Levantamento revela que quase 1,5 milhão de decisões da Corte foram tomadas por um ministro só nos últimos 15 anos.

Ives Gandra Martins, um dos nomes mais respeitados do Direito no país, traz em sua bagagem a experiência de ter participado da Assembleia Constituinte de 1988.
Jurista multipremiado e referência acadêmica, ele trouxe a público um dado que levanta dúvidas sobre o funcionamento do pilar mais alto do Judiciário brasileiro.
Ele detalhou um levantamento de jurimetria do Instituto Advogados, realizado entre 2010 e 2025, que, segundo Ives, revela que o STF se tornou uma corte de decisões individuais.
De acordo com o levantamento, o Tribunal proferiu 1.446.496 decisões monocráticas no período, ou seja, decisões tomadas por apenas um ministro e não pelo conjunto dos onze.
Esse volume corresponde a 85% de todas as decisões da Corte, restando apenas 15% para as discussões em grupo. Para Ives Gandra, esse cenário muda a própria "pirâmide da ordem processual".
De acordo com o doutor Ives, a lógica do Direito prevê que, quanto mais se sobe na hierarquia judicial, mais coletiva deve ser a decisão.
Nos tribunais mais simples, como os de primeira instância, é comum o julgamento de um único juiz; na segunda, exige-se um grupo de magistrados mais experientes.
O Supremo Tribunal deveria decidir sempre em conjunto, garantindo que a palavra final sobre a Constituição seja fruto do debate entre todos os seus membros.
"O que os constituintes pretenderam era ter um Supremo colegiado. Se é para errar, que o erro fosse coletivo, mas não individual", pontua o professor.
O jurista compara o modelo brasileiro ao da Suprema Corte Americana, onde as decisões são sempre em grupo, pois a palavra final sobre o Direito exige a opinião de todos os ministros, não apenas do relator.
No Brasil, entretanto, as decisões monocráticas podem prevalecer por até 36 meses, permitindo que a vontade de um único homem governe o entendimento da Corte por anos.
Ives Gandra também critica as chamadas "sessões virtuais", argumentando que elas não passam de decisões individuais enviadas por sistema, sem o debate real onde advogados podem corrigir questões de fato durante os votos.
O jurista afirma que não é um ataque à honra ou à honestidade dos ministros, aos quais ele reforçou seu profundo respeito e admiração como juristas.
O ponto central é a mudança de função da Corte nos últimos anos. Segundo ele, o STF passou a atuar como um "novo legislador" e "novo administrador", intervindo em políticas públicas e processos de forma que a Assembleia Constituinte de 1988 nunca autorizou.
O resultado dessa transformação é uma crise de credibilidade perante a sociedade. Ives Gandra afirma que as críticas ao STF não são ataques pessoais aos ministros, mas uma rejeição ao modelo atual da Corte.
Para ele, o problema é o poder excessivo de um único magistrado para suspender leis, ordenar prisões e intervir nos outros poderes e que o Supremo pode voltar a ser como foi concebido pela assembléia constituinte.
“Não foi aquilo que eu vi durante a constituinte como os constituintes quiseram fazer do Supremo o guardião da Constituição não um novo legislador nem um novo administrador não um homem que se transformasse do verdadeiro poder [...] como se fosse o poder supremo da nação”.
Para entender como essa concentração de poder afeta diretamente a política e como os poderes estão divididos assista a Crise dos três poderes, produção original da Brasil Paralelo.
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