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História
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min de leitura

Quem foi Yukio Mishima? Escritor que tentou dar um golpe de Estado no Japão para restaurar o Imperador

Nomeado ao Nobel da literatura, o escritor defendia um Japão imperial, pelo qual chegou ao ponto de se matar

Por
Redação Brasil Paralelo
Publicado em
28/11/2025 19:23
Getty Images

Yukio Mishima foi um dos maiores escritores do Japão e morreu de forma chocante: após uma tentativa fracassada de golpe de Estado para restaurar o poder do imperador, cometeu seppuku, o suicídio ritualístico tradicional japonês, em 1970. 

Por trás desse ato extremo estava sua convicção de que o Japão pós-guerra havia perdido a própria identidade. Para ele, a constituição pacifista, a influência ocidental e o abandono das tradições imperiais haviam transformado a nação em algo “rico, mas vazio”.

Assim como buscava enfrentar a “americanização” do Japão, Mishima buscou reagir ao crescimento do terrorismo comunista no país. Foi essa percepção que o levou a criar uma milícia privada, vestir o papel de “samurai contemporâneo” e usar a própria vida como testemunho. 

O que você vai encontrar neste artigo?

Como foi a infância do Yukio Mishima?

Yukio Mishima nasceu com o nome de Kimitake Hiraoka em Tóquio em 1925, e teve uma infância tímida que o levou aos livros onde heróis morriam sacrificados.

Aos 16 anos, Hiraoka publicou o conto A Floresta em Plena Floração, e temendo uma reação do pai, escolheu o apelido que iria imortalizá-lo. Nos anos seguintes, Mishima dividiria sua vida em dois personagens: um tímido estudante de uma escola aristocrática do Japão, e um escritor obsessivo.

Durante a Segunda Guerra, Mishima foi convocado para o Exército imperial, mas foi dispensado após ser considerado inapto. Este evento deixou um ressentimento no coração do Mishima pois “não pôde morrer pelo imperador”. 

Depois da guerra, formou-se em Direito pela Universidade de Tóquio, trabalhou brevemente no Ministério das Finanças e logo abandonou a carreira pública para viver apenas de literatura.

A obsessão pela beleza da morte

Mishima conquistou fama internacional cedo, combinando intensidade psicológica e temas como desejo, solidão e máscaras sociais. Seus livros expunham conflitos internos de forma inédita na literatura do Japão pós-guerra.

Ele via a beleza como algo inseparável da destruição. Em obras como Confissões de uma Máscara e O Templo do Pavilhão Dourado, explorou a ideia de que o auge do belo está no instante em que é destruído. Para ele, pessoas e coisas precisavam morrer para alcançar o supra sumo da beleza.

O que Yukio Mishima defendia?

Durante sua evolução literária na década de 60, uma mudança aconteceu no Mishima graças aos seus estudos da Grécia clássica. Após isso, começou praticar artes marciais e culturismo. Para ele, era uma necessidade vital encarnar sua própria filosofia. 

Mishima passou a ver o Japão moderno como uma nação ocidentalizada e distante de sua história imperial. Para ele, a administração dos EUA no Japão trouxe um pacifismo e um materialismo que destruíram o que ele chamava de “espírito samurai”.

Essa percepção o levou a defender a restauração simbólica dos valores tradicionais, enxergando no imperador o centro da identidade japonesa. A política, para Mishima, era um combate cultural antes de ser um projeto concreto.

A Sociedade dos Escudos, a milícia privada de Mishima

Em 1968, criou a Sociedade do Escudo (Tatenokai em japonês), uma pequena milícia cívica formada por jovens admiradores dele. O grupo treinava em bases militares e encenava a disciplina samurai. Para a Sociedade, Mishima escreveu um manifesto em que declarava que:

  1. O comunismo é incompatível com as tradições, a cultura e a história japonesas, e é contrário ao sistema imperial.
  2. O imperador é o único símbolo de nossa comunidade histórica e cultural e de nossa identidade.
  3. Tendo em vista a ameaça representada pelo comunismo, o uso da violência é justificável.

O anticomunismo da milícia respondia a uma tensão real no país. Na década de 70,  o terrorismo comunista no Japão também cresceu com organizações como a Facção do Exército Vermelho e o Exército Vermelho do Japão.

Estes grupos participaram do massacre num aeroporto de Israel em 1964, em 2 sequestros de aviões da Japan Airlines.

A evolução do Mishima de escritor para o líder de uma milícia nacionalista, fez com que Mishima levasse em 1968 suas reflexões ao papel no ensaio autobiográfico Sol e Aço.

No livro, ele descreve como a musculação, as artes marciais e a disciplina física eram, para ele, caminhos para romper com a vida puramente intelectual e alcançar uma forma concreta de autenticidade.

O “Incidente Mishima”, um golpe de Estado para restaurar o Imperador

Em 1969, Mishima daria sua última entrevista com o jornalista Takashi Furubayashi. Nela, o chefe da Tatenokai disse pelo menos seis vezes que está se preparando para algo gigante. 

Mishima confessa a Furubayashi que “envelhecer lentamente, é uma agonia, é dilacerar o próprio corpo. Tudo isso me levou a pensar que, como artista, preciso tomar uma decisão”.

Por isso, ele e sua milícia executam um plano definitivo. Em 25 de novembro de 1970, Yukio Mishima e quatro membros da Sociedade invadiram o quartel da região de Ichigaya em Tóquio.

Fizeram reféns o comandante e os soldados, e exigiram que os soldados se reunissem no pátio para ouvir um discurso conclamando-os a derrubar a constituição pacifista e restaurar o poder do imperador.

Os militares não obedeceram e vaiaram o Mishima no meio de seu discurso. De volta ao gabinete, Mishima decidiu fazer o seppuku, o suicídio ritualístico dos samurais, em que a pessoa se eviscera a si mesma. 

Na tradição do seppuku, o samurai precisa ser decapitado por outra pessoa. No caso do Mishima, ele escolheu o seu discípulo e, segundo algumas fontes, seu amante, para fazer a parte final do ritual.

As últimas palavras de Mishima, contudo, não foram as que os soldados vaiaram. Parte do ritual seppuku é escrever um poema de morte. Após fracassar na rebelião dos soldados, Mishima escreveu:

“Venta a tormenta,
Que antecipar o cair
Do mundo e também do humano
Que tanto temem partir
É a essência da flor”.

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