Achado mostra que famílias romanas ricas davam aos filhos mortos uma despedida reservada à elite do império.

Arqueólogos encontraram um dos pigmentos mais valiosos do mundo antigo. O material foi localizado em túmulos de bebês enterrados há cerca de 1.700 anos.
Pesquisadores da Universidade de York, na Inglaterra, identificaram vestígios da chamada púrpura de Tiro, ou púrpura tíria, em tecidos que envolviam os corpos de duas crianças da época romana.
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No Império Romano, estava ligada à elite, à aristocracia e aos imperadores. Em alguns períodos, podia custar até três vezes mais do que o ouro.
Por isso, a descoberta chamou atenção. Os bebês foram enterrados na York romana, entre o fim do século 3 e o início do século 4.
Um deles estava em um caixão de pedra, ao lado de dois adultos. O outro recebeu um enterro individual em um caixão de chumbo, o que, para os pesquisadores, indica uma posição social ainda mais elevada.
Os corpos foram cobertos por uma mistura de gesso líquido, usada em alguns rituais funerários romanos. Com o tempo, esse material endureceu e preservou marcas dos tecidos, resíduos dos corantes e detalhes invisíveis a olho nu.
Foi nesses vestígios que os cientistas encontraram a assinatura da púrpura de Tiro.
O pigmento era produzido a partir de moluscos marinhos do gênero murex. O processo era caro e trabalhoso. Milhares de conchas precisavam ser esmagadas para produzir pequenas quantidades de corante.
O nome vem da cidade de Tiro, antiga metrópole fenícia localizada no atual Líbano, que se tornou um dos principais centros de produção da púrpura.
No livro de Atos dos Apóstolos, Lídia é apresentada como vendedora de tecidos de púrpura na cidade de Tiatira.
No Evangelho de Marcos, soldados romanos colocam um manto púrpura sobre Jesus antes da crucificação, em zombaria à acusação de que ele seria o “Rei dos Judeus”.
A referência não era casual. A púrpura comunicava realeza, autoridade e prestígio.
Por isso, encontrá-la em túmulos infantis muda a forma como os pesquisadores olham para o luto na Roma Antiga.
Durante muito tempo, historiadores defenderam que a alta mortalidade infantil teria reduzido os vínculos emocionais entre pais e filhos. Na época, cerca de 30% das crianças morriam antes de completar um ano, e algumas tradições limitavam manifestações públicas de luto por bebês.
Os tecidos raros, os fios de ouro e o cuidado com o sepultamento indicam que aquelas crianças receberam uma despedida reservada às famílias mais ricas e influentes da sociedade romana.
Mais do que uma descoberta arqueológica, o achado revela que pais, há quase dois milênios, enterraram seus filhos com o que havia de mais precioso no mundo que conheciam.
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