Victor Sales assina a curadoria literária da coleção infantil do Clubinho BP
Iniciativa da Brasil Paralelo apresenta livros exclusivos para crianças. A primeira coleção, Pindorama, conta a história do Brasil em uma experiência de leitura entre pais e filhos.

O Clubinho do Livro Brasil Paralelo tem um novo curador literário: Victor Sales Pinheiro, professor, filósofo e autor de diversas obras.
Ele assume uma missão importante no Clubinho: ajudar a escolher histórias que despertem o interesse das crianças e contribuam para sua formação cultural.
Seu trabalho envolve avaliar a linguagem, o conteúdo, a qualidade das narrativas e a adequação de cada obra ao público infantil.
Afinal, um bom livro precisa conquistar a atenção da criança, mas também pode apresentar novas palavras, despertar perguntas e abrir espaço para conversas com os pais.
É esse cuidado que Victor traz à curadoria do Clubinho, para que cada leitura seja uma oportunidade de descoberta e aprendizado em família.
Em entrevista à Brasil Paralelo, Victor Sales Pinheiro falou sobre a importância dessas escolhas e suas expectativas como novo curador literário do Clubinho.
Confira a entrevista e conheça o olhar de quem vai ajudar a escolher as próximas histórias do Clubinho do Livro.
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1. O que você sentiu ao receber o convite para participar do projeto do Clubinho do Livro e o que espera dele?
“Recebi com muita alegria e me senti muito honrado com o convite para ser curador literário do Clubinho BP, porque esse projeto reúne três das minhas grandes paixões: a educação dos filhos, as biografias de grandes personagens e a história, especialmente a história do Brasil.
Desde o nascimento da minha primeira filha, e hoje como pai de cinco filhos, tenho me dedicado à educação deles, que considero uma das principais responsabilidades da paternidade: formar pessoas boas, honestas e virtuosas.
Toda a minha preocupação filosófica com a educação das virtudes, no campo da ética, da política e do direito, tornou-se palpável na educação dos meus próprios filhos. Afinal, como diz Jesus no Evangelho: “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8,36). De que adianta ser um bom professor e ajudar outras pessoas a cultivar as virtudes se eu não conseguir educar os meus próprios filhos?
Minha segunda grande paixão é pelas biografias dos heróis, das pessoas virtuosas que nos mostraram caminhos de honradez e nobreza moral.
A terceira é a história, particularmente a história do nosso país, tantas vezes maltratada, desvalorizada e até escorraçada da nossa consciência cultural.
Por isso, unir a educação dos filhos, as grandes biografias e a história do Brasil em uma coleção literária infantil é algo fascinante. Espero que esse projeto ajude muitas famílias a descobrir a riqueza da nossa tradição histórica e moral”.
2. Qual é a importância de escolher bons livros para as crianças?
“A educação moral passa necessariamente pela formação do imaginário. As crianças aprendem a reconhecer o bem e o mal não primeiramente por conceitos abstratos, mas pelas histórias e pelos personagens com os quais se identificam.
Os contos de fadas, as fábulas, os mitos e a própria Sagrada Escritura participam dessa formação do imaginário moral da criança.
Os bons livros apresentam virtudes morais, de maneira implícita ou explícita, para que as crianças se habituem a valorizar o que é bom juntamente com o que é belo.
A criança é particularmente sensível às imagens, aos personagens e às narrativas que possuem um conteúdo moral. É por isso que os grandes contos de fadas, que a Disney popularizou no cinema, continuam fazendo tanto sentido: Cinderela, Branca de Neve, A Bela e a Fera, entre tantos outros.
Essas histórias não são apenas entretenimento. Elas ajudam a criança a formar suas primeiras disposições afetivas diante do bem e do mal, da beleza e da feiura moral, da coragem e da covardia, da generosidade e do egoísmo”.
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3. Muitos pais querem participar mais da formação dos filhos, mas sentem que a rotina não deixa espaço. O que dez ou quinze minutos de leitura juntos podem representar dentro de
“O ótimo não pode ser inimigo do bom. E deixar de fazer alguma coisa é pior do que fazê-la de maneira imperfeita.
É claro que dez ou quinze minutos por dia são pouco tempo, mas já representam alguma coisa. O importante é que sejam momentos de intimidade, carinho, afeto e verdadeira convivência.
A leitura compartilhada cria uma memória afetiva, favorece o diálogo e permite que os pais acompanhem as reações e a compreensão dos filhos. Também contribui para a formação intelectual, para o desenvolvimento da linguagem, para a familiaridade com a dicção e a cadência das palavras e para o próprio aprendizado da leitura.
Mas há algo ainda mais importante: a voz do pai, a voz da mãe, a maneira particular de contar cada história e as perguntas que surgem durante a leitura.
Nunca é apenas uma história. A criança não permanece calada, como um espectador no cinema. Ela pergunta, se dispersa, sobe no colo do pai, começa a brincar. E tudo isso faz parte da experiência.
Esses são alguns dos momentos mais deliciosos e sagrados do meu dia.
Eu leio todas as noites para os meus filhos, sem exceção. Às vezes, estou tão cansado, tão exausto, que acabo dormindo durante a leitura. E, ao tentar fazê-los dormir, sou eu mesmo que acabo sendo feito dormir por eles!
São experiências que valem muito a pena, tanto pela formação moral e intelectual quanto pela intimidade afetiva que cultivamos em família”.
4. Que lembranças uma criança pode carregar de um pai ou de uma mãe que lia para ela com frequência?
“Sobretudo, uma memória afetiva da descoberta de certos valores e virtudes na companhia do pai e da mãe.
A criança se lembrará de que seus pais foram seus primeiros educadores, os protagonistas daquela formação inicial do imaginário, da sensibilidade e da inteligência.
Além disso, quando mais tarde encontrar essas mesmas histórias na escola, estudadas de maneira historiográfica, com outros conceitos e métodos, poderá reconhecer os personagens e acontecimentos que já conhecia da infância.
O conhecimento histórico encontrará, assim, uma memória afetiva anterior. A história que ela aprenderá nos livros escolares já terá personagens, imagens, vozes e lembranças familiares”.
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5. Quando uma criança faz perguntas no meio da história, o que esse momento revela sobre a forma como ela está pensando? E como os pais podem aproveitar essas perguntas para ensinar?
“As perguntas revelam o interesse da criança e são uma oportunidade extraordinária de diálogo.
A leitura entre pais e filhos não precisa ser uma simples leitura em voz alta. Na verdade, ela se aproxima muito da contação de histórias. O pai não precisa ficar preso a cada palavra do texto. Pode conversar, explicar, perguntar, voltar a uma passagem e explorar as imagens.
Aliás, a qualidade gráfica é um diferencial importante da nossa proposta. As ilustrações precisam ser bonitas, atraentes, simples e harmônicas, para que possamos nos demorar com nossos filhos na contemplação das imagens.
Desse modo, educamos também o gosto estético das crianças.
As perguntas permitem perceber como elas estão compreendendo a história e quais personagens despertam sua simpatia.
Se uma criança começa a gostar mais do lobo mau do que da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, podemos conversar sobre o comportamento dos personagens. Se não demonstra compaixão pelo sofrimento de pessoas escravizadas, podemos ajudá-la a compreender aquela injustiça.
A sensibilidade moral também precisa ser educada. Quando a criança ainda não manifesta espontaneamente determinada empatia, os pais podem ajudá-la a desenvolvê-la.
É assim que a leitura se transforma em uma verdadeira conversa sobre a vida”.
6. Como a história do Brasil pode se tornar uma experiência afetiva para uma criança, e não apenas um conjunto de nomes e datas que ela encontrará na escola?
“A história não é apenas a história de movimentos econômicos ou de grandes massas políticas. É também a história de pessoas concretas que exerceram liderança no Exército, no Estado, na economia e, sobretudo, que procuraram governar moralmente suas próprias vidas.
Quando apresentamos a história por meio das biografias de homens e mulheres relevantes em seu tempo, ela adquire uma dimensão pessoal e interpessoal.
É exatamente isso que procuramos oferecer na Coleção Pindorama: histórias de personagens que participaram da formação do Brasil e que, em diferentes circunstâncias, demonstraram coragem, fibra moral, iniciativa e outras virtudes.Coleção Pindorama — Entrevista
A criança passa a conhecer a história de seu país por meio de pessoas concretas, com suas escolhas, dificuldades e realizações.
Assim, a história deixa de ser apenas uma sucessão de datas e acontecimentos e passa a integrar a imaginação e a memória afetiva da criança”.
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7. Palavras como “fortaleza”, “expedição”, “imperador” ou “independência” não fazem parte da conversa cotidiana de uma criança. Por que não devemos necessariamente fugir delas?
“Porque precisamos introduzir as crianças, progressivamente, nos grandes temas da vida.
Fortaleza, por exemplo, é uma palavra que pode designar tanto uma virtude moral quanto uma construção destinada à proteção.
Expedição remete a uma aventura, como as grandes viagens e explorações que encontramos na história do Brasil.
Imperador é uma figura política que nos permite começar a compreender determinadas formas históricas de governo.
Independência nos remete à ruptura política com o país que anteriormente nos colonizava.
Tudo isso faz parte da realidade histórica e humana.
Não precisamos aprofundar esses conceitos no nível filosófico, político ou psicológico que seria próprio de um adulto. Devemos apresentá-los de acordo com a capacidade de compreensão da criança.
Mas não devemos empobrecer artificialmente seu vocabulário nem subestimar sua inteligência.
Ao contrário, essas palavras podem abrir portas para novos interesses e preparar a criança para compreender, no futuro, fenômenos cada vez mais complexos”.
8. Que tipo de conversa você gostaria de imaginar acontecendo na casa de uma família depois de um livro de Pindorama?
“Imagino uma conversa leve, agradável, divertida e, ao mesmo tempo, enriquecida por um conteúdo histórico e moral.
Gostaria que as crianças conversassem com seus pais sobre os personagens, suas aventuras, suas escolhas e suas virtudes.
Quando mais tarde encontrarem essas histórias na escola, contadas sob outra perspectiva e com outra metodologia, terão a lembrança de personagens que participaram da formação do nosso país.
Isso contribui para fortalecer nosso sentimento de pertença a uma tradição histórica e a uma comunidade moral de matriz cristã, que devemos conhecer e honrar.Coleção Pindorama — Entrevista
Afinal, ninguém nasce em um corredor escuro do tempo. Todos nós nascemos inseridos em uma história, recebemos uma herança cultural e moral.
Cabe a cada geração honrar esse passado, corrigir os erros de seus antecessores e perpetuar aquilo que eles fizeram de bom.
É esse sentido de continuidade histórica, de gratidão e de responsabilidade que gostaria de ver despertado nas famílias pela leitura da Coleção Pindorama”.
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9. O que você diria para um pai que pensa: “meu filho não gosta de ler”?
“Eu diria que é muito difícil uma criança não gostar de histórias quando é bem introduzida à boa literatura.
A criança possui uma capacidade natural extraordinária de imaginar, criar, inventar e pensar. As histórias mobilizam e potencializam essa capacidade.
Muitas vezes, o problema não é que a criança não goste de ler, mas que ainda não tenha sido devidamente introduzida e iniciada na boa literatura.
É como dizer que uma criança não gosta de comer. Ela precisa desenvolver o apetite, conhecer os alimentos e aprender a apreciá-los. E tanto melhor se esse aprendizado acontecer com alimentos bons.
Algo semelhante ocorre com a literatura. É preciso formar o gosto, cultivar o hábito e oferecer boas histórias.
O primeiro passo pode ser simplesmente sentar ao lado do filho, abrir um livro bonito e começar a contar uma história.
O gosto pela leitura também se educa”.
10. Se essa experiência funcionar como imaginamos, o que você espera que uma criança leve consigo depois de crescer com o Clubinho por alguns anos?
“Espero, em primeiro lugar, que ela leve consigo muito carinho, muitas lembranças e uma memória afetiva da convivência com seus pais, daqueles momentos em que descobriram juntos as grandes histórias do nosso país.
Em segundo lugar, espero que desenvolva uma visão positiva, mas não ingênua, dos heróis da nossa história. Não podemos esquecer que não existem personagens históricos perfeitos. Nem mesmo os santos, embora canonizados, foram pessoas sem defeitos.
Mas houve, e continua havendo, homens e mulheres que lutaram por um Brasil melhor, por uma nação mais justa e mais honesta, procurando cultivar as virtudes em suas próprias vidas.Coleção Pindorama — Entrevista
E espero, principalmente, que essas crianças também queiram ser virtuosas. Que desejem ser pessoas melhores, que aprendam a servir, que desenvolvam o senso do dever e da responsabilidade pelo seu país.
Afinal, não queremos apenas que nossos filhos conheçam os grandes personagens da nossa história. Queremos que eles próprios se tornem pessoas capazes de contribuir para a construção de um Brasil melhor”.
Conheça o Clubinho do Livro da Brasil Paralelo
A proposta é ajudar a transformar a leitura em um momento esperado pela criança e compartilhado com os pais.
Com histórias, atividades e aventuras como as da coleção Pindorama, o livro pode continuar presente mesmo depois da última página.
Porque criar um leitor não precisa começar com grandes metas.
Pode começar com uma história curta hoje e com a vontade de abrir outro livro amanhã.
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