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Cultura5 min de leitura

Karl Marx era antissemita? A polêmica por trás de "Sobre a Questão Judaica"

Em um ensaio pouco conhecido do grande público, o pai do comunismo associou o judaísmo ao dinheiro e ao comércio.

Por
Caio Minucci
Publicado em
Karl Marx era antissemita? Entenda a obra "A Questão Judaica"
Fonte da imagem: Reprodução

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"Qual é o culto secular do judeu? O negócio. Qual é o seu Deus secular? O dinheiro." A frase parece algo que Hitler diria, mas foi escrita por Karl Marx.

Ela faz parte do ensaio Sobre a Questão Judaica, publicado em 1844. Em uma de suas obras menos discutidas pelo grande público, o filósofo que fundamentou o comunismo construiu uma associação direta entre o judaísmo e o sistema capitalista.

No mesmo texto, Marx afirma que "o dinheiro é o Deus zeloso de Israel, diante do qual não pode subsistir nenhum outro" e que "a nacionalidade quimérica do judeu é a nacionalidade do mercador, do homem do dinheiro de modo geral".

Diante do peso histórico dessas palavras, surge a dúvida: teria sido Karl Marx um antissemita declarado?

E, se o texto é tão explícito, por que esse debate parece ser evitado?

https://youtu.be/TJFOvLQTMEk

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Quem foi Karl Marx?

Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818, na cidade de Tréveris, que pertencia ao Reino da Prússia, atual Alemanha. Ele vinha de uma família de classe média de origem judaica.

Na época, a Prússia impunha muitas restrições aos judeus, que eram proibidos de ocupar cargos públicos e de exercer profissões jurídicas.

Para contornar essas barreiras legais e manter a carreira de advogado, o pai de Marx, Heinrich, converteu-se ao cristianismo antes do nascimento do filho.

O jovem Karl foi batizado na igreja evangélica aos seis anos de idade e cresceu afastado das práticas religiosas do judaísmo.

Mais tarde, Marx se tornaria um dos pensadores mais influentes da história contemporânea. Sua obra fundamentou revoluções, inspirou a formação de nações e moldou o debate político, econômico e social do século XX.

Nas universidades, nos palanques e na militância de esquerda, a imagem de Marx costuma ser associada à defesa dos oprimidos, à luta pela igualdade e à emancipação das minorias. O marxismo moderno se apresenta como a vanguarda na defesa dos direitos humanos contra a exploração.

No entanto, o estudo aprofundado da obra de Marx revela contradições que raramente ganham os holofotes.

Quando um texto dele entra em choque direto com as bandeiras de tolerância levantadas por seus seguidores, o debate costuma ser silenciado ou relativizado. O ensaio Sobre a Questão Judaica é um exemplo claro disso.

O livro esquecido de Marx

Para entender o texto, é preciso voltar à Europa da década de 1840. A Alemanha vivia sob um regime político autoritário, no qual o Estado mantinha fortes laços com a religião cristã.

A imprensa era controlada por leis de censura rígidas, o que forçou pensadores como Marx a se exilarem em lugares como Paris.

Nesse período, a chamada "questão judaica" era o grande debate intelectual: os judeus reivindicavam direitos civis e políticos iguais aos dos cristãos.

O filósofo Bruno Bauer, contemporâneo de Marx, publicou um ensaio argumentando que, para se emancipar politicamente, os judeus teriam que renunciar à sua religião.

Bauer defendia um Estado totalmente laico e exigia que todos os cidadãos abandonassem suas crenças para que o Estado racional pudesse se estabelecer.

Marx escreveu Sobre a Questão Judaica em 1843, como uma resposta direta a Bauer. Ele argumentou que a emancipação política não exigia a renúncia à religião e usou como prova os Estados Unidos, um país de Estado laico onde a população continuava profundamente religiosa.

O problema surge na segunda parte do texto. Ali, Marx propõe abandonar a análise teológica para observar o que chamou de "judeu do cotidiano", ou "judeu real".

A partir desse ponto, ele cria uma equivalência direta entre o judaísmo e o capitalismo comercial. Marx descreve a nacionalidade do judeu como a "nacionalidade do mercador" e afirma que a essência do judaísmo havia se secularizado e se tornado o espírito que impulsionava a sociedade burguesa.

Ao final do raciocínio, Marx conclui que a humanidade só seria livre quando alcançasse a verdadeira "emancipação humana", o que envolvia emancipar a própria sociedade do "judaísmo prático", ou seja, do comércio e da dominação do dinheiro.

Com isso, o texto relaciona diretamente o judaísmo a uma figura capitalista selvagem e caricatural.

Marx era antissemita?

A associação direta entre o povo judeu e a exploração financeira dividiu a intelectualidade e gerou debates intensos ao longo dos anos.

Entre os críticos que apontam um preconceito claro no texto está o filósofo Robert Misrahi. Ele classifica o ensaio de Marx como antissemita e argumenta que o texto se alinhou a outras forças da época para estigmatizar a comunidade judaica. Para Misrahi, a obra carrega paralelos com o pensamento pré-nazista.

O sociólogo Raymond Aron foi direto: para ele, tratava-se do texto mais antissemita de Marx.

Isaiah Berlin, autor da biografia Karl Marx: His Life and Environment, publicada em 1939, viu no ensaio uma sucessão de clichês antissemitas. Berlin atribuía isso ao desconforto de Marx com a própria origem judaica e aos problemas que sua família enfrentou por causa dela.

Do outro lado, o filósofo Daniel Bensaïd argumenta que a palavra e o conceito moderno de "antissemitismo" só surgiram no fim da década de 1870, ligados ao racismo biológico e colonial, realidades muito distantes do contexto de 1843.

Os defensores de Marx afirmam que ele usou o termo "judaísmo" não como um ataque étnico, racial ou religioso com vistas ao extermínio, mas como uma metáfora filosófica para criticar a sociedade burguesa, a religiosidade moderna e o sistema financeiro.

Ainda assim, a associação de uma identidade religiosa e étnica à exploração capitalista serviu para alimentar estereótipos populares que dariam origem a diversos movimentos que definiriam o século XX.

Direto à fonte

No fim, a pergunta sobre se Marx foi ou não antissemita continua sendo uma polêmica entre historiadores.

A origem judaica do autor, o contexto político da Prússia, a equivalência entre judaísmo e comércio feita no ensaio e o reaparecimento desse tipo de associação no debate atual apontam para uma mesma conclusão: para não ser refém das narrativas que tentam reescrever ou ocultar a história, é preciso ir direto à fonte.

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