As origens: uma ideia nascida dentro das grades
Em 2 de outubro de 1992, aconteceu o massacre do Carandiru. Durante uma rebelião, 111 criminosos foram mortos pela polícia no pavilhão 9.
As imagens das celas ensanguentadas percorreram o mundo e deixaram uma ferida profunda no sistema prisional.
O ambiente fomentou o surgimento de uma nova organização. De acordo com Márcio Christino e Cláudio Tognolli, no livro Laços de Sangue:
“Depois da rebelião, o Estado abdicou do poder de controle do espaço público dentro do sistema prisional”.
Em 31 de agosto de 1993, no anexo da Casa de Custódia de Taubaté, oito presos fundaram o Primeiro Comando da Capital. Em Laços de Sangue, os autores descrevem que eles queriam dominar o sistema penitenciário.
“Na cabeça de todos eles, a mesma ideia: conseguir o domínio do sistema penitenciário”.
A partida de futebol que nunca aconteceu
O PCC começou com um time de futebol. A quadra para a partida que nunca aconteceu virou palco de um pacto de sangue.
Os oito fundadores foram:
- José Márcio Felício (Geleião;
- César Augusto Roriz (Cesinha);
- Mizael Aparecido da Silva (Miza);
- Wander Eduardo Ferreira (Du Cara Gorda);
- Ademar Santos (Da Fé);
- Antônio Carlos dos Santos (Bicho Feio);
- Isaías Moreira do Nascimento (Esquisito);
- José Epifânio Pereira (Zé Cachorro).
Durante uma partida, Geleião matou Baiano Severo, um dos líderes do presídio, quebrando-lhe o pescoço. O jornalista Claudio Tognolli descreveu o episódio como um “batismo de sangue”:
“José Márcio envolveu a cabeça do adversário com as duas enormes mãos e, como quem alisa uma bola, matou com um movimento só.”
A partir daquele dia, os oito assumiram o controle interno. Nenhum conflito acontecia sem o aval do grupo. O Piranhão se tornou o primeiro território do PCC.
“Geleião admitiu que, depois de ter matado os dois, o grupo se reuniu e decretou que era o momento de selar e fundar a organização: ‘agora nós vamos fundar’”.
O estatuto do PCC
Em 1997, Mizael Aparecido redigiu o primeiro estatuto oficial do PCC, com 16 artigos. O documento transformou o desejo de vingança em uma estrutura de poder.
O Artigo 13 dizia:
“Temos que permanecer unidos e organizados para evitar que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 2 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será esquecido na consciência da sociedade brasileira. Porque nós do Comando vamos sacudir o sistema e fazer essas autoridades mudarem a prática carcerária desumana, cheia de injustiça, opressão, tortura e massacres nas prisões”.
A retórica de justiça escondia um objetivo político: disciplinar a massa carcerária e centralizar o comando. O texto proibiu delações, estupros e traições. A punição era direta, o infrator seria “cortado do comando”, expressão que significava execução.
“Irmão não mata irmão. Irmão não explora irmão”. Em outro ponto continua: “Você não vai mais ser explorado. Se alguém mexer com você, vai mexer comigo”.
Influência da máfia italiana
Nos primeiros anos, dois italianos ajudaram a moldar o PCC. Bruno e Renato Torsi, ligados à Camorra, foram presos em São Paulo em 1990. No presídio, tornaram-se próximos de Mizael e apresentaram à facção práticas típicas da máfia napolitana:
- códigos de conduta e disciplina interna;
- cobrança de mensalidades;
- apoio a famílias de presos e assistência jurídica;
- reinvestimento e lavagem de dinheiro.
Após serem extraditados, mantiveram contato por cartas. Hoje, a facção mantém laços com a ’Ndrangheta, grupo italiano que domina o tráfico europeu de cocaína. De acordo com o pesquisador Alexandre Ribeiro:
“A convivência com os Torsi deu ao PCC um modelo mafioso de organização. De um grupo de revoltados, virou uma facção estruturada e financeiramente sustentável.”
1999: a rebelião que mudou tudo
Em 1999, uma rebelião na Casa de Custódia de Taubaté marcou o fim dos fundadores.
Da Fé e Bicho Feio foram mortos pelos próprios companheiros. Uma das cabeças foi arremessada sobre o muro um aviso de que o comando havia mudado.
Com essa ruptura, o PCC ganhava um novo líder: Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.
“Os novos chefes do ‘PCC moderno’ quebraram o maior paradigma de todos, a intocabilidade dos ‘fundadores’”, afirma Tognolli
Marcola e a profissionalização do crime
Marcola não participou da fundação, mas foi ele quem transformou o grupo em um sistema. Criou um modelo de comando dividido em “Sintonias”, responsável por cada área, finanças, logística, inteligência e comunicação.
O formato descentralizado permitiu que a organização continuasse operando mesmo com suas lideranças presas. Sob Marcola, o PCC deixou de ser uma revolta e passou a ser um projeto.
Preso desde 2002, Marcola segue sendo referência simbólica da estrutura criada dentro do sistema prisional.
Influência de Maurício Norambuena
Na prisão, Marcola conheceu Maurício Hernández Norambuena, o “Capitão Ramiro”, ex-integrante da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, grupo armado que combateu o regime de Pinochet no Chile.
Norambuena havia sido condenado à prisão perpétua por atentado e sequestro. Fugiu de helicóptero em 1996, foi preso no Brasil após o sequestro do publicitário Washington Olivetto e, em 2002, enviado ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) em Presidente Bernardes.
Ali, conheceu Marcola. Segundo o Ministério Público, o chileno compartilhou táticas de guerrilha e de organização em rede.
O PCC adotou uma estrutura mais autônoma, com células descentralizadas e estratégias simbólicas, como ataques coordenados fora do expediente, prática observada nos ataques de 2006.
Norambuena foi extraditado em 2019, após quase vinte anos preso no Brasil.
Como o PCC se organiza?
Com base em relatórios do Gaeco, o PCC funciona como um Estado clandestino, com divisão de funções e arrecadação estruturada:
- Sintonia Final (Cúpula): decide as diretrizes gerais;
- Sintonia Restrita: inteligência e contraespionagem;
- Sintonia Geral dos Presídios: controla comunicação e disciplina nas cadeias;
- Sintonia do Progresso: gerencia finanças e o caixa central;
- Sintonia dos Gravatas: advogados e contatos externos;
- Sintonia do Exterior: administra as rotas internacionais;
- Sintonia Final da Rua: coordena operações por região;
- Quadro dos 14: tribunal interno que julga e executa punições.
A estrutura é comparada por investigadores a um “organismo vivo”: quando um setor é atingido, outro se adapta.
“A essa Sintonia Final se submetem as outras ‘sintonias’, que funcionariam como departamentos”, afirma Christino.
O “sistema” e a “rua”
O PCC divide sua atuação em duas frentes: o sistema (as prisões) e a rua (operações externas).
Dentro das cadeias, controla a rotina dos detentos e mantém comunicação por “salves”, mensagens cifradas transmitidas por advogados, conhecidos como “Gravatas”.
Cada presídio envia relatórios semanais chamados “Resumo”, com informações sobre finanças, punições e ordens.
Fora das prisões, o grupo regula o tráfico e media disputas entre criminosos. O controle é sustentado por disciplina e uma burocracia eficiente.
Disciplina e moral da facção
A fidelidade ao comando é obrigatória. Traição ou delação resultam em execução. Em bairros periféricos, o PCC impõe regras de convivência: proíbe furtos locais, agressões a mulheres e crimes contra crianças.
Em muitas comunidades, moradores recorrem ao “tribunal do crime” para resolver conflitos.
Em Laços de Sangue, os autores afirmam:
“O PCC não é uma sociedade criminosa, mas uma sociedade formada por criminosos” e fico imaginando se alguém pode realmente pensar desse modo após ouvir as discussões de um Tribunal do Crime ou o planejamento de mortes sem fim”.
O PCC como movimento político-criminal
Mais que uma facção, o PCC construiu uma narrativa de resistência. Em mensagens interceptadas, líderes afirmam ser “a voz dos oprimidos”.
“Os oprimidos contra os opressores; enquanto não pararem as covardias e os maus-tratos nos sistemas penitenciários, não pararemos nossas ações sem limites”. Estamos fortes como nunca. Estamos nos fortalecendo mais com as opressões que eles botam em cima da gente. Pode aguardar, seu Nagashi. Assinado: 1533 PCC.”
A facção tornou-se uma forma de poder paralelo, capaz de julgar, punir e intermediar conflitos um sistema próprio de governança.
Onde o poder se concentra
O sistema penitenciário é o berço e o trono da facção. A Sintonia Geral dos Presídios coordena os “gerais de cadeia”, que funcionam como governadores locais. Nenhuma decisão ocorre sem aval do comando: fugas, transferências ou rebeliões.
Cada território tem um “geral da quebrada”, responsável por controlar o comércio de drogas, manter a ordem e enviar recursos ao caixa central, chamado de “Livro” ou “B.O.”.
Em troca, o PCC financia cestas básicas, festas de bairro e apoio a famílias de presos, reforçando laços de lealdade.