Disputa motivada por mensagens que mostram a relação de Vorcaro e Moraes está abalando a República.

No primeiro dia de setembro, o Brasil começou a testemunhar uma crise entre os ministros do STF.
A situação começou após André Mendonça autorizar a divulgação de mensagens que apontam para uma relação próxima entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
As mensagens são fruto das investigações sobre o Banco Master. Em novembro de 2025, a PF apreendeu o celular de Vorcaro na Operação Compliance Zero.
A partir desse aparelho, os agentes produziram um relatório de 218 páginas a pedido do ministro André Mendonça, foi esse o documento divulgado por ordem de Mendonça.
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Inicialmente, havia mensagens escritas por Vorcaro no aplicativo Notas, mas não se sabia quem as recebia.
A PF cruzou prints, horários e registros do WhatsApp e concluiu que elas eram enviadas a um número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
O contato havia sido repassado a Vorcaro pelo ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Faria em dezembro de 2023.
Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro afirmou ter recebido informações confidenciais sobre movimentos contra o Master e escreveu a Moraes:
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem.”
A PF aponta que os nomes podem se referir ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao PGR, Paulo Gonet.
As mensagens também mostram que dias antes de ser preso, Vorcaro voltou a procurar Moraes:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.”
A mensagem mostra que o banqueiro acreditava que o ministro poderia ajudá-lo junto às duas autoridades.
Em outra mensagem enviada a Moraes, Vorcaro chegou a ser ainda mais direto sobre o caso:
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra… Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível.”
As mensagens também revelam a proximidade que Vorcaro atribuía à relação com Moraes. Em uma delas, escreveu:
“Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você.”
O relatório ainda registra encontros entre os dois e a participação de Moraes na organização de eventos ligados a Vorcaro em Londres.
Como ministros do Supremo possuem foro por prerrogativa de função, uma eventual investigação contra Alexandre de Moraes precisaria ser aprovada pelo próprio STF.
Mendonça anunciou no dia que as mensagens foram publicadas que pretende levar o caso para discussão no Plenário da Corte, para que os ministros possam autorizar a investigação.
O presidente Edson Fachin declarou que encaminhará o caso para ser debatido entre os membros do tribunal.
Já, o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório e afirmou que Mendonça abusou do poder:
“Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais. Não lhe é dado valer-se da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas”.
Questionado por jornalistas sobre o conteúdo das mensagens, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), evitou comentar.
Uma repórter chegou a perguntar se ele achava o conteúdo das mensagens “republicano”, ao que ele respondeu apenas falando que "eu não achei nada, não devo achar nada".
Ele também destacou a quantidade de pedidos de afastamento de ministros do STF que estão em tramitação:
"A minha percepção é que tem 109 pedidos, isso não é normal. São 109 solicitações no Congresso, dos dez ministros do Supremo, de pedido de impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal."
Segundo o portal Metrópoles, nos bastidores, Alcolumbre tem dado sinais de que não pautará o impeachment.
No dia seguinte, 3 de setembro, Alcolumbre chegou a mandar um recado para a oposição, equiparando a relação de Moraes com Vorcaro às acusações contra Flávio Bolsonaro:
"Apenas um comentário, no momento adequado eu vou falar, todo mundo esqueceu que pediram R$130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes".
Na noite do dia 3 de setembro, Moraes fez um pedido para que seu colega de corte seja incluído no Inquérito das Fake News:
“Há, portanto, a presença de fortes indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade pelo Ministro André Mendonça, no exercício da relatoria das PETs 15041 (Operação Sem Desconto) e 15556 (Operação Compliance Zero)”, está escrito na decisão.
O Inquérito 4781 foi iniciado como resposta a supostas denúncias caluniosas, notícias falsas e ameaças a membros da Suprema Corte.
Como relator, Moraes conduziu a investigação em cima da tese de que existia um grupo organizado em fazer ataques virtuais, propagar fake news e promover ameaças ao STF.
Esse grupo foi denominado de “Gabinete do Ódio” e estaria ligado ao presidente Jair Bolsonaro, que foi incluído no inquérito após suas declarações a respeito das urnas eletrônicas.
Para entender mais sobre a instabilidade política no Brasil, assista ao documentário original da Brasil Paralelo, "A Crise dos Três Poderes". Confira os 10 primeiros minutos da produção abaixo:
Na manhã do dia seguinte, 4 de setembro, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, retirou o pedido de Alexandre de Moraes para investigar André Mendonça do âmbito do inquérito das Fake News.
Com isso, o caso deverá ser tratado dentro dos mesmos procedimentos abertos após a divulgação de mensagens que ligam o ministro a Daniel Vorcaro, divulgadas por Mendonça.
Fachin é um crítico da permanência do inquérito no STF, as investigações foram abertas por Toffoli em 2019 e seguem ativas.
O ministro chegou a fazer uma declaração pedindo o fechamento do inquérito poucas horas depois.
“Os acontecimentos recentes demonstram o acerto e a urgência de três metas de nossa gestão: a adoção de um código de ética, o fim do inquérito das Fake News e a modernização do sistema de Justiça”.
Ainda na noite do dia 3 de setembro, Mendonça pediu a Fachin, o afastamento cautelar de Moraes.
Ele pretende formalizar o pedido em uma petição, reforçando a necessidade de investigar a relação entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
O presidente do STF deu cinco dias para que os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além do PGR Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, diretor da PF, se manifestem.
Em um caso com tremendo impacto político como esse, os olhos do país se voltaram para o posicionamento dos candidatos à presidência sobre a situação.
O presidente da República foi o que mais demorou para se posicionar entre os principais nomes na disputa pelo Planalto.
Lula manteve o silêncio sobre a divulgação das mensagens por dois dias, em que passou avaliando os impactos eleitorais da situação com aliados.
O presidente recebeu Gilmar Mendes para conversar sobre a situação no Palácio do Planalto ainda na tarde do dia três de setembro.
Após esse tempo de discussões, Lula soltou um vídeo para falar sobre o caso, no qual não mencionou o nome de Alexandre de Moraes.
No vídeo, o presidente também destaca que Vorcaro foi punido e perdeu o banco durante sua gestão.
Apesar da fala, as investigações da Polícia Federal têm encontrado evidências de que Vorcaro tinha fortes relações com a alta cúpula do PT.
Um dos principais investigados pelo caso é o senador Jaques Wagner (PT-BA), que chegou a ser intimado a depor no caso.
O portal Metrópoles já havia dito que o parlamentar foi responsável por intermediar negócios milionários entre o Banco Master e pessoas ligadas ao PT, como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski.
O principal oponente de Lula segundo as pesquisas, Flávio Bolsonaro, falou sobre o caso em uma coletiva de imprensa na Expointer, feira agropecuária:
"No meu ponto de vista, na minha opinião, cometeu diversos crimes. É inadmissível, com o que veio à tona, ele continuar sendo ministro do Supremo", comentou o presidenciável.
Além disso, o candidato também seguiu listando uma série de irregularidades que teriam sido comprovados pelas mensagens:
"Alguém que está comprovado que editou o próprio contrato de educação da sua esposa. Alguém que recebeu o limite de crédito... Seus filhos receberam R$ 300 mil de crédito nos cartões do Banco Master dado pelo Vorcaro. Alguém que claramente usava a sua caneta para fazer uma espécie de proteção ao Vorcaro. Então, a gente não pode mais admitir que uma laranja podre contamine todas as laranjas, e nós temos que fazer uma defesa intransigente do Supremo Tribunal Federal. E, para que o Supremo resgate a sua credibilidade, o Moraes tem que sair".
Ronaldo Caiado, que está na disputa pelo PSD, disse que Moraes deveria renunciar de sua posição em entrevista para o Estadão:
"Para você estar naquela condição de ministro do Supremo, qualquer posição que coloque em xeque, em dúvida, o comportamento dele [...] ele mesmo deveria fazer o seu próprio afastamento, ele mesmo renunciar àquela função, ao cargo".
Para o presidenciável, a renúncia de ministros ajudaria a reduzir a tensão entre poderes e garantiria a estabilidade do país:
"Se amanhã alguém vem, diante de uma decisão dele, o cidadão diz: 'Não, mas ele não está capaz para me julgar, ele não tem essas credenciais para me julgar', aí você coloca em risco esta ordem democrática que você tem no país".
Além disso, afirmou que Moraes não tem as condições básicas para ocupar seu cargo e deve deixá-lo o mais rápido possível:
"Quando sobre aquela pessoa [ministro do STF] recaem tantas suspeitas, denúncias, quanto essas que vieram à tona, ele não tem mais as condições mínimas necessárias para poder estar ali respondendo pelo cargo. Isso é independente de quem quer que seja".
Ronaldo Caiado foi um dos candidatos sabatinados pela Brasil Paralelo. Clique aqui para assistir à entrevista completa.
O candidato do partido Missão não só fez declarações contra o ministro, como também entrou com um pedido de impeachment contra ele e Dias Toffoli.
A solicitação encaminhada para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) afirma que o ministro está envolvido em “crime de responsabilidade” e fala em “fatos extremamente graves”.
No dia em que as mensagens foram divulgadas, Renan organizou um ato contra Moraes e Toffoli na Avenida Paulista e em diferentes cidades do país.
Toffoli havia suspendido suas contas nas redes sociais, alegando irregularidades na campanha digital.
Além disso, em entrevista para o ao Brado Jornal, o candidato disse que não cumprirá as decisões de Moraes caso eleito:
“Decisão ilegal não se cumpre. Decisões que saiam do Alexandre de Moraes não devem ser reconhecidas pelo Estado brasileiro. Enquanto esse cara não for derrubado, as decisões não são reconhecidas pelo Estado brasileiro.”
Renan também declarou que vai agir ativamente para tentar pressionar o Senado a seguir com o processo de impeachment do ministro:
“Eu já tinha falado em várias entrevistas que o meu foco inicial era: deixar o Senado ir para cima do STF… Para mim tá muito claro que não dá para iniciar guerra nenhuma sem ir para cima do STF”.
Renan Santos foi um dos candidatos sabatinados pela Brasil Paralelo. Clique aqui para assistir à entrevista completa.
Conhecido por seu jeito pacificador, Augusto Cury (Avante) foi outro que se posicionou sobre as mensagens.
O candidato disse que Moraes precisa apresentar explicações para a população e sofrer as punições se realmente cometeu crime:
“Alexandre de Moraes deve provar que não deve e, se deve, tem que se ir até às últimas consequências”.
Cury seguiu dizendo que os pagadores de impostos são os “patrões” de todos os funcionários públicos.
Além disso, ele afirmou que gostaria de indicar duas mulheres para serem ministras da Suprema Corte, o próximo presidente indicará quatro candidatos.
Como proposta para evitar outros casos semelhantes, o médico defendeu uma reforma no formato atual do STF, reduzindo o tempo de cargo, por exemplo.
Augusto Cury foi um dos sabatinados pela Brasil Paralelo. Clique aqui para assistir à entrevista completa.
Durante entrevista para a Jovem Pan, Romeu Zema (NOVO) aproveitou o momento para elogiar André Mendonça:
"Estamos vivendo uma crise de credibilidade do Supremo. E lembrando que lá tem ministros bons. Vou citar aqui o André Mendonça, que, na minha opinião, é um exemplo de postura".
Zema também afirmou que o STF se transformou em um “balcão de negócios” e defendeu que os ministros podem deixar o cargo se quiserem enriquecer:
"Se alguém quer ficar milionário, nada contra, mas vá abrir um escritório de advocacia e preste serviços - e não fique como um consultor jurídico, como nós vimos antes de ontem, como ele [Moraes] estava para o maior bandido banqueiro da história, que é o senhor Daniel Vorcaro, dando consultoria, um ministro do Supremo".
Além disso, o candidato prometeu que se eleito vai acabar com as decisões monocráticas e escolherá ministros acima de 60 anos, que terão menos tempo de casa.
Romeu Zema foi outro candidato entrevistado pela Brasil Paralelo. Clique aqui para ver a sabatina.
“A maior fraude bancária na história do Brasil”, foi assim que Fernando Haddad classificou o caso do Banco Master.
Agora, policiais e jornalistas estão revelando que o Vorcaro mantinha uma ampla rede de contatos com alguns dos nomes mais poderosos do Brasil.
Entenda o caso a fundo com o especial da Brasil Paralelo, Raio-X Banco Master, com a apresentação de Caio Coppola.
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