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“Cascatas de sangue”: parece IA, mas imagens são reais. Entenda o fenômeno

Cientistas descobriram que existe um ecossistema perdido há milhares de anos escondido atrás dessa cena impressionante.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
cascata de sangue na antartida
Fonte da imagem: Reprodução

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No coração da gélida Antártida existe um cenário que parece ter saído diretamente de um filme de ficção científica

Uma cachoeira jorra, misturando um líquido vermelho que parece sangue com o branco das geleiras

Conhecido como castata de sangue, ou blood falls em inglês, esse fenômeno intriga cientistas e pesquisadores desde sua descoberta em 1911

Durante muitos anos, cientistas acreditaram que a coloração fosse causada por algas vermelhas, semelhantes às que aparecem em algumas regiões polares. A hipótese, porém, estava errada.

Hoje se sabe que a cor é provocada por uma salmoura extremamente rica em ferro, aprisionada sob o gelo há pelo menos 1,5 milhão de anos. 

Enquanto permanece isolado, o ferro dissolvido é invisível, mas entra em contato com o oxigênio do ar, o metal sofre oxidação e ganha o tom característico de vermelho.

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Por que a água não congela?

Outra questão que chamou a atenção dos cientistas é que essa água continua líquida mesmo em temperaturas muito abaixo de zero.

A explicação está na enorme concentração de sal. A salmoura encontrada sob a geleira possui uma salinidade cerca de três vezes maior que a da água do mar. 

Quanto mais sal existe na água, menor é seu ponto de congelamento, o que permite bolsões de água líquida preservados sob quilômetros de gelo.

A cascata não flui continuamente. A pressão acumulada sob a geleira abre pequenos canais internos, permitindo que parte dessa salmoura alcance a superfície.

Um oceano antigo preservado sob o gelo

As descobertas mais recentes, publicadas na revista científica Nature Geoscience, revelaram que o fenômeno guarda um segredo ainda mais surpreendente.

Pesquisadores analisaram 167 amostras de água, gelo, sedimentos e lama coletadas nas Cascatas de Sangue e em outras regiões dos Vales Secos de McMurdo.

O objetivo era descobrir se havia vida naquele ambiente praticamente isolado do restante do planeta. A resposta foi positiva.

Os cientistas identificaram uma comunidade rica de microrganismos marinhos vivendo ao redor do reservatório subterrâneo

Entre eles estão diatomáceas, dinoflagelados, haptófitas e ciliados, organismos normalmente encontrados no oceano.

As análises mostraram que muitos desses microrganismos continuam ativos, mesmo sem luz solar, com temperaturas extremas e alta concentração de sal.

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Um mundo perdido

As evidências indicam que esses organismos descendem de uma antiga comunidade marinha que ficou presa quando a água do mar inundou a região.

Com o avanço das geleiras, esse antigo braço do oceano acabou completamente isolado. Enquanto o continente congelava, a comunidade permaneceu preservada na salmoura.

Os pesquisadores observaram que muitos desses organismos apresentam diferenças genéticas em relação às espécies marinhas atuais.

Além disso, identificaram sinais de reparação celular, resposta ao estresse e, em alguns casos, entrando em estados de dormência para sobreviver às condições extremas.

Para os pesquisadores, as Cascatas de Sangue funcionam como uma verdadeira cápsula do tempo.

Em vez de reconstruir o passado apenas por meio de fósseis ou rochas, os cientistas podem estudar organismos cujos ancestrais viveram naquele ambiente antes mesmo da formação da atual camada de gelo da Antártica.

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