Apresentador do Brasão de Armas afirma que o filme falha ao representar Homero, Odisseu e a cultura grega.

A nova adaptação de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan, virou alvo de uma crítica dura no canal Brasão de Armas.
Em vídeo publicado no YouTube, Thiago Braga afirmou que o filme é “a pior adaptação de uma obra” que ele já viu do ponto de vista histórico e cultural.
E para ele, o problema está na forma como o longa altera elementos centrais da obra de Homero.
Sua crítica começa lembrando que Nolan tem liberdade para fazer o filme que quiser. O limite, segundo ele, aparece quando o diretor decide usar o nome de uma obra que atravessou quase três mil anos.
“Ele escolheu contar uma história que não é dele”.
Para o apresentador, não se trata de uma franquia moderna que pode ser reorganizada como quiser. É uma das bases da literatura ocidental.
Por isso, mudanças profundas na lógica da obra não seriam apenas “liberdade artística”, mas uma descaracterização da tradição grega.
Um dos primeiros pontos criticados é a escolha de Lupita Nyong’o para interpretar Helena de Troia.

Braga afirma que a escalação não dialoga com o ideal de beleza feminino dos gregos antigos, no qual a pele clara era associada a status, aristocracia e divindade.
Para Braga, Nolan pode escalar quem quiser. O problema é tratar a escolha como se ela tivesse respaldo na história e na cultura grega.
A crítica fica mais forte quando Braga fala sobre Odisseu. Para ele, o filme erra ao sugerir uma postura de confronto com os deuses.
Na obra de Homero, o herói não é um rebelde contra o Olimpo. Ele teme e respeita os deuses para voltar para casa.
Atena o guia. Hermes o ajuda. Poseidon o persegue. Toda a jornada acontece dentro dessa relação entre homens e divindades.
“Sem esse relacionamento entre Odisseu e os deuses, a Odisseia simplesmente não existe”.
Braga também critica a redução do peso das divindades no filme. Segundo ele, Nolan manteve monstros como ciclopes, Sila e Caríbdis, mas esvaziou a presença dos deuses, que são parte essencial da narrativa.
Para o apresentador, trata-se de um filme que até usa episódios conhecidos da obra, mas perde o eixo simbólico e cultural que dá sentido à viagem de Odisseu.
“Dizer que ele desafiaria os deuses é ir contra o conceito fundamental da história”.
O apresentador também mira algumas das passagens mais famosas da obra. Na ilha dos ciclopes, Braga diz que Homero constrói uma cena de terror psicológico.
Odisseu sobrevive justamente por sua astúcia, ao dizer ao monstro que seu nome era “Ninguém”.
Para ele, o filme não chega perto da angústia do original.
Na passagem dos lestrigões, a crítica é parecida. Em Homero, a cena representa uma das maiores perdas da jornada: 11 dos 12 navios da frota são destruídos.
Braga afirma que o filme não transmite a dimensão traumática desse episódio e critica a representação dos lestrigões com armaduras medievais.

As escolhas visuais também foram atacadas. Uma delas é o uso de navios que, segundo ele, parecem vikings em plena Grécia antiga.
“Quem constrói a droga de um navio viking consegue construir a droga de um navio grego”.

Apesar disso, nem tudo foi rejeitado. Braga elogiou a reconstrução do Palácio de Odisseu e disse que, nessa cena, Nolan finalmente “fez cinema”.
Para ele, o cenário conseguiu dialogar com os palácios micênicos e com a paisagem de Ítaca.
A conclusão do vídeo é que a adaptação falha justamente no que deveria preservar. Segundo Braga, o filme não faz o público sentir a Grécia, nem se conectar com os gregos ou com a cultura que produziu a obra.
“Nolan não tem quase nada da Odisseia de Homero”.
Como cinema, o apresentador admite que o longa pode funcionar para quem não conhece a obra original. Mas esse não é o ponto central da crítica.
O veredito principal é histórico e cultural: para Thiago Braga, a Odisseia de Nolan é uma das piores adaptações já feitas para o cinema.
A Odisseia atravessou quase três mil anos porque não é apenas uma história de monstros, navios e batalhas. É uma das grandes obras que moldaram a imaginação do Ocidente.
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