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Homero existiu de verdade? O mistério por trás do autor da Ilíada e da Odisseia

Historiadores nunca encontraram provas físicas da existência do poeta grego, o que deu origem à chamada “Questão Homérica”.

Por
Redação Brasil Paralelo
Publicado em
Homero
Fonte da imagem: Museu britânico, Londres

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Espadas de bronze, heróis lutando por honra e um rei tentando voltar para casa após dez anos de guerra: essas são algumas das imagens que compõem a Ilíada e a Odisseia, dois dos textos mais influentes da literatura ocidental.

Ambos são atribuídos a Homero, descrito pela tradição como um poeta cego que teria vivido na Grécia Antiga. Mas a certeza sobre quem foi, ou se de fato existiu, é bem menor do que sugere sua fama.

De acordo com estimativas dos historiadores, Homero teria vivido entre os séculos oito e sete antes de Cristo. Já a Guerra de Troia, pano de fundo da Ilíada, é situada pela arqueologia por volta do século doze antes de Cristo.

Isso significa que os poemas teriam sido compostos mais de quatrocentos anos depois dos acontecimentos que narram.

O problema para os pesquisadores é a ausência quase total de evidências físicas sobre o autor.

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Homero realmente existiu?

Não há consenso sobre a data de nascimento nem sobre a cidade natal do poeta: Esmirna, Atenas, Rodes e a ilha de Quios aparecem na tradição antiga como possíveis origens, mas nenhuma dessas versões tem comprovação histórica.

Até a imagem mais conhecida de Homero, a de um poeta cego, vem de textos escritos depois de sua suposta existência, como o Hino Homérico a Apolo, que menciona um cantor cego natural de Quios.

Diante desse vácuo de registros, parte da academia levanta uma hipótese mais radical: a de que Homero, como pessoa individual, talvez nunca tenha existido.

Nessa leitura, o nome funcionaria como uma espécie de "assinatura" para uma tradição coletiva de cantores que, ao longo de gerações, foram dando forma às histórias que já circulavam na região.

Essa disputa em torno da identidade do poeta e da autoria dos poemas é conhecida na academia como Questão Homérica.

Um autor ou muitos?

A discussão ganhou força no fim do século dezoito, quando o filólogo alemão Friedrich August Wolf publicou o livro Prolegomena ad Homerum.

Nele, Wolf defendeu que a Ilíada e a Odisseia não seriam obra de um único autor, mas o resultado da junção de cantos mais antigos, corrigidos e ampliados ao longo do tempo.

Seus seguidores ficaram conhecidos como analistas, corrente que predominou no meio acadêmico europeu ao longo do século dezenove.

Do lado oposto estavam os unitaristas, que defendiam a existência de um criador único, apontando a unidade da narrativa e a conexão entre os personagens como sinais de um plano artístico traçado por uma só pessoa.

Essa foi a posição sustentada, por exemplo, pelo estudioso americano John A. Scott.

O rumo do debate mudou no século vinte, com as pesquisas dos americanos Milman Parry e Albert Lord. A partir do fim da década de 1920, Parry passou a estudar a estrutura métrica dos poemas homéricos e o uso de expressões fixas para nomear heróis e deuses.

Para entender melhor esse fenômeno, ele e Lord foram a campo observar cantores de uma tradição oral ainda viva na Iugoslávia, comparável em vários aspectos à poesia grega arcaica.

O que os dois pesquisadores documentaram mudou a forma de entender os poemas: os cantores não decoravam os versos palavra por palavra.

Eles compunham durante a própria apresentação, apoiados em um repertório de fórmulas, definidas por Parry como grupos de palavras usados de forma regular, na mesma posição métrica, para expressar uma ideia.

Expressões como "divino Odisseu" ou "Aquiles de pés velozes" funcionavam como peças de encaixe dentro do verso.

A partir dessa descoberta, as repetições que antes eram vistas pelos analistas como falhas de composição passaram a ser entendidas como a própria base técnica da poesia oral.

O texto não nascia fixo no papel: era uma canção recomposta a cada apresentação, de acordo com o público e o cantor. Essa leitura, conhecida como teoria oral, tornou-se a principal abordagem para o estudo dos poemas homéricos, ainda que nunca tenha sido unanimidade entre os pesquisadores.

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Da tradição oral ao livro que conhecemos hoje

Se a poesia era falada e mutável, resta entender como ela chegou até os dias de hoje em forma de texto escrito.

Para o pesquisador Gregory Nagy, a fixação da Ilíada e da Odisseia foi um processo que se estendeu por séculos, não um evento único. A tradição foi se tornando progressivamente menos fluida e mais estável ao longo do tempo.

A tradição antiga associa Atenas a esse processo de estabilização, mas os relatos sobre como isso aconteceu não coincidem entre si.

Há diferentes versões sobre como os poemas de Homero passaram a fazer parte das Panateneias, o principal festival de Atenas.

Uma delas atribui a decisão a Hiparco, filho de Pisístrato. Outra, transmitida por Diógenes Laércio, diz que a iniciativa teria partido de Pisístrato ou de Sólon.

Os próprios historiadores tratam essas narrativas com cautela, entendendo-as mais como parte da construção da imagem desses governantes do que como registros confiáveis sobre a história do texto.

O que se sabe com mais segurança é o papel central que os poemas ocuparam na formação das elites gregas.

No Banquete, de Xenofonte, um personagem ateniense conta que o pai o obrigou a decorar a Ilíada e a Odisseia inteiras para que se tornasse "um homem de valor", evidência de que ler Homero fazia parte da educação da elite ateniense já no século cinco antes de Cristo.

O formato dos textos que chegou até a atualidade também passou pelo trabalho dos bibliotecários da Biblioteca de Alexandria, entre os séculos três e dois antes de Cristo.

Estudiosos como Zenódoto, Aristófanes de Bizâncio e, principalmente, Aristarco revisaram os versos, removeram os acréscimos posteriores e provavelmente foram responsáveis por dividir cada poema em vinte e quatro cantos, um para cada letra do alfabeto grego.

Um nome maior que o homem

No fim, a pergunta sobre quem realmente foi Homero talvez não tenha uma resposta simples.

A ausência de registros biográficos, a disputa entre autor único e tradição coletiva, a descoberta de que os versos eram compostos ao vivo durante a apresentação e os séculos que a tradição levou para se fixar no papel apontam para uma mesma conclusão: existindo ou não como pessoa de fato, Homero se tornou o nome dado à Ilíada e à Odisseia, os dois poemas que estão na origem da literatura ocidental.

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