Pré-escolas católicas podem perder financiamento por causa de visão sobre LGBTs
Para serem incluídas no programa, escolas da Igreja precisariam se abrir para famílias homossexuais e “crianças trans”.

O financiamento público às pré-escolas católicas nos Estados Unidos está em jogo em um processo que chega nesta terça-feira (3) à Suprema Corte.
A disputa gira em torno das regras para o acesso a recursos do programa educacional do Colorado, que obrigava as escolas a aceitar troca de sexo em crianças e famílias LGBT.
Em 2020, os eleitores do Colorado aprovaram um programa universal de pré-escola. O estado paga pelo menos 15 horas semanais de aula gratuita para todas as crianças de 4 anos.
As famílias podem escolher entre escolas públicas e particulares. O estado convidou as escolas religiosas a participar, e dezenas delas aderiram.
Em troca, as escolas precisam cumprir padrões de qualidade e garantir “igualdade de oportunidade” de matrícula.
Elas não podem recusar crianças por questões como raça, religião, orientação sexual ou ideologia de gênero nas crianças ou nos pais.
Em 2023, a arquidiocese orientou suas pré-escolas a não participar, já que a Igreja não reconhece relações entre pessoas do mesmo sexo nem a transição de gênero.
Segundo a arquidiocese, matricular filhos de pais gays ou trans “provavelmente levaria a conflitos sem solução”.
O experimento com crianças conduzido por um dos primeiros nomes nos estudos de gênero é o tema do primeiro filme internacional da Brasil Paralelo, O Menino Que Se Chamava Brenda. Assista ao trailer completo abaixo:
As famílias católicas
O processo foi aberto pela arquidiocese, por duas paróquias e pelo casal Dan e Lisa Sheley, que têm sete filhos e querem educá-los na fé católica em casa e na escola.
Segundo o casal, a política do estado já os fez perder pelo menos US$ 18 mil em ajuda para as mensalidades.
Lisa contou ao The New York Times que votou no programa acreditando que ele seria para todos:
“Não é universal, porque estamos sendo discriminados e impedidos de participar”.
O arcebispo de Denver afirmou que as matrículas nas pré-escolas católicas caíram 20% e que duas unidades fecharam.
Isso porque os pais transferiram os filhos para escolas financiadas pelo estado. A arquidiocese administra 34 pré-escolas.
Os argumentos da Igreja
As escolas são defendidas pelo Becket Fund for Religious Liberty, organização jurídica de defesa da liberdade religiosa. O caso também tem o apoio do governo Trump.
O argumento central é que o governo não pode exigir que alguém abandone suas crenças para receber um benefício público. O advogado Nick Reaves resume:
“As escolas católicas queriam fazer parte, e o Colorado queria que elas fizessem parte, mas, na hora da verdade, não podíamos abrir mão daquilo em que acreditamos”.
Para o presidente do Becket, Mark Rienzi, o estado só aceita e beneficia crenças compatíveis com sua visão de mundo:
“As crenças religiosas que se encaixam com o governo do Colorado são aceitáveis, e esses pais podem ser reembolsados, mas os outros não”.
As escolas também afirmam que a regra não é aplicada igualmente, já que outras pré-escolas podem dar preferência a famílias de baixa renda, a crianças com deficiência, a irmãos de alunos ou a filhos de funcionários.
Reaves diz ainda que o prejuízo às famílias LGBT é hipotético, porque o Colorado não apontou nenhuma família contrária aos ensinamentos da Igreja que quisesse matricular o filho em uma escola católica.
Vinte e um estados, liderados pela Virgínia Ocidental, estão apoiando as escolas católicas nesse caso.
Para eles, regras antidiscriminação podem virar “armas” contra grupos religiosos com crenças impopulares sobre casamento e sexualidade.
O caminho até a Suprema Corte
As escolas perderam nas duas instâncias anteriores. Em 2024, um juiz federal afirmou que os estados não podem se recusar a financiar escolas religiosas, mas “não são obrigados a subsidiar a discriminação com o dinheiro do contribuinte”.
Em 2025, um tribunal de apelação confirmou a decisão por unanimidade, com base em um precedente de 1990 da própria Suprema Corte, o caso Employment Division v. Smith.
Segundo ele, leis que valem para todos e não miram a religião normalmente não violam a liberdade religiosa.
Esse precedente é criticado por muitos cristãos conservadores, e três juízes da Suprema Corte já defenderam derrubá-lo.
As escolas se apoiaram em outra decisão, no caso Carson v. Makin, que aconteceu em 2022.
No caso, a Corte decidiu que estados que financiam escolas particulares não podem excluir as religiosas.
Para os tribunais inferiores, porém, essa regra só vale quando a exclusão é explicitamente por motivo religioso.









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