Segurança pública5 min de leitura

Mais policiais morreram por suicídio do que em confronto pelo terceiro ano seguido

Documento aponta que um policial brasileiro tem mais chance de morrer pelas próprias mãos do que pelas mãos de um criminoso.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Policiais militares
Fonte da imagem: Agência Pública

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Atenção: este texto aborda suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por dificuldades, encontrará ao fim indicações de onde buscar ajuda.

Em 2025, 110 policiais civis e militares tiraram a própria vida no Brasil. O número é 12,7% menor do que os 126 registrados em 2024, mas ainda supera com folga os 29 mortos em confronto durante o serviço no mesmo período.

Pelo terceiro ano consecutivo, o suicídio é a principal causa isolada de morte entre policiais no país.

No mesmo período, outros 59 agentes morreram fora de serviço. Os números deixam clara uma inversão preocupante: hoje, um policial brasileiro tem muito mais chance de morrer pelas próprias mãos do que em confronto durante o trabalho.

Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para o Fórum, a queda de quase 13% nos casos é uma notícia positiva, mas ainda há um problema no fundo: desde 2017, os suicídios de policiais no Brasil acumulam um crescimento de 37,8%. 

As duas curvas, suicídios e mortes em confronto, caminham em direções opostas há quase uma década.

São paulo é o principal foco de preocupação

A redução registrada no último ano esconde realidades institucionais bem diferentes. A queda nacional foi puxada quase inteiramente pela Polícia Militar, que registrou recuo de 107 para 89 suicídios. Já na Polícia Civil, os casos aumentaram, de 19 para 21.

Geograficamente, São Paulo é hoje o principal foco de preocupação: o estado registrou aumento de 76,5% nos suicídios, saltando de 17 vítimas em 2024 para 30 em 2025, um agravamento que atingiu tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil paulistas.

Minas Gerais (+40%) e Paraíba (+150%) também tiveram altas expressivas. Já Rio de Janeiro (-50%), Paraná (-57,1%) e Bahia (-40%) conseguiram reduzir essas mortes de forma significativa.

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O que está adoecendo os policiais?

O documento questiona o que está fazendo esses profissionais adoecerem e propõe três pontos:

  • A cultura do "policial herói", que exige suportar adversidades sem demonstrar fragilidade, faz com que muitos escondam sintomas de exaustão ou depressão por medo de represálias.

  • O desgaste estrutural, com exposição contínua ao perigo, endividamento, assédio moral e pressão por metas.

  • A disponibilidade permanente, já que o policial carrega a arma mesmo fora do expediente, o que dificulta separar o tempo de descanso do estado de alerta.

Há ainda um paradoxo relevante. A Organização Mundial da Saúde recomenda limitar o acesso a armas de fogo como medida de prevenção ao suicídio.

Mas, para o policial, a arma é parte da identidade profissional e, muitas vezes, também da renda extra. Afastá-lo dela pode significar afastá-lo da própria função.

O Anuário aponta ainda que o silêncio em torno do tema contribui para a subnotificação. As implicações no pagamento de seguros às famílias podem levar ao registro incorreto de suicídios como mortes por outras causas.

O governo federal criou o Escuta SUSP, programa de atendimento psicológico online voltado a servidores da segurança pública, mas a iniciativa ainda opera de forma limitada.

Em São Paulo, a Polícia Militar mantém o Sismen, sistema próprio de saúde mental com programas de prevenção e atendimento.

Para o Fórum, é urgente que o Estado pare de tratar o adoecimento mental como um "desvio individual" e passe a incorporar a saúde psicológica de forma contínua em seus processos de gestão, formação e avaliação das polícias.

Cuidar de quem protege a sociedade também é, segundo o documento, reconhecer a humanidade de quem exerce essa função.

Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento difícil, o CVV: Centro de Valorização da Vida oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas.

Por trás de cada operação, de cada solado nas ruas, existe uma realidade que os números da segurança pública raramente mostram por completo.

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