Descoberta também reforça a memória dele como um importante acadêmico.

Conhecido por obras como O Senhor dos Anéis e O Hobbit, J.R.R. Tolkien é considerado um dos maiores autores de fantasia da história.
Agora uma equipe de pesquisadores de Oxford descobriu uma nova obra dele que havia sido perdida.
O texto permaneceu esquecido por décadas nos arquivos da Biblioteca Bodleiana e só foi encontrado por acaso durante uma pesquisa sobre a carreira acadêmica do escritor.
A descoberta aconteceu quando o pesquisador Andoni Cossio, professor da Universidade do País Basco, examinava documentos para escrever um capítulo do Oxford Handbook of J.R.R. Tolkien.
Ao lado do pesquisador Nelson Goering, da Universidade de Oslo, ele procurava materiais sobre a atuação acadêmica do autor quando encontrou um datiloscrito de dez páginas.
Cada folha continha correções feitas à mão pelo próprio Tolkien. No alto da primeira página aparecia o título Soul's Ward em sua caligrafia.
Os manuscritos de Tolkien costumam estar fragmentados e repletos de revisões, mas esse texto estava organizado, com pequenas correções cuidadosamente distribuídas pelas páginas.
O documento permaneceu perdido por décadas porque havia sido catalogado junto de outros papéis, distante do local onde pesquisadores procuram obras desse tipo.
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A tradução recebeu o título de Soul's Ward ("A Guarda da Alma") e é uma versão em inglês moderno da homilia medieval Sawles Warde, escrita no início do século XIII.
A obra faz parte do chamado Grupo de Katherine, um conjunto de escritos religiosos preservados justamente na Biblioteca Bodleiana.
Originalmente, tratava-se de uma adaptação de um texto latino voltado para anacoretas e freiras enclausuradas.
O texto apresenta uma alegoria sobre a luta espiritual. Nele, o corpo é descrito como uma casa onde a alma permanece protegida enquanto enfrenta o ataque constante dos vícios.
A Razão aparece como o senhor da casa enquanto a Vontade é representada como sua esposa.
Os cinco sentidos ocupam o papel de criados, enquanto as quatro virtudes cardeais surgem como filhas da família, elas são:
prudência;
justiça;
fortaleza;
temperança.
O achado mostra que Tolkien estudou e traduziu alegorias por anos, embora não as usasse em sua própria literatura de ficção.
Antes de conquistar milhões de leitores com a Terra-média, Tolkien já era reconhecido como um dos principais especialistas em língua e literatura medievais do século XX.
Sua principal área de pesquisa era um dialeto do início do inglês médio, conhecido como língua AB.
Em um estudo publicado em 1929, ele defendeu que essa variedade linguística representava uma forma literária relativamente padronizada nas Midlands Ocidentais durante o século XIII.
Foi nessa mesma região da Inglaterra que Tolkien cresceu. Muitos pesquisadores apontam que suas paisagens ajudaram a inspirar cenários que mais tarde apareceriam na Terra-média.
Além de seus romances, Tolkien também produziu traduções de importantes obras medievais, como Beowulf e Sir Gawain e o Cavaleiro Verde.
Os pesquisadores acreditam que Soul's Ward foi traduzido entre 1955 e 1956, justamente quando O Senhor dos Anéis começou a transformar Tolkien em um escritor conhecido.
Enquanto seus livros chegavam às livrarias, ele dedicava parte do tempo livre à tradução de uma homilia escrita mais de setecentos anos antes.
O fato de a tradução nunca ter sido publicada não significa que Tolkien a considerasse sem importância.
Pelo contrário. Ele costumava publicar apenas uma pequena parte do que escrevia. Muitos de seus trabalhos acadêmicos permaneceram escondidos durante sua vida.
O caminho percorrido pelo manuscrito ajuda a explicar por que ele permaneceu esquecido.
Na década de 1950, Tolkien enviou uma cópia da tradução para Thomas Patrick Dunning, padre, medievalista e seu ex-aluno, que era especialista nesse tipo de texto religioso. Não há registros de que Dunning tenha comentado a tradução.
Após sua morte, em 1973, o documento permaneceu guardado em uma gaveta da University College Dublin.
Somente em 1983, durante uma reorganização da sala, o professor Alan Bliss encontrou um envelope identificado com a inscrição Tolkien, Soul's Ward.
Ele entrou em contato com Christopher Tolkien, filho e executor literário do escritor, que afirmou nunca ter ouvido falar daquela tradução.
Em uma nota escrita em 1985, Christopher registrou que o datiloscrito parecia ter sido produzido pelo pai na década de 1950.
Agora, mais de meio século depois da morte de Tolkien, a tradução foi finalmente publicada em edição crítica pelos pesquisadores Andoni Cossio e Nelson Goering na revista científica The Review of English Studies, da Oxford University Press.
Além de escrever fantasia, Tolkien tentou resgatar valores cristãos que pareciam perdidos no século XX através de suas obras.
Por esse motivo, ele é um dos principais nomes da guerra cultural travada em um dos momentos mais violentos da história.
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