Segurança pública5 min de leitura

Por que as cidades mais violentas do Brasil estão todas no Nordeste?

Mais da metade das facções do país estão na região que virou palco de disputas que ajudam a explicar a explosão de homicídios.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Facções no nordeste
Fonte da imagem: Reprodução

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As dez cidades mais violentas do Brasil têm algo em comum: todas estão no Nordeste.

O dado chama atenção porque a região abriga 26,9% da população brasileira e concentrou 44,4% dos homicídios registrados no país no ano passado.

Ao olhar essa realidade, uma pergunta é inevitável: por que tantas mortes se concentram ali?

Uma parte da resposta está na disputa entre facções.

Segundo dados citados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Nordeste abriga 46 das 88 organizações criminosas ativas no Brasil. Isso representa mais de 52% das facções do país.

O número ajuda a explicar a diferença entre regiões dominadas por poucos grupos e áreas onde várias organizações disputam território ao mesmo tempo.

Quando o crime controla a violência

Em São Paulo, a a presença e domínio do PCC criou uma dinâmica diferente. A hegemonia de uma facção tende a reduzir a guerra aberta entre grupos rivais.

Áudios atribuídos a Marcola, líder histórico da facção paulista, interceptados pelo Ministério Público em 2011 e divulgados pela imprensa em 2013, ajudam a entender essa lógica.

Na gravação, ele diz que “hoje pra matar alguém é a maior burocracia”, em referência às regras internas impostas pela facção. Em seguida, reclama que os homicídios haviam caído e que o governo queria levar o crédito.

"Então quer dizer, os homicídios caíram não sei quantos por cento e aí eu vejo o governador chegar lá e falar que foi ele."

A fala não mostra um crime mais fraco. Mostra mais organização, capaz de decidir quando a violência deve aparecer e quando ela deve ser contida.

No Nordeste, o cenário é outro

A região virou área de expansão de grupos nacionais, como PCC e Comando Vermelho, em choque com facções locais e dissidências. O resultado é uma disputa por bairros, presídios, portos, rodovias e rotas de tráfico internacional.

A Bahia e o Ceará aparecem no centro desse processo. Cidades como Simões Filho, Porto Seguro, Jequié, Maracanaú e Caucaia não são apenas pontos no ranking da violência.

Elas estão em áreas estratégicas para circulação de drogas, acesso a portos e controle territorial.

Quando várias facções disputam o mesmo espaço, o homicídio vira ferramenta de domínio.

Mata-se para conquistar território, retaliar rivais, impor medo e mostrar quem manda. No meio disso está a população.

Em algumas cidades nordestinas, moradores passaram a conviver com regras impostas por criminosos. Há relatos de expulsão de famílias de suas casas, proibição de roupas, símbolos e gestos associados a facções rivais.

Um exemplo disso é o distrito de Uiraponga, em Morada Nova, no Ceará, onde criminosos expulsaram famílias de suas casas e transformaram o local em uma espécie de cidade fantasma.

A fronteira entre a guerra do crime e vida comum parece desaparecer.

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Facções ditam as regras

Uma camiseta, um bairro, uma foto ou um sinal feito sem intenção podem colocar alguém sob suspeita. A população passa a viver dentro de um mapa invisível, desenhado por facções que decidem onde se pode circular ou até que marca usar.

A queda de homicídios em algumas regiões não significa necessariamente que o crime perdeu força. Às vezes, significa apenas que uma facção venceu a disputa local e passou a controlar a violência.

No Nordeste, a fragmentação mostra o outro lado: quando muitos grupos brigam pelo mesmo território, o número de mortes e a violência aumenta.

A crise de segurança pública no Brasil não pode ser entendida apenas pela contagem de assassinatos.

É preciso olhar para quem controla os territórios, como as facções se expandem e por que determinadas regiões se tornaram estratégicas para o crime.

É essa engrenagem que a Brasil Paralelo investiga em Entre Lobos.

A produção mostra como o crime organizado cresceu, se adaptou e passou a disputar não apenas o tráfico, mas também territórios, instituições e a vida cotidiana dos brasileiros.

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