade fantasma.
A fronteira entre a guerra do crime e vida comum parece desaparecer.
Uma camiseta, um bairro, uma foto ou um sinal feito sem intenção podem colocar alguém sob suspeita. A população passa a viver dentro de um mapa invisível, desenhado por facções que decidem onde se pode circular ou até que marca usar.
A queda de homicídios em algumas regiões não significa necessariamente que o crime perdeu força. Às vezes, significa apenas que uma facção venceu a disputa local e passou a controlar a violência.
No Nordeste, a fragmentação mostra o outro lado: quando muitos grupos brigam pelo mesmo território, o número de mortes e a violência aumenta.
A crise de segurança pública no Brasil não pode ser entendida apenas pela contagem de assassinatos.
É preciso olhar para quem controla os territórios, como as facções se expandem e por que determinadas regiões se tornaram estratégicas para o crime.
É essa engrenagem que a Brasil Paralelo investiga em Entre Lobos.
A produção mostra como o crime organizado cresceu, se adaptou e passou a disputar não apenas o tráfico, mas também territórios, instituições e a vida cotidiana dos brasileiros.
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