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Helena de Troia era negra? Debate cresce na internet após lançamento de A Odisseia

De vasos gregos a bustos romanos, entenda a discussão por trás do debate sobre um dos livros mais importantes da humanidade.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Helena de Troia
Fonte da imagem: Divulgação

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A atriz Lupita Nyong'o deu vida a Helena de Troia no novo filme de Christopher Nolan. Quando foi anunciada, a notícia gerou uma onda de debates nas redes sociais, reunindo historiadores e criadores de conteúdo.

Isso gerou uma sequência de vídeos e respostas, com destaque para a troca entre Paolo Bendinelli e Thiago Braga, historiador do canal Brasão de Armas, além de publicações de outros criadores, como Odir Fontoura.

O que mostra a iconografia antiga?

Ao longo de mais de dois milênios, representações de Helena de Troia em vasos gregos e afrescos romanos tendem a seguir um padrão recorrente: pele clara e traços associados aos gregos.

Braga citou exemplos que vão de vasos do século 6 a.C. até afrescos recém-descobertos em Pompeia, do primeiro século.

Representações de Helena de Troia

Ao mesmo tempo, os gregos antigos também deixaram registros de pessoas negras, os chamados etíopes na terminologia da época, com traços físicos claramente diferenciados.

Um exemplo citado nos vídeos é um cântaro do século 5 a.C., hoje no Museu do Vaticano, que retrata lado a lado um herói grego e uma figura de traços africanos. Isso mostra que os artistas da época eram capazes de diferenciar visualmente os dois grupos.

Vaso Grego

O que diz o texto original?

O centro da disputa está em um termo específico usado por Homero no canto III da ilíada para se referir à Helena:

leukṓlenos, formado por leukós (que pode significar branco, brilhante ou luminoso) e olénē (antebraço), geralmente traduzido como "de braços brancos".

Bendinelli defendeu que o termo funcionava como marcador de status social e não de etnia: mulheres da elite ficavam mais tempo em casa, longe do sol, o que preservava a pele clara como sinal de nobreza.

Ele ainda apontou um trecho do canto XVI em que a deusa Atena deixa Odisseu com a pele mais escura para que ele pareça mais divino diante do filho, Telêmaco, o que, segundo Bendinelli, contradiria a ideia de que a brancura seria sempre sinônimo de status positivo no texto homérico.

Autores falaram de uma mulher de cabelos claros

Braga rebateu citando outras fontes clássicas: um fragmento da poetisa Safo, do século 6 a.C., que descreve Helena como loira; e um trecho da peça "Helena", de Eurípides, que também menciona cabelos claros associados à personagem.

Ele também citou a autora Grace Dew, para quem a associação entre brancura e beleza feminina era uma "estratégia retórica comum" entre os gregos antigos, funcionando como forma de hierarquia estética distinta do conceito moderno de raça.

Vale destacar que Homero não descreve fisicamente Helena em profundidade, um ponto que ambos os criadores reconhecem, mas interpretam de formas opostas.

Bendinelli argumenta que essa ausência de detalhes seria proposital, citando o pesquisador Spencer McDaniel, para quem os poemas homéricos deixam a aparência de Helena em aberto para que cada leitor imagine seu próprio ideal de beleza.

Braga contesta essa leitura, afirmando que a iconografia da época já preenchia essa lacuna visualmente, tornando desnecessária uma descrição textual detalhada.

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Gregos de pele mais escura

Braga também citou o caso do filósofo Zenão de Cítio, descrito pelo biógrafo grego Diógenes Laércio como "magro, bastante alto e moreno".

Segundo Braga, esse relato mostra que existiam gregos étnicos de pele mais escura, ainda que a maior parte da iconografia represente Helena especificamente com traços claros.

Outro ponto levantado nos vídeos envolve Andrômeda, personagem da mitologia grega descrita como filha de reis etíopes.

Segundo Braga, ela costuma aparecer com traços gregos na maior parte da arte antiga. Ele usa esse exemplo como argumento de que os artistas gregos tendiam a adaptar até personagens de origem africana aos próprios padrões estéticos.

Helena já foi representada por uma atriz negra

O debate atual também não é inédito. Em 1996, a série "Xena: A Princesa Guerreira" já havia escalado a atriz Galyn Görg para interpretar Helena de Troia em um episódio, decisão que não gerou repercussão comparável à atual.

De um lado, argumenta-se que a escolha de Nyong'o vai contra um padrão que aparece em obras de arte gregas e romanas há milênios. Do outro lado, argumenta-se que o termo grego original é ambíguo e que Homero nunca descreveu Helena em detalhes.

Por isso, diferentes representações da personagem sempre foram aceitas ao longo da história, incluindo variações de cor de cabelo e de traços físicos.

O debate segue enquanto a estreia do novo filme bate recordes de bilheteria.

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