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Mundo•5 min de leitura

Entenda o escândalo por trás da renúncia do presidente do Paraguai

Santiago Peña já foi sócio do Banco Ueno, que foi liquidado em meio a investigações.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
•Publicado em
Santiago Peña ao lado da bandeira do Paraguai durante pronunciamento
Fonte da imagem: Reprodução

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Na tarde desta quinta-feira (5), o presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou em meio à pressão política causada pela queda do banco Ueno.

A instituição foi liquidada em meio a investigações sobre transferências fraudulentas e financiamentos cruzados.

O líder do país foi sócio do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025.

Além disso, indicou o presidente do grupo, Carlos Carvallo, para chefiar o Banco Central do Paraguai. Carvallo renunciou após o anúncio da liquidação do banco.

Apesar da medida, a Câmara dos Deputados do Paraguai não aceitou a renúncia por entender que se tratava de uma manobra política.

Segundo a lei paraguaia, os ex-presidentes se tornam senadores vitalícios, o que garante o foro privilegiado.

A única forma de perder o benefício é caso sofram um impeachment. O Congresso abriu um processo contra Santiago.

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O que aconteceu com o Ueno

Controlado pelo Grupo Vázquez, o Ueno cresceu rápido. Deixou de ser uma pequena fintech para virar um banco de médio porte, trajetória parecida com a do Nubank.

Era conhecido por ser o maior emissor de cartões de crédito do país, com quase 1,1 milhão de cartões.

Depois de ajustes nos balanços, o índice que mede sua capacidade de honrar compromissos caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei.

Com isso, o Banco Central decidiu por unanimidade iniciar a intervenção na segunda-feira (2).

Os interventores nomeados pela Superintendência de Bancos assumiram a gestão para verificar a situação do patrimônio e preservar os ativos.

“A medida busca atender sua situação de maneira ordenada, proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro”, explicou o Banco Central em um comunicado.

Horas antes do anúncio, o Ueno havia divulgado uma nota afirmando que não tinha recebido nenhuma notificação e que seguia operando normalmente:

“Rejeitamos a difusão de informações não verificadas que possam gerar alarme injustificado entre os depositantes e afetar a confiança no sistema financeiro”.

O suposto esquema

Já havia meses que o banco estava sob o escrutínio das autoridades financeiras do país.

Os órgãos reguladores investigavam se o Ueno havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa do próprio Grupo Vázquez.

Segundo a agência Bloomberg, as investigações do Ministério Público apontam que o Ueno fazia empréstimos para empresas de seus próprios donos e acionistas.

Além disso, também era investigado pela possibilidade de financiamentos cruzados entre as empresas do grupo.

Ao anunciar sua saída, Carvallo afirmou que as auditorias encontraram irregularidades graves e empréstimos ilegais a empresas dos donos do banco.

Os executivos presos

O Ministério Público abriu uma investigação criminal e ordenou a prisão de oito pessoas suspeitas de fraudes financeiras.

Segundo o jornal paraguaio ABC Color, os alvos ocupavam desde a presidência do banco até cargos de diretoria em empresas do Grupo Vázquez. Entre eles estão:

  • Juan Manuel Gustale Cardoni, presidente do Ueno Bank;

  • Federico Miguel Vázquez Villasanti, primeiro vice-presidente e fundador do banco;

  • Diana Leticia Mongelós González, segunda vice-presidente;

  • Miguel Ángel Almada Frutos, ligado à Ueno Seguros e ao Grupo Vázquez.

A lista inclui ainda outros atuais e ex-diretores, alguns com passagem pelo próprio Banco Central do Paraguai e por instituições financeiras internacionais.

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Clientes e aposentados sem acesso ao dinheiro

Com o aplicativo fora do ar, clientes foram às agências na terça-feira (3) e encontraram as portas fechadas, com escolta policial.

Entre eles estavam aposentados que recebem benefícios do governo através do banco.

O Fundo de Garantia de Depósitos, equivalente ao FGC brasileiro, cobre até 75 salários mínimos por cliente, cerca de R$ 208 mil.

Segundo o Banco Central, 97% dos clientes têm saldos dentro desse limite, que deve ser pago em até 15 dias úteis.

O problema maior é o dinheiro público. O Ueno administra cerca de R$ 4,6 bilhões em recursos do Estado, quase 30% de seus depósitos.

Só o instituto de previdência social, o IPS, tenta recuperar na Justiça aproximadamente R$ 2 bilhões.

O presidente do país anunciou um acordo com o Congresso para acelerar um projeto que permite usar o Fundo de Garantia para devolver os recursos públicos.

O escândalo atinge diretamente o governo de Santiago Peña

Carvallo presidiu o próprio Ueno até agosto de 2023, antes de ser nomeado por Peña para o Banco Central.

Parlamentares já criticavam a supervisão do banco e haviam pedido a demissão da cúpula do BC, depois de rejeitarem um relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto.

Na terça-feira (3), Peña pediu a renúncia de Carvallo. Ele vai continuar no cargo provisoriamente para conduzir a intervenção.

Segundo Carvallo, a saída ajuda a tirar o Banco Central das disputas políticas e da repercussão na imprensa.

Peña chegou a dizer que “este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”.

Ele também afirmou que os responsáveis “devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”.

Para acompanhar de perto o desenrolar da crise, o presidente cancelou uma viagem a uma cúpula na Espanha.

Nas ruas, manifestantes com cartazes pedindo “devolvam tudo” foram ao centro de Assunção e à residência oficial do presidente.

Um dos grupos exigiu a renúncia de Peña, e houve confrontos com as forças de segurança.

A crise também chegou ao partido do governo. Na segunda-feira (2), o vice-presidente Pedro Alliana suspendeu sua pré-candidatura à Presidência em 2028.

Disputando pelo Partido Colorado, ele alegou que não há projeto político possível sem antes arrumar a casa.

O caso ainda ameaça a reputação do Paraguai como destino para investimentos estrangeiros, grande parte deles vinda do Brasil.

A Brasil Paralelo investigou o motivo para pessoas e empresas nacionais estarem atravessando a Ponte da Amizade para se fixarem no país. Assista completo abaixo:

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